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CRTICAS LITERRIAS
MACHADO
DE ASSIS
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CRTICAS LITERRIAS
NDICE
[l] O PASSADO, O PRESENTE E O FUTURO DA LITERATURA
[2] IDIAS SOBRE O TEATRO
[3] O IDEAL DO CRTICO
[4] NOTCIA DA ATUAL LITERATURA BRASILEIRA. INSTINTO DE
NACIONALIDADE
[5] A NOVA GERAO
[6] A CRTICA TEATRAL. JOS DE ALENCAR: ME
[7] PROPSITO
[8] J.M. DE MACEDO: O CULTO DO DEVER
[9] JOS DE ALENCAR: IRACEMA
[10] JUNQUEIRA FREIRE: INSPIRAES DO CLAUSTRO
[11] FAGUNDES VARELA: CANTOS E FANTASIAS
[12] O TEATRO NACIONAL
[13] O TEATRO DE GONALVES DE MAGALHES
[14] O TEATRO DE JOS DE ALENCAR
[15] O TEATRO DE JOAQUIM MANUEL DE MACEDO
[16] PORTO ALEGRE: COLOMBO
[17] LVARES DE AZEVEDO: LIRA DOS VINTE ANOS
[18] CASTRO ALVES
[19] LCIO DE MENDONA: NVOAS MATUTINAS
[20] FAGUNDES VARELA
[21] EA DE QUEIRS: O PRIMO BASILIO
[22] FRANCISCO DE CASTRO: HARMONIAS ERRANTES
[23] RAIMUNDO CORREIA: SINFONIAS
[24] CARLOS JANSEN: CONTOS SELETOS DAS MIL E UMA NOITES
[25] ALBERTO DE OLIVEIRA: MERIDIONAIS
[26] ENIAS GALVO: MIRAGENS
[27] L. L. FERNANDES PINHEIRO JNIOR: TIPOS E QUADROS
[28] JOS DE ALENCAR: OGUARANI
[29] NA ACADEMIA BRASILEIRA [DISCURSO INAUGURAL]
[30] II / SESSO DE ENCERRAMENTO
[31] MAGALHES DE AZEREDO: PROCELRIAS
[32] GARRETT
[33] EA DE QUEIRS
[34] MAGALHES DE AZEREDO: HORAS SAGRADAS E VERSOS
[35] OLIVEIRA LIMA: SECRETRIO D'EL-REI
[36] JOAQUIM NABUCO: PENSES DTACHES ET SOUVENIRS
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[l] O PASSADO, O PRESENTE E O FUTURO DA LITERATURA
I
A LITERATURA e a poltica, estas duas faces bem distintas
da sociedade civilizada, cingiram como uma dupla prpura
de glria e de martrio os vultos luminosos da nossa
histria de ontem. A poltica elevando as cabeas
eminentes da literatura, e a poesia santificando com suas
inspiraes atrevidas as vtimas das agitaes
revolucionrias, e a manifestao eloqente de uma raa
herica que lutava contra a indiferena da poca, sob o
peso das medidas despticas de um governo absoluto e
brbaro. O ostracismo e o cadafalso no os intimidavam, a
eles, verdadeiros apstolos do pensamento e da liberdade;
a eles, novos Cristos da regenerao de um povo, cuja
misso era a unio do desinteresse, do patriotismo e das
virtudes humanitrias.
Era uma empresa difcil a que eles tinham ento em vista.
A sociedade contempornea era bem mesquinha para
bradaravante! aqueles missionrios da inteligncia e
sustent-los nas suas mais santas aspiraes. Parece que o
terror de uma poca colonial inoculava nas fibras ntimas
do povo o desnimo e a indiferena.
A poesia de ento tinha um carter essencialmente
europeu. Gonzaga, um dos mais lricos poetas da lngua
portuguesa, pintava cenas da Arcdia, na frase de Garrett,
em vez de dar uma cor local s suas liras, em vez de darlhes
um cunho puramente nacional. Daqui uma grande
perda: a literatura escravizava-se, em vez de criar um
estilo seu, de modo a poder mais tarde influir no equilbrio
literrio da Amrica.
Todos os mais eram assim: as aberraes eram raras. Era
evidente que a influncia poderosa da literatura portuguesa
sobre a nossa, s podia ser prejudicada e sacudida por
uma revoluo intelectual.
Para contrabalanar, porm, esse fato cujos resultados
podiam ser funestos, como uma valiosa exceo apareceu
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o Uraguai de Baslo da Gama. Sem trilhar a senda seguida
pelos outros, Gama escreveu um poema, se no
puramente nacional, ao menos nada europeu. No era
nacional, porque era indgena, e a poesia indgena,
brbara, a poesia do bor e do tup, no  a poesia
nacional. O que temos ns com essa raa, com esses
primitivos habitadores do pas, se os seus costumes no
so a face caracterstica da nossa sociedade?
Baslio da Gama era entretanto um verdadeiro talento,
inspirado pelas ardncias vaporosas do cu tropical. A sua
poesia suave, natural, tocante por vezes, elevada, mas
elevada sem ser bombstica, agrada e impressiona o
esprito. Foi pena que em vez de escrever um poema de
to acanhadas propores, no empregasse o seu talento
em um trabalho de mais larga esfera. Os grandes poemas
so to raros entre ns!
As odes de Jos Bonifcio so magnficas. As belezas da
forma, a conciso e a fora da frase, a elevao do estilo,
tudo encanta e arrebata. Algumas delas so superiores s
de Filinto. Jos Bonifcio foi a reunio dos dous grandes
princpios pelos quais sacrificava-se aquela gerao: a
literatura e a poltica. Seria mais poeta se fosse menos
poltico; mas no seria talvez to conhecido das classes
inferiores. Perguntai ao trabalhador que cava a terra com a
enxada, quem era Jos Bonifcio; ele vos falar dele com o
entusiasmo de um corao patriota. A ode no chega ao
tugrio do lavrador. A razo  clara: faltam-lhe os
conhecimentos, a educao necessria para compreendla.
Os Andradas foram a trindade simblica da inteligncia, do
patriotismo, e da liberdade. A natureza no produz muitos
homens como aqueles. Interessados vivamente pela
regenerao da ptria, plantaram a dinastia bragantina no
trono imperial, convctos de que o heri do Ipiranga
convinha mais que ningum a um povo altamente liberal e
assim legaram  gerao atual as douradas tradies de
uma gerao fecunda de prodgios, e animada por uma
santa inspirao.
Sousa Caldas, S. Carlos e outros muitos foram tambm
astros luminosos daquele firmamento literrio. A poesia  a
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forma mais conveniente e perfeitamente acomodada s
expanses espontneas de um pas novo, cuja natureza s
conhece uma estao, a primavera, teve naqueles homens,
verdadeiros missionrios que honraram a ptria e provam
as nossas riquezas intelectuais ao crtico mais investigador
e exigente.
II
Uma revoluo literria e poltica fazia-se necessria. O
pas no podia continuar a viver debaixo daquela dupla
escravido que o podia aniquilar.
A aurora de 7 de Setembro de 1882, foi a aurora de uma
nova era. O grito do Ipiranga foi o - Eureca- soltado pelos
lbios daqueles que verdadeiramente se interessam pela
sorte do Brasil cuja felicidade e bem-estar procuravam.
O pas emancipou-se. A Europa contemplou de longe esta
regenerao poltica, esta transio sbita da servido para
a liberdade, operada pela vontade de um prncipe e de
meia dzia de homens eminentemente patriotas. Foi uma
honrosa conquista que nos deve encher de glria e de
orgulho; e  mais que tudo uma eloqente resposta s
interrogaes pedantescas de meia dzia de cticos da
poca: o que somos ns?
Havia, digamos de passagem, no procedimento do
fundador do imprio um sacrifcio herico, admirvel e
pasmoso. Dous tronos se erguiam diante dele: um, cheio
de tradies e de glrias; o outro, apenas sado das mos
do povo, no tinha passado, e fortificava-se s com uma
esperana no futuro! Escolher o primeiro era um duplo
dever, como patriota e como prncipe. Aquela cabea
inteligente devia dar o seu quinho de glria ao trono de
D.Manuel e D. Joo II. Pois bem! ele escolheu o segundo,
com o qual nada ganhava, e ao qual ia dar muito. H
poucos sacrifcios como este.
Mas aps o fiat poltico, devia vir o fiat literrio, a
emancipao do mundo intelectual, vacilante sob a ao
influente de uma literatura ultramarina. Mas como?  mais
fcil regenerar uma nao, que uma literatura. Para esta
no h gritos de Ipiranga; as modificaes operam-se
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vagarosamente; e no se chega em um s momento a um
resultado.
Alm disso, as erupes revolucionrias agitavam as
entranhas do pas; o facho das dimenses civis ardia em
coraes inflamados pelas paixes polticas. O povo tinhase
fracionado e ia derramando pelas prprias veias a fora
e a vida. Cumpria fazer cessar essas lutas fratricidas para
dar lugar as lutas da inteligncia, onde a emulao  o
primeiro elemento e cujo resultado imediato so os louros,
fecundos da glria e os aplausos entusisticos de uma
posteridade agradecida.
A sociedade atual no  decerto compassiva, no acolhe o
talento como deve faz-lo. Compreendam-nos! ns no
somos inimigo encarniado do progresso material.
Chateaubriand o disse: " quando se aperfeioar o vapor,
quando unido ao telegrafo tiver feito desaparecer as
distncias, no ho de ser s as mercadorias que ho de
viajar de um lado a outro do globo, com a rapidez do
relmpago; ho de ser tambm as idias". Este
pensamento daquele restaurador do cristianismo-
justamente o nosso-; nem  o desenvolvimento material
que acusamos e atacamos. O que ns queremos, o que
qerem todas as vocaes, todos os talentos da atualidade
literria,  que a sociedade no se lance exclusivamente na
realizao desse progresso material, magnfico pretexto de
especulao, para certos espiritos positivos que se alentam
no fluxo e refluxo das operaes monetrias. O predomnio
exclusivo dessa realeza parva, legitimidade fundada numa
letra de cmbio,  fatal, bem fatal s inteligncias; o
talento pode e tem tambm direito aos olhares piedosos da
sociedade moderna: negar-lhos  matar-lhe todas as
aspiraes,  nulificar-lhe todos os esforos aplicados na
realizao das idas mais generosas, dos princpios mais
salutares, e dos germes mais fecundos do progresso e da
civilizao.
III
 sem dvida, por este doloroso indiferentismo que a
gerao atual tem de encontrar numerosas dificuldades na
peregrinao; contrariedades que, sem abater de todo as
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tendncias literrias, toda via podem fatig-las reduzindoas
a um marasmo aptico, sintoma doloroso de uma
decadncia prematura.
No estado atual das cousas, a literatura no pode ser
perfeitamente um culto, um dogma intelectual, e o literato
no pode aspirar a uma exitncia independente, mas sim
tornar-se um homem social, participando dos movimentos
da sociedade em que vive e de que depende.
Esta verdade, exceto no jornalismo, verifica-se em
qualquer outra forma literria. Ora, ser possvel que assim
tenhamos uma literatura convenientemente desenvolvida?
Respondemos pela negativa.
Tratemos das trs formas literrias essenciais: -o romance,
o drama e a poesia.
Ningum que for imparcial afirmar a existncia das duas
primeiras entre ns; pelo menos, a existncia animada, a
existncia que vive, a existncia que se desenvolve
fecunda e progressiva. Raros, bem raros, se tem dado ao
estudo de uma forma to importante como o romance;
apesar mesmo da convivncia perniciosa com os romances
franceses, que discute, aplaude e endeusa a nossa
mocidade, to pouco escrupulosa de ferir as
susceptibilidades nacionais.
Podamos aqui assinalar os nomes desses poucos que se
tm entregado a um estudo to importante, mas isso no
entra na ordem deste trabalho, pequeno exame genrico
das nossas letras. Em um trabalho de mais largas
dimenses que vamos empreender analisaremos
minuciosamente esses vultos de muita importncia decerto
para a nossa recente literatura.
Passando ao drama, ao teatro,  palpvel que a esse
somos o povo mais parvo e pobreto entre as naes
cultas. Dizer que temos teatro,  negar um fato; dizer que
no o temos,  publicar uma vergonha. E todavia assim .
No somos severos: os fatos falam bem alto. O nosso
teatro  um mito, uma quimera. E nem se diga que
queremos que em to verdes anos nos ergamos a altura da
Frana, a capital da civilizao moderna; no! Basta que
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nos modelemos por aquela renascente literatura que
floresce em Portugal, inda ontem estremecendo ao impulso
das erupes revolucionrias.
Para que estas tradues enervando a nossa cena
dramtica? Para que esta inundao de peas francesas,
sem o mrito da localidade e cheias de equvocos,
sensabores as vezes, e galicismos, a fazer recuar o mais
denodado francelho?
 evidente que  isto a cabea de Medusa, que enche de
terror as tendncias indecisas, e mesmo as resolutas. Mais
de uma tentativa ter decerto abortado em face desta
verdade pungente, deste fato doloroso.
Mas a quem atribu-lo? Ao povo? O triunfo que obtiveram
as comdias do Pena, e do Sr. Macedo, prova o contrrio.
O povo no  avaro em aplaudir e animar as vocaes;
saber agrad-lo,  o essencial.
 fora de dvida, pois, que a no existir no povo a causa
desse mal. no pode existir seno nas direes e
empresas. Digam o que quiserem, as direes influem
neste caso. As tentativas dramticas naufragam diante
deste czariato de bastidores, imoral e vergonhoso, pois que
tende a obstruir os progressos da arte. A traduo  o
elemento dominante, nesse caos que devia ser a arca
santa onde a arte pelos lbios dos seus orculos falasse as
turbas entusiasmadas delirantes. Transplantar uma
composio dramtica francesa para a nossa lngua, 
tarefa de que se incumbe qualquer bpede que entende
letra redonda. O que provm da? O que se est vendo. A
arte tornou-se uma indstria; e  parte meia dzia de
tentativas bem sucedidas sem dvida, o nosso teatro 
uma fbula, uma utopia.
Haver remdio para a situao? Cremos que sim. Uma
reforma dramtica no  difcil neste caso. H um meio
fcil e engenhoso; recorra-se s operaes polticas. A
questo  de pura diplomacia; e um golpe de estado
literrio no  mais difcil que uma parcela de oramento.
Em termos claros, um tratado sobre direitos de
representao reservados, com o apndice de um imposto
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sobre tradues dramticas, vem muito a plo, e convm
perfeitamente as necessidades da situao.
Removido este obstculo, o teatro nacional ser uma
realidade? Respondemos afirmativamente. A sociedade,
Deus louvado!  uma mina a explorar, e um mundo
caprichoso, onde o talento pode descobrir, copiar, analisar,
uma aluvio de tipos e caracteres de todas as categorias.
Estudem-na: eis o que aconselhamos as vocaes da
poca!
A escola moderna presta-se precisamente ao gosto da
atualidade As Mullleres de MrmoreO Mundo EquvocoA
Dama das Camlhas  agradaram, apesar de tradues.
As tentativas do sr. Alencar tiveram um lisonjeiro sucesso.
Que mais querem? A transformao literria e social foi
exatamente compreendida pelo povo; e as antigas idias,
os cultos inveterados, vo caindo a proporo que a
reforma se realiza. Qual  o homem de gosto que atura no
sculo XIX uma punhalada insulsa tragicamente
administrada, ou trocadilhos sensabores da antiga farsa?
No divaguemos mais; a questo est toda neste ponto.
Removidos os obstculos que impedem a criao do teatro
nacional, as vocaes dramticas devem estudar a escola
moderna. Se uma parte do povo est ainda aferrada s
antigas idias, cumpre ao talento educ-la, cham-la 
esfera das idias novas, das reformas, dos princpios
dominantes.  assim que o teatro nascer e viver; 
assim que se h de construir um edifcio de propores to
colossais e de futuro to grandioso.
[2] IDIAS SOBRE O TEATRO
I
A ARTE DRAMTICA no  ainda entre ns um culto; as
vocaes definem-se e educam-se como um resultado
acidental. As perspectivas do belo no so ainda o m da
cena; o fundo de uma posio importante ou de um
emprego suave,  que para l impele as tendncias
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balbuciantes. As excees neste caso so to raras, to
isoladas que no constituem um protesto contra a verdade
absoluta da assero.
No sendo, pois, a arte um culto, a idia desapareceu do
teatro e ele reduziu-se ao simples foro de uma secretaria
de Estado. Desceu para l o oficial com todos os seus
atavios: a pndula marcou a hora do trabalho, e o talento
prendeu-se no montono emprego de copiar as formas
comuns, cedias e fatigantes de um aviso sobre a
regularidade da limpeza pbica.
Ora, a espontaneidade pra onde o oficial comea; os
talentos, em vez de se expandirem no largo das
concepes infinitas, limitaram-se  estrada indicada pelo
resultado real e representativo das suas fadigas de trinta
dias. Prometeu atou-se ao Cucaso.
Daqui uma poro de pginas perdidas. As vocaes
viciosas e simpticas sufocaram debaixo da atmosfera de
gelo, que parece pesar, como um sudrio de morto sobre a
tenda da arte. Daqui o pouco ouro que havia. l vai quase
que despercebido no meio da terra que preenche a mbula
sagrada.
Sero desconhecidas as causas dessa prostituio imoral?
No  difcil assinalar a primeira, e talvez a nica que
maiores efeitos tem produzido. Entre ns no h iniciativa.
No h iniciativa, isto , no h mo poderosa que abra
uma direo aos espritos; h terreno, no h semente; h
rebanho, no h pastor; h planetas, mas no h outro
sistema.
A arte para ns foi sempre rf; adornou-se nos esforos,
impossveis quase, de alguns caracteres de ferro, mas,
caminho certo, estrela ou alvo, nunca os teve.
Assim, basta a boa vontade de um exame ligeiro sobre a
nossa situao artstica para reconhecer que estamos na
infncia da moral; e que ainda tateamos para darmos com
a porta da adolescncia que parece escondida nas trevas
do futuro.
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A iniciativa em arte dramtica no se limita ao estreito
crculo do tablado  vai alm da rampa, vai ao povo. As
platias esto aqui perfeitamente educadas? A resposta 
negativa.
Uma platia avanada, com um tablado balbuciante e
errado,  um anacronismo, uma impossibilidade. H uma
interna relao entre uma e outro. Sfocles hoje faria rir ou
enjoaria as massas, e as platias gregas pateariam de boa
vontade uma cena de Dumas ou Barrire.
A iniciativa, pois, deve ter uma mira nica: a educao.
Demonstrar aos iniciados as verdades e as concepes da
arte; e conduzir os espritos flutuantes e contrados da
platia  esfera dessas concepes e dessas verdades.
Desta harmonia recproca de direes acontece que a
platia e o talento nunca se acham arredados no caminho
da civilizao.
Aqui h um completo deslocamento: a arte divorciou-se do
pblico. H entre a rampa e a platia um vcuo imenso de
que nem um nem outra se apercebe.
A platia ainda dominada pela impresso de uma
atmosfera, dissipada hoje no verdadeiro mundo da arte, 
no pode sentir claramente as condies vitais de uma
nova esfera que parece encerrar o esprito moderno. Ora, 
arte tocava a explorao dos novos mares que se lhe
apresentam no horizonte, assim como o abrir gradual, mas
urgente, dos olhos do pblico. Uma iniciativa firme e
fecunda e o elixir necessrio  situao; um dedo que,
grupando platia e tablado, folheie a ambos a grande bblia
da arte moderna com toda as relaes sociais,  do que
precisamos na atualidade.
Hoje no h mais pretenses, creio eu, de metodizar uma
luta de escola, e estabelecer a concorrncia de dois
princpios.  claro ou  simples que a arte no pode aberrar
das condies atuais da sociedade para perder-se no
mundo labirntico das abstraes. O teatro  para o povo o
que o Coro era para o antigo teatro grego; uma iniciativa
de moral e civilizao. Ora, no se pode moralizar fatos de
pura abstrao em proveito das sociedades; a arte no
deve desvairar-se no doido infinito das concepes ideais,
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mas identificar-se com o fundo das massas; copiar,
acompanhar o povo em seus diversos movimentos, nos
vrios modos da sua atividade.
Copiar a civilizao existente e adicionar-lhe uma partcula,
 uma das foras mais produtivas com que conta a
sociedade em sua marcha de progresso ascendente.
Assim os desvios de uma sociedade de transio l vo
passando e  arte moderna toca corrigi-la de todo. Querer
levantar luta entre um princpio falso, decado, e uma idia
verdadeira que se levanta,  encerrar nas grades de uma
gaiola as verdades puras que se evidenciavam no crebro
de Salomo de Caus.
Estas apreenses so tomadas de alto e constituem as
bordas da cratera que  preciso entrar. Desamos ate as
aplicaes locais.
A arena da arte dramtica entre ns  to limitada, que 
difcil fazer aplicaes sem parecer assinalar fatos, ou ferir
individualidades. De resto,  de sobre individualidades e
fatos que irradiam os vcios e as virtudes, e sobre eles
assenta sempre a anlise. Todas as suscetibilidades, pois,
so inconseqentes,  a menos que o erro ou a
maledicncia modelem estas ligeiras apreciaes.
A reforma da arte dramtica estendeu-se at ns e
pareceu dominar definitivamente uma frao da sociedade.
Mas isso  o resultado de um esforo isolado operando por
um grupo de homens. No tem ao larga sobre a
sociedade. Esse esforo tem-se mantido e produzido os
mais belos efeitos; inoculou em algumas artrias o sangue
das novas idias, mas no o pde ainda fazer
relativamente a todo o corpo social.
No h aqui iniciativa direta e relacionada com todos os
outros grupos e filhos da arte.
A sua ao sobre o povo limita-se a um crculo to
pequeno que dificilmente faria resvalar os novos dogmas
em todas as direes sociais.
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Fora dessa manifestao singular e isolada,  h algumas
vocaes que de bom grado acompanhariam o movimento
artstico de sorte a tomarem uma direo mais de acordo
com as opinies do sculo. Mas so ainda vocaes
isoladas, manifestaes impotentes. Tudo  abafado e se
perde na grande massa.
Assinaladas e postas de parte certas crenas ainda cheias
de f, esse amor ainda santificado, o que resta? Os
mercadores entraram no templo e l foram pendurar as
suas alfaias de fancaria. So os jesutas da arte; os
jesutas expuseram o Cristo por tabuleta e curvaram-se
sobre o balco para absorver as fortunas. Os novos
invasores fizeram o mesmo, a arte  a inscrio com que
parecem absorver fortunas e seiva.
A arte dramtica tornou-se definitivamente uma carreira
pblica.
Dirigiram mal as tendncias e o povo. Diante das vocaes
colocaram os horizontes de um futuro inglrio, e fizeram
crer s turbas que o teatro foi feito para passatempo.
Aquelas e este tomaram caminho errado; e divorciaram-se
na estrada da civilizao.
Deste mundo sem iniciativa nasceram o anacronismo, as
anomalias, as contradies grotescas, as mascaradas, o
marasmo. A musa do tablado doidejou com os vestidos de
arlequim,  no meio das apupadas de uma multido bria.
 um fiat de reforma que precisa este caos.
H mister de mo hbil que ponha em ao, com proveito
para a arte e para o pas, as subvenes improdutivas,
empregadas na aquisio de individualidades parasitas.
Esta necessidade palpitante no entra na vista dos nossos
governos. Limitam-se ao apoio material das subvenes e
deixam entregue o teatro a mos ou profanas ou
malficas.
O desleixo, as lutas internas, so os resultados lamentveis
desses desvios da arte. Levantar um paradeiro a essa
15
corrente despenhada de desvarios,  a obra dos governos e
das iniciativas verdadeiramente dedicadas.
II
Se o teatro como tablado degenerou entre ns, como
literatura  uma fantasia do esprito.
No se argumente com meia dzia de tentativas, que
constituem apenas uma exceo; o poeta dramtico no 
ainda aqui um sacerdote, mas um crente de momento que
tirou simplesmente o chapu ao passar pela porta do
templo. Orou e foi caminho.
O teatro tornou-se uma escola de aclimatao intelectual
para que se transplantaram as concepes de estranhas
atmosferas, de cus remotos. A misso nacional, renegoua
ele em seu caminhar na civilizao; no tem cunho local;
reflete as sociedades estranhas, vai ao impulso de
revolues alheias  sociedade que representa, presbita da
arte que no enxerga o que se move debaixo das mos.
Ser aridez de inteligncia? no o creio.  fecunda de
talentos a sociedade atual. Ser falta de nimo? talvez;
mas ser essencialmente falta de emulao. Essa  a causa
legtima da ausncia do poeta dramtico; essa no outra.
Falta de emulao? Donde vem ela? Das platias?
Das platias. Mas  preciso entender: das platias, porque
elas no tm, como disse, uma seduo real e
conseqente.
J assinalei a ausncia de iniciativa e a desordem que
esteriliza e mata tanto elemento aproveitvel que a arte
em caos encerra. A essa falta de um raio condutor se
prende ainda a deficincia de poeta dramticos.
Uma educao viciosa constitui o paladar das platias.
Fizeram ar em face das multides uma procisso de
manjares esquisitos de um sabor estranho, no festim da
arte, os naturalizaram sem cuidar dos elementos que
fermentavam em torno de nossa sociedade, e que s
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esperavam uma mo poderosa para tomarem uma forma e
uma direo.
As turbas no so o mrmore que cede somente ao
trescalar laborioso do escopro, so a argamassa que se
amolda  presso dos dedos. Era fcil dar-lhes uma
fisionomia; deram-lha. Os olhos foram rasgados para
verem segundo as convenincias singulares de uma
autocracia absoluta.
Conseguiram faz-lo.
Habituaram a platia nos boulevards elas esqueceram as
distncias e gravitam em um crculo vicioso. Esqueceramse
de si mesmas; e os czares da arte lisonjeiam-lhes a
iluso com esse manjar exclusivo que deitam  mesa
pblica.
Podiam dar a mo aos talentos que se grupam nos
derradeiros degraus a espera de um chamado.
Nada!
As tentativas nascem pelo esforo sobre-humano de
alguma inteligncia onipotente,  mas passam depois de
assinalar um sacrifcio, mais nada!
E, de feito, no  mau este proceder.  uma mina o
estrangeiro, h sempre que tomar  mo; e as
inteligncias no so mquinas dispostas s vontades e
convenincias especulativas.
Daqui o nascimento de uma entidade: o tradutor
dramtico, espcie de criado de servir que passa, de uma
sala a outra, os pratos de uma cozinha estranha.
Ainda mais essa!
Dessa deficincia de poetas dramticos, que de coisas
resultam! que deslocamentos!
Vejamos.
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Pelo lado da arte o teatro deixa de ser uma reproduo da
vida social na esfera de sua localidade. A crtica resolver
debalde o escalpelo nesse ventre sem entranhas prprias,
pode ir procurar o estudo do povo em outra face; no teatro
no encontrar o cunho nacional mas uma galeria
bastarda, um grupo furta-cor, uma associao de
nacionalidades.
A civilizao perde assim a unidade. A arte, destinada a
caminhar na vanguarda do povo como uma preceptora, 
vai copiar as sociedades ultrafronteiras.
Tarefa estril!
No pra aqui. Consideremos o teatro como um canal de
iniciao. O jornal e a tribuna so os outros dois meios de
proclamao e educao pblica. Quando se procura iniciar
uma verdade busca-se um desses respiradouros e lana-se
o pomo s multides ignorantes. No pas em que o jornal,
a tribuna e o teatro tiverem um desenvolvimento
conveniente  as caligens cairo aos olhos das massas;
morrer o privilgio, obra de noite e da sombra; e as
castas superiores da sociedade ou rasgaro os seus
pergaminhos ou cairo abraadas com eles, como em
sudrios.
 assim, sempre assim; a palavra escrita na imprensa, a
palavra falada na tribuna, ou a palavra dramatizada no
teatro, produziu sempre uma transformao.  o grande
fiat de todos os tempos.
H porm uma diferena: na imprensa e na tribuna a
verdade que se quer proclamar  discutida, analisada, e
torcida nos clculos da lgica; no teatro h um processo
mais simples e mais ampliado; a verdade parece nua, sem
demonstrao, sem anlise.
Diante da imprensa e da tribuna as idias abalroam-se,
ferem-se, e lutam para acordar-se; em face do teatro o
homem v, sente, palpa; est diante de uma sociedade
viva, que se move, que se levanta, que fala, e de cujo
composto se deduz a verdade, que as massas colhem por
meio de iniciao. De um lado a narrao falada ou cifrada,
18
de outro a narrao estampada, a sociedade reproduzida
no espelho fotogrfico de forma dramtica.
 quase capital a diferena.
No s o teatro  um meio de propaganda, como tambm
 o meio mais eficaz, mais firme, mais insinuante.
 justamente o que no temos.
As massas que necessitam de verdades, no as
encontraro no teatro destinado  reproduo material e
improdutiva de concepes deslocadas da nossa civilizao,
 e que trazem em si o cunho de sociedades afastadas.
 uma grande perda; o sangue da civilizao, que se
inocula tambm nas veias do povo pelo teatro, no desce a
animar o corpo social: ele se levantar dificilmente embora
a gerao presente enxergue o contrrio com seus olhos de
esperana.
Insisto pois na assero: o teatro no existe entre ns: as
excees so esforos isolados que no atuam, como disse
j, sobre a sociedade em geral. No h um teatro nem
poeta dramtico...
Dura verdade, com efeito! Como! pois imitamos as
frivolidades estrangeiras, e no aceitamos os seus dogmas
de arte?  um problema talvez; as sociedades infantes
parecem balbuciar as verdades, que deviam proclamar
para o prprio engrandecimento. Ns temos medo da luz,
por isso que a empanamos de fumo e vapor.
Sem literatura dramtica, e com um tablado, regular aqui,
 verdade, mas deslocado e defeituoso ali e alm,  no
podemos aspirar a um grande passo na civilizao.  arte
cumpre assinalar como um relevo na histria as aspiraes
ticas do povo  e aperfeio-las e conduzi-las, para um
resultado de grandioso futuro.
O que e necessrio para esse fim?
Iniciativa e mais iniciativa.
19
III
O CONSERVATRIO DRAMTICO
A literatura dramtica tem, como todo o povo constitudo,
um corpo policial, que lhe serve de censura e pena:  o
conservatrio.
Dois so, ou devem ser, os fins desta instituio: o moral e
o intelectual. Preenche o primeiro na correo das feies
menos decentes das concepes dramticas; atinge ao
segundo analisando e decidindo sobre o mrito literrio 
dessas mesmas concepes.
Com esses alvos um conservatrio dramtico  mais que
til,  necessrio. A crtica oficial, tribunal sem apelao,
garantido pelo governo, sustentado pela opinio pblica, 
a mais fecunda das crticas, quando pautada pela razo, e
despida das estratgias surdas.
Todas as tentativas, pois, toda a idia para nulificar uma
instituio como esta,  nulificar o teatro, e tirar-lhe a
feio civilizadora que porventura lhe assiste.
Corresponder  definio que aqui damos desse tribunal
de censura, a instituio que temos a chamada 
Conservatrio Dramtico? Se no corresponde, onde est a
causa desse divrcio entre a idia e o corpo?
Dando a primeira pergunta uma negativa, vejamos onde
existe essa causa.  evidente que na base, na constituio
interna, na lei de organizao. As atribuies do
Conservatrio limitam-se a apontar os pontos descarnados
do corpo que a decncia manda cobrir: nunca as ofensas
feitas s leis do pas, e  religio ... do Estado; mais nada.
Assim procede o primeiro fim a que se prope uma
corporao dessa ordem; mas o segundo? nem uma
concesso, nem um direito.
Organizado desta maneira era intil reunir os homens da
literatura nesse tribunal; um grupo de vestais bastava.
20
No sei que razo se pode alegar em defesa da
organizao atual do nosso Conservatrio, no sei. Viciado
na primitiva, no tem ainda hoje uma frmula e um fim
mais razovel com as aspiraes do teatro e com o senso
comum.
Preenchendo o primeiro dos dois alvos a que deve atender,
o Conservatrio em vez de se constituir um corpo
deliberativo, torna-se uma simples mquina, instrumento
comum, no sem ao que traa os seus juzos sobre as
linhas implacveis de um estatuto que lhe serve de norma.
Julgar de uma composio pelo que toca s ofensas feitas 
moral, s leis e  religio, no  discutir-lhe o mrito
puramente literrio, no pensamento criador, na construo
cnica, no desenho dos caracteres, na disposio das
figuras no jogo da lngua.
Na segunda hiptese h mister de conhecimentos mais
amplos, e conhecimentos tais que possam legitimar uma
magistratura intelectual. Na primeira, como disse, basta
apenas meia dzia de vestais e duas ou trs daquelas
fidalgas devotas do rei de Mafra. Estava preenchido o fim.
Julgar do valor literrio de uma composio,  exercer uma
funo civilizadora, ao mesmo tempo que praticar um
direito do esprito: e tomar um carter menos vassalo, e de
mais iniciativa e deliberao.
Contudo, por vezes as inteligncias do nosso Conservatrio
como que sacodem esse freio que lhe serve de lei, e
entram no exerccio desse direito que se lhe nega; no
deliberam,  verdade, mas protestam. A esttua l vai
tomar vida nas mos de Prometeu, mas a inferioridade do
mrmore fica assinalada com a autpsia do escopro.
Mas ganha a literatura, ganha a arte com essas anlises da
sombra? Ganha, quando muito, o arquivo. A anlise das
concepes, o estudo das prosdias, vo morrer, ou pelo
menos dormir no p das estantes.
No  esta a misso de um Conservatrio dramtico. Antes
negar a inteligncia que limit-la ao estudo enfadonho das
21
indecncias, e marcar-lhe as inspiraes pelos artigos de
uma lei viciosa.
E  note-se bem!   esta uma questo de grande
alcance. Qual  a influncia de um Conservatrio
organizado desta forma? E que respeito pode inspirar
assim ao teatro?
Trocam-se os papis. A instituio perde o direito de juiz e
desce na razo da ascendncia do teatro.
Faam ampliar as atribuies desse corpo; procurem darlhe
outro carter mais srio, outros direitos mais
iniciadores; faam dessa sacristia de igreja um Tribunal de
censura.
Completem, porm, toda essa mudana de forma. Qual  o
resultado do annimo? Se o Conservatrio  um jri
deliberativo, deve ser inteligente; e por que no h de a
inteligncia minguar os seus juzos? Em matria de arte eu
no conheo susceptibilidades nem interesses. Emancipem
o espirito, ho de respeitar-lhe as decises.
*
Ser fcil uma emancipao do esprito neste caso?  .
Basta que os governos compreendam um dia esta verdade
de que o teatro no  uma simples instituio de recreio,
mas um corpo de iniciativa nacional e humana.
Ora, os governos que tm descido o olhar e a mo a tanta
cousa ftil, no repararam ainda nesta nesga de fora
social, apeada de sua ao, arredada de seu caminho por
caprichos mal-entendidos, que a fortuna colocou por
fatalidade  sombra da lei.
Criaram um Conservatrio Dramtico por instinto de
imitao criaram uma cousa a que tiveram a delicadeza ou
mau gosto de chamar teatro normal, e dormiram
descansados, como se tivessem levantado uma pirmide
no Egito.
Ora, todos ns sabemos o que  esse Conservatrio e este
teatro normal; todos ns temos assistido s a o agonias de
22
um e aos desvario do outro; todos temos visto como essas
duas instituies destinadas caminharem de acordo na rota
da arte, divorciaram-se de alvo e de estrada. O
Conservatrio comprometeu a dignidade do seu papel, o
antes o obrigaram a isso, e o teatro, acordando um dia
com instinto de Csar, tentou conquistar todo o mundo da
arte, e entreviu tambm que lhe cumpria comear a
empresa por um tribunal de censura.
Com esta guerra civil no mundo dramtico, limitadas as
decises de censura, est claro, e claro a olhos nus que a
arte sofria e cor ela a massa popular, as platias. A
censura estava obrigada a suicidar-se de um direito e
subscrever as frioleiras mais insensatas que o teatro
entendesse qualificar de composio dramtica.
Este estado de cousas que eu percebo, inteligncia mnima
como sou, ser percebido tambm pelos governos? No 
fcil de aceitar a hiptese negativa, porquanto
evidentemente no os posso considerar abaixo de mim na
ptica do esprito. Concordo pois, que os governo no tm
sido estranhos nesta anarquia da arte, e ento uma
negligncia assim, depe muito contra a conscincia do
poder.
No h fugir daqui. Onde est esse projeto sobre a
literatura dramtica apresentado h tempos na cmara
temporria? Era matria de contrabando, e as aspiraes
polticas estavam ocupadas em negcios que visavam
outros alvos mais slidos ou pelo menos mais reais. Esse
projeto, dando um carter mais srio ao teatro, abria as
suas portas s inteligncias dramticas por meio de um
incentivo honroso. Trazia em si um princpio de vida: l foi
para o barbante do esquecimento!
 simples, e no carece de larga observao: os governos
em matria de arte e literatura olham muito de alto; no
tomam o trabalho de descer  anlise para dar a mo ao
que o merece.
Entretanto o que se pede no  uma vigilncia exclusiva;
ningum pretende do poder emprego absoluto dos seus
sentidos e faculdades. Nesta questo sobretudo  fcil o
remdio; basta uma reforma pronta, inteiria, radical, e o
23
Conservatrio Dramtico entrar na esfera dos deveres e
direitos que fazem completar o pensamento de sua criao.
Com o direito de reprovar e proibir por incapacidade
intelectual, com a viseira levantada ao esprito da abolio
do annimo, o Conservatrio, como disse acima, deixa de
ser uma sacristia de igreja para ser um tribunal de
censura.
E sabem o que seria ento esse tribunal? uma muralha de
inteligncia s irrupes intempestivas que o capricho
quisesse fazer no mundo da arte, s bacanais indecentes e
parvas que ofendessem a dignidade do tablado, porque
infelizmente  fato lquido, h l tambm uma dignidade.
O Conservatrio seria isso e estaria nas linhas do seu dever
e de seu direito.
Mas no meio destes reparos, resta ainda um fato
importante  a literatura dramtica.
Com uma reforma no Conservatrio, parece-me claro que
ganhava tambm a arte escrita. No temos (ningum ser
to ingnuo que confesse esse absurdo) no temos
literatura dramtica, na extenso da frase; algumas
estrelas no fazem uma constelao: so lembranas
deixadas no tablado por distrao, palavras soltas, aromas
queimados, despidos de todo o carter sacerdotal.
No podia o Conservatrio tomar um encargo no sentido de
fazer desenvolver o elemento dramtico na literatura? As
vantagens so evidentes  alm de emancipar o teatro,
no expunha as platias aos barbarismos das tradues de
fancaria que compem uma larga parte dos nossos
repertrios.
Mas, entendam bem! inculco esse encargo ao
Conservatrio, mas a um Conservatrio que eu imagino,
que alm de possuir os direitos conferidos por uma
reforma, deve possuir esses direitos de capacidade
conferidos pela inteligncia e pelos conhecimentos.
No  ofender com isto as inteligncias legtimas do atual
Conservatrio. Eu no nego o sol; o que nego, ou pelo
24
menos o que condeno em conscincia so as sombras que
no do luz e que mareiam a luz.
Um Conservatrio ilustrado em absoluto  uma garantia
para o teatro, para a platia e para a literatura.
Para faz-lo assim basta que o poder faa descer essa
reforma to desejada.
[3] O IDEAL DO CRTICO
EXERCER a crtica, afigura-se a alguns que  uma fcil
tarefa, como a outros parece igualmente fcil a tarefa do
legislador; mas, para a representao literria, corno para
a representao poltica,  preciso ter alguma coisa mais
que um simples desejo de falar a multido. Infelizmente 
a opinio contrria que domina, e a crtica, desamparada
pelos esclarecidos,  exercida pelos incompetentes.
So bvias as conseqncias de uma tal situao. As
musas, privadas de um farol seguro, correm o risco de
naufragar nos mares sempre desconhecidos da publicidade.
O erro produzir o erro; amortecidos os nobres estmulos,
abatidas as legtimas ambies, s um tribunal ser
acatado, e esse, se  o mais numeroso,  tambm o menos
decisivo. O poeta oscilar entre as sentenas mal
concebidas do crtico, e os arestos caprichosos da opinio;
nenhuma luz, nenhum conselho, nada lhe mostrar o
caminho que deve segir,e a morte prxima ser o prmio
definitivo das suas fadigas e das suas lutas.
Chegamos j a estas tristes conseqncias? No quero
proferir juzo, que seria temerrio, mas qualquer pode
notar com que largos intervalos aparecem as boas obras, e
como so raras as publicaes seladas por um talento
verdadeiro. Quereis mudar esta situao aflitiva?
Estabelecei a crtica, mas a crtica fecunda? e no a estril,
que nos aborrece e nos mata, que no reflete nem discute,
que abate por capricho ou levanta por vaidade;estabelecei
25
a crtica pensadora, sincera, perseverante, elevada, - ser
esse o meio de reerguer os nimos, promover os
estmulos, guiar os estreantes, corrigir os talentos feitos;
condenai o dio a camaradagem e a indiferena, - essas
trs chagas da crtica de hoje, - podem em lugar deles,
pondo em lugar deles, a sinceridade, a solicitude e a
justia, -  s assim que teremos uma grande literatura.
 claro que a essa crtica, destinada a produzir tamanha
reforma, deve-se exigir as condies e as virtudes que
faltam a crtica dominante; - e para melhor definir o meu
pensamento, eis o que eu exigiria no crtico do futuro.
O crtico atualmente aceito no prima pela cincia literria;
creio que at que uma das condies para desempenhar
to curioso papel,  despreocupar-se de todas as questes
que entendem com o domnio da imaginao. Outra,
entretanto, deve ser a marcha do crtico; longe de resumir
em duas linhas, - cujas frases j o tipgrafo as tem feitas,
- o jugamento de uma obra, cumpre-lhe meditar
profundamente sobre ela, procurar-lhe o sentido ntimo,
aplicar-lhe as leis poticas, ver em fim at que ponto a
imaginao e a verdade conferenciaram para aquela
produo. deste modo as concluses do crtico servem
tanto  obra concluda, como a obra em embrio. Crtica 
anlise, - a crtica que no analisa  a mais cmoda, mas
no pode pretender a ser fecunda.
Para realizar to multiplicadas obrigaes, compreendo eu
que no basta uma leitura superficiais dos autores, nem a
simples reproduo das impresses de um momento;
pode-se,  verdade, fascinar o pblico, mediante uma
fraseologia que se emprega sempre para louvar ou
deprimir; mas no nimo daqueles para quem uma frase
nada vale, desde que no traz uma idia, - esse meio 
impotente, e essa crtica negativa.
No compreendo o crtico sem conscincia. A cincia e a
conscincia, eis as duas condies principais para escrever
a crtica. A crtica til e verdadeira ser aquela que, em vez
de modelar as suas sentenas por um interesse, quer seja
o interesse do dio, quer o da adulao ou da simpatia,
procure produzir unicamente os juzos da sua conscincia.
Ela deve ser sincera, sob pena de ser nula. No lhe  dado
26
defender nem os seus interesses pessoais, nem os alheios,
mas somente a sua convico e a sua convico, deve
formar-se to pura e to alta, que no sofra a ao das
circunstncias externas. Pouco lhe deve importar as
simpatias ou antipatias dos outros; um sorriso
complacente, se pode ser recebido e retribudo com outro,
no deve determinar, como a espada de Breno, o peso da
balana; acima de tudo, dos sorrisos e das desatenes,
est o dever de dizer a verdade, e em caso de dvida,
antes cal-la, que neg-la.
Com tais princpios, eu compreendo que  difcil viver; mas
a crtica no  uma profisso de rosas, e se o , -o
somente no que respeita  satisfao ntima de dizer a
verdade.
Das duas condies indicadas acima decorrem
naturalmente outras, to necessrias como elas, ao
exerccio da crtica. A coerncia  uma dessas condies, e
s pode pratic-la o crtico verdadeiramente consciencioso.
Com efeito, se o crtico, na manifestao dos seus juzos,
deixa-se impressionar por circunstcias estranhas s
questes literrias, h de cair freqentemente na
contradio, e os seus juzos de hoje sero a condenao
das suas aspiraes de ontem. Sem uma coerncia
perfeita, as suas sentenas perdem todo o vislumbre de
autoridade, e abatendo-se  condio de ventoinha,
movida ao sopro de todos os interesses e de todos os
caprichos, o crtico fica sendo nicamente o orculo de
seus aduladores.
O crtico deve ser independente, - independente em tudo e
de tudo, - independente da vaidade dos autores e da
vaidade prpria. No deve curar de inviolabilidades
literrias, nem de cegas adoraes; mas tambm deve ser
uma luta constante contra todas essas dependncias
pessoais, que desautoram os seus juzos, sem deixar de
perverter a opinio. Para que a crtica seja mestra, 
preciso que seja imparcial, - armada contra a insuficincia
dos seus amigos, solcita pelo mrito dos seus adversrios,
- e neste ponto, a melhor lio que eu poderia apresentar
aos olhos do crtico, seria aquela expresso de Ccero,
quando Csar mandava levantar as esttuas de Pompeu: -"
27
 levantando as esttuas do teu inimigo que tu consolidas
as tuas proprias esttuas" .
A tolerncia  ainda uma virtude do crtico. A intolerncia 
cega, e a cegueira  um elemento do erro; o conselho e a
moderao podem corrigir e encaminhar as inteligncias;
mas a intolerncia nada produz que tenha as condies de
fecundo e duradouro.
 preciso que o crtico seja tolerante, mesmo no terreno
das diferenas de escola: se as preferncias do crtico so
pela escola romntica, cumpre no condenar, s por isso,
as obras-primas que a tradio clssica nos legou, nem as
obras meditadas que a musa moderna inspira, do mesmo
modo devem os clssicos fazer justia s boas obras dos
romnticos e dos realistas, to inteira justia, como estes
devem fazer s boas obras daqueles. Pode haver um
homem de bem no corpo de um maometano, pode haver
uma verdade na obra de um realista. A minha admirao
pelo Cid no me fez obscurecer as belezas de Ruy Blas. A
crtica, que, para no ter o trabalho de meditar e
aprofundar, se limitasse a uma proscrio em massa, seria
a crtica da destruio e do aniquilamento.
Ser necessrio dizer que uma das condies da crtica
deve ser a urbanidade? Uma crtica que, para a expresso
das suas idias, s encontra frmulas speras, pode perder
as esperanas de influir e dirigir. Para muita gente ser
esse o meio de provar independncia; mas os olhos
experimentados faro muito pouco caso de uma
independncia que precisa sair da sala para mostrar que
existe.
Moderao e urbanidade na expresso, eis o melhor meio
de convencer, no h outro que seja to eficaz. Se a
delicadeza das maneiras  um dever de todo homem que
vive entre homens, com mais razo  um dever do crtico,
e o crtico deve ser delicado por excelncia. Como a sua
obrigao  dizer a verdade, e diz-la ao que h de mais
susceptvel neste mundo, que  a vaidade dos poetas,
cumpre-lhe, a ele sobretudo, no esquecer nunca esse
dever. De outro modo, o crtico passar o limite da
discusso literria, para cair no terreno das questes
pessoais; mudar o campo das idias, em campo de
28
palavras, de doestos, de recriminaes, se acaso uma
boa dose de sangue frio, da parte do adversrio, no
tornar impossvel esse espetculo indecente.
Tais so as condies, as virtudes e os deveres dos que se
destinam a analise literria; se a tudo isto juntarmos uma
ltima virtude, a virtude da perseverana, teremos
completado o ideal do crtico.
Saber a matria em que fala, procurar o esprito de um
livro, escarn-lo, aprofund-lo, at encontrar-lhe a alma,
indagar constantemente as leis do belo, tudo isso com a
mo na conscincia e a convico nos lbios, adotar uma
regra definida, a fim de no cair na contradio, ser franco
sem aspereza, independente sem injustias tarefa nobre 
essa que mais de um talento podia desempenhar, se se
quisesse aplicar exclusivamente a ela. No meu entender 
mesmo uma obrigao de todo aquele que se sentir com
fora de tentar a grande obra da anlise conscinciosa,
solcita e verdadeira.
Os resultados seriam imediatos e fecundos. As obras que
passassem do crebro do poeta para a conscincia do
crtico, em vez de serem tratadas conforme o seu bom ou
mau humor, seriam sujeitas a uma anlise severa, mas
til; o conselho substituiria a intolerncia, a frmula
urbana entraria no lugar da expresso rstica,a
imparcialidade daria leis, no lugar do capricho, da
indiferena e da superficialidade.
Isto pelo que respeita aos poetas. Quanto  crtica
dominante, como no se poderia sustentar por si, - ou
procuraria entrar na estrada dos deveres difceis, mas
nobres,  ou ficaria reduzida a conquistar de si prpria, os
aplausos que lhe negassem as inteligncias esclarecidas.
Se esta reforma, que eu sonho, sem esperanas de uma
realizao prxima, viesse mudar a situao atual das
coisas, que talentos novos! que novos escritos! que
estmulos! que ambies! A arte tomaria novos aspectos
aos olhos dos estreantes; as leis poticas,to
confundidas hoje, e to caprichosas,seriam as nicas
pelas quais se aferisse o merecimento das produes, e a
literatura alimentada ainda hoje por algum talento corajoso
29
e bem encaminhado,veria nascer para ela um dia de
florescimento e prosperidade. Tudo isso depende da crtica.
Que ela aparea, convencida e resoluta, e a sua obra
ser a melhor obra dos nossos dias.
[4] NOTCIA DA ATUAL LITERATURA BRASILEIRA.
INSTINTO DE NACIONALIDADE
QUEM EXAMINA a atual literatura brasileira reconhece-lhe
logo, como primeiro trao, certo instinto de nacionalidade.
Poesia, romance, todas as formas literrias do pensamento
buscam vestir-se com as cores do pas, e no h negar que
semelhante preocupao  sintoma de vitalidade e abono
de futuro. As tradies de Gonalves Dias, Porto Alegre e
Magalhes so assim continuadas pela gerao j feita e
pela que ainda agora madruga, como aqueles continuaram
as de Jos Baslio da Gama e Santa Rita Duro. Escusado 
dizer a vantagem deste universal acordo. Interrogando a
vida brasileira e a natureza americana, prosadores e
poetas acharo ali farto manancial de inspirao e iro
dando fisionomia prpria ao pensamento nacional. Esta
outra independncia no tem Sete de Setembro nem
campo de Ipiranga; no se far num dia, mas
pausadamente, para sair mais duradoura; no ser obra de
uma gerao nem duas; muitas trabalharo para ela at
perfaz-la de todo.
Sente-se aquele instinto at nas manifestaes da opinio,
alis mal formada ainda, restrita em extremo, pouco
solcita, e ainda menos apaixonada nestas questes de
poesia e literatura. H nela um instinto que leva a aplaudir
principalmente as obras que trazem os toques nacionais. A
juventude literria, sobretudo, faz deste ponto uma
questo de legtimo amor-prprio. Nem toda ela ter
meditado os poemas de Uruguai e Caramuru com aquela
ateno que tais obras esto pedindo; mas os nomes de
Baslio da Gama e Duro so citados e amados, como
precursores da poesia brasileira. A razo  que eles
buscaram em roda de si os elementos de uma poesia nova,
e deram os primeiros traos de nossa fisionomia literria,
enquanto que outros Gonzaga por exemplo, respirando
alis os ares da ptria, no souberam desligar-se das
30
faixas da Arcdia nem dos preceitos do tempo. Admira-selhes
o talento, mas no se lhes perdoa o cajado e a
pastora, e nisto h mais erro que acerto.
Dado que as condies deste escrito o permitissem, no
tomaria eu sobre mim a defesa do mau gosto dos poetas
arcdicos nem o fatal estrago que essa escola produziu nas
literaturas portuguesa e brasileira. No me parece, todavia,
justa a censura aos nossos poetas coloniais, iscados
daquele mal; nem igualmente justa a de no haverem
trabalhado para a independncia literria, quando a
independncia poltica jazia ainda no ventre do futuro, e
mais que tudo quando entre a metrpole e a colnia criara
a histria a homogeneidade das tradies, dos costumes e
da educao. As mesmas obras de Baslio da Gama e
Duro quiseram antes ostentar certa cor local do que
tornar independente a literatura brasileira, literatura que
no existe ainda, que mal poder ir alvorecendo agora.
Reconhecido o instinto de nacionalidade que se manifesta
nas obras destes ltimos tempos, conviria examinar se
possumos todas as condies e motivos histricos de uma
nacionalidade literria, esta investigao (ponto de
divergncia entre literatos), alm de superior s minhas
foras, daria em resultado levar-me longe dos limites deste
escrito. Meu principal objeto  atestar o fato atual; ora, o
fato  o instinto de que falei, o geral desejo de criar uma
literatura mais independente.
A apario de Gonalves Dias chamou a ateno das musas
brasileiras para a histria e os costumes indianos. Os
Timbiras, I-Juca Pirama, Tabira e outros poemas do
egrgio poeta acenderam as imaginaes; a vida das
tribos, vencidas h muito pela civilizao, foi estudada nas
memrias que nos deixaram os cronistas, e interrogadas
dos poetas, tirando-lhes todos alguma coisa, qual um idlio,
qual um canto pico.
Houve depois uma espcie de reao. Entrou a prevalecer
a opinio de que no estava toda a poesia nos costumes
semibrbaros anteriores  nossa civilizao, o que era
verdade,  e no tardou o conceito de que nada tinha a
poesia com a existncia da raa extinta, to diferente da
raa triunfante,  o que parece um erro.
31
 certo que a civilizao brasileira no est ligada ao
elemento indiano, nem dele recebeu influxo algum; e isto
basta para no ir buscar entre as tribos vencidas os ttulos
da nossa personalidade literria. Mas se isto  verdade,
no  menos certo que tudo  matria de poesia, uma vez
que traga as condies do belo ou os elementos de que ele
se compe. Os que, como o Sr. Varnhagen, negam tudo
aos primeiros povos deste pas, esses podem logicamente
exclu-los da poesia contempornea. Parece-me,
entretanto, que, depois das memrias que a este respeito
escreveram os Srs. Magalhes e Gonalves Dias, no 
lcito arredar o elemento indiano da nossa aplicao
intelectual. Erro seria constitu-lo um exclusivo patrimnio
da literatura brasileira; erro igual fora certamente a sua
absoluta excluso As tribos indgenas, cujos usos e
costumes Joo Francisco Lisboa cotejava com o livro de
Tcito e os achava to semelhantes aos dos antigos
germanos, desapareceram,  certo, da regio que por
tanto tempo fora sua; mas a raa dominadora que as
freqentou colheu informaes preciosas e n-las
transmitiu como verdadeiros elementos poticos. A
piedade, a minguarem outros argumentos de maior valia,
devera ao menos inclinar a imaginao dos poetas para os
povos que primeiro beberam os ares destas regies,
consorciando na literatura os que a fatalidade da histria
divorciou.
Esta  hoje a opinio triunfante. Ou j nos costumes
puramente indianos. tais quais os vemos n'Os Timbiras, de
Gonalves Dias, ou j na luta do elemento brbaro com o
civilizado, tem a imaginao literria do nosso tempo ido
buscar alguns quadros de singular efeito dos quais citarei,
por exemplo, a Iracema, do Sr. J. Alencar, uma das
primeiras obras desse fecundo e brilhante escritor.
Compreendendo que no est na vida indiana todo o
patrimnio da literatura brasileira, mas apenas um legado,
to brasileiro como universal, no se limitam os nossos
escritores a essa s fonte de inspirao. Os costumes
civilizados, ou j do tempo colonial, ou j do tempo de
hoje, igualmente oferecem  imaginao boa e larga
matria de estudo. No menos que eles, os convida a
natureza americana cuja magnificncia e esplendor
naturalmente desafiam a poetas  prosadores. O romance,
32
sobretudo, apoderou-se de todos esses elementos de
inveno, a que devemos; entre outros, os livros dos Srs.
Bernardo Guimares, que brilhante e ingenuamente nos
pinta os costumes da regio em que nasceu, J. de Alencar,
Macedo, Slvio Dinarte (Escragnolle Taunay), Franklin
Tvora, e alguns mais.
Devo acrescentar que neste ponto manifesta-se s vezes
uma opinio, que tenho por errnea:  a que s reconhece
esprito nacional nas obras que tratam de assunto local,
doutrina que, a ser exata, limitaria muito os cabedais da
nossa literatura. Gonalves Dias por exemplo, com poesias
prprias seria admitido no panteo nacional; se
excetuarmos Os Timbiras, os outros poemas americanos, e
certo nmero de composies, pertencem os seus verses
pelo assunto a toda a mais humanidade, cujas aspiraes,
entusiasmo, fraquezas e dores geralmente cantam; e
excluo da as belas Sextilhas de Frei Anto, que essas
pertencem unicamente  literatura portuguesa, no s pelo
assunto que o poeta extraiu dos historiadores lusitanos,
mas at pelo estilo que ele habilmente fez antiquado. O
mesmo acontece com os seus dramas, nenhum dos quais
tem por teatro o Brasil. Iria longe se tivesse de citar outros
exemplos de casa, e no acabaria se fosse necessrio
recorrer aos estranhos. Mas, pois que isto vai ser impresso
em terra americana e inglesa, perguntarei simplesmente se
o autor do Song of Hiawatha no  o mesmo autor da
Golden Legend, que nada tem com a terra que o viu
nascer, e cujo cantor admirvel ; e perguntarei mais se o
Hamlet, o Otelo, o Jlio Csar, a Julieta e Romeu tm
alguma coisa com a histria inglesa nem com o territrio
britnico, e se, entretanto, Shakespeare no , alm de um
gnio universal, um poeta essencialmente ingls.
No h dvida que uma literatura, sobretudo uma
literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos
assuntos que lhe oferece a sua regio, mas no
estabeleamos doutrinas to absolutas que a empobream.
O que se deve exigir do escritor antes de tudo,  certo
sentimento ntimo, que o torne homem do seu tempo e do
seu pas, ainda quando trate de assuntos remotos no
tempo e no espao. Um notvel crtico da Frana,
analisando h tempos um escritor escocs, Masson, com
muito acerto dizia que do mesmo modo que se podia ser
33
breto sem falar sempre de tojo, assim Masson era bem
escocs, sem dizer palavra do cardo, e explicava o dito
acrescentando que havia nele um scotticismo interior,
diverso e melhor do que se fora apenas superficial.
Estes e outros pontos cumpria  crtica estabelec-los, se
tivssemos uma crtica doutrinria, ampla, elevada,
correspondente ao que ela  em outros pases. No a
temos. H e tem havido escritos que tal nome merecem,
mas raros, a espaos, sem a influncia quotidiana e
profunda que deveram exercer. A falta de uma crtica
assim  um dos maiores males de que padece a nossa
literatura;  mister que a anlise corrija ou anime a
inveno, que os pontos de doutrina e de histria se
investiguem, que as belezas se estudem, que os senes se
apontem, que o gosto se apure e eduque, e se desenvolva
e caminhe aos altos destinos que a esperam.
O ROMANCE
De todas as formas vrias as mais cultivadas atualmente
no Brasil so o romance e a poesia lrica; a mais apreciada
 o romance, como alis acontece em toda a parte, creio
eu. So fceis de perceber as causas desta preferncia da
opinio, e por isso no me demoro em apont-las. No se
fazem aqui (falo sempre genericamente) livros de filosofia,
de lingstica, de crtica histrica, de alta poltica, e outros
assim, que em alheios pases acham fcil acolhimento e
boa extrao; raras so aqui essas obras e escasso o
mercado delas. O romance pode-se dizer que domina
quase exclusivamente. No h nisto motivo de admirao
nem de censura, tratando-se de um pas que apenas entra
na primeira mocidade, e esta ainda no nutrida de slidos
estudos. Isto no  desmerecer o romance, obra d'arte
como qualquer outra, e que exige da parte do escritor
qualidades de boa nota.
Aqui o romance, como tive ocasio de dizer busca sempre
a cor local. A substncia. no menos que os acessrios,
reproduzem geralmente a vida brasileira em seus
diferentes aspectos e situaes. Naturalmente os costumes
do interior so os que conservam melhor a tradio
nacional; os da capital do pas, e em parte, os de alguma
34
cidades, muito mais chegados  influncia europia,
trazem j uma feio mista e ademanes diferentes. Por
outro lado, penetrando no tempo colonial, vamos achar
uma sociedade diferente, e dos livros em que ela  tratada,
alguns h de mrito real.
No faltam a alguns de nossos romancistas qualidades de
observao e de anlise, e um estrangeiro no familiar com
os nossos costumes achara muita pagina instrutiva. Do
romance puramente de anlise, rarssimo exemplar temos,
ou porque a nossa ndole no nos chame para a, ou
porque seja esta casta de obras ainda incompatvel com a
nossa adolescncia literria.
O romance brasileiro recomenda-se especialmente pelos
toques do sentimento, quadros da natureza e de costumes,
e certa viveza de estilo mui adequada ao esprito do nosso
povo. H em verdade ocasies em que essas qualidades
parecem sair da sua medida natural, mas em regra
conservam-se estremes de censura, vindo a sair muita
coisa interessante, muita realmente bela. O espetculo da
natureza, quando o assunto o pede, ocupa notvel lugar no
romance, e d pginas animadas e pitorescas, e no as cito
por me no divertir do objeto exclusivo deste escrito, que 
indicar as excelncias e os defeitos do conjunto, sem me
demorar em pormenores. H boas pginas, como digo, e
creio at que um grande amor a este recurso da descrio,
excelente, sem dvida, mas (como dizem os mestres) de
mediano efeito, se no avultam no escritor outras
qualidades essenciais.
Pelo que respeita  anlise de paixes e caracteres so
muito menos comuns os exemplos que podem satisfazer 
crtica; alguns h, porm, de merecimento incontestvel.
Esta , na verdade, uma das partes mais difceis do
romance, e ao mesmo tempo das mais superiores.
Naturalmente exige da parte do escritor dotes no vulgares
de observao, que, ainda em literaturas mais adiantadas,
no andam a rodo nem so a partilha do maior nmero.
As tendncias morais do romance brasileiro so geralmente
boas. Nem todos eles sero de princpio a fim
irrepreensveis; alguma coisa haver que uma crtica
austera poderia apontar e corrigir. Mas o tom geral  bom.
35
Os livros de certa escola francesa, ainda que muito lidos
entre ns, no contaminaram a literatura brasileira, nem
sinto nela tendncias para adotar as suas doutrinas, o que
 j notvel mrito. As obras de que falo, foram aqui bemvindas
e festejadas, como hspedes, mas no se aliaram 
famlia nem tomaram o governo da casa Os nomes que
principalmente seduzem a nossa mocidade so os do
perodo romntico, os escritores que se vo buscar para
fazer comparaes com os nossos,  porque h aqui muito
amor a essas comparaes  so ainda aqueles com que o
nosso esprito se educou, os Vtor Hugos, os Gautiers, os
Mussets, os Gozlans, os Nervals.
Isento por esse lado o romance brasileiro, no menos o
est de tendncias polticas, e geralmente de todas as
questes sociais,  o que no digo por fazer elogio, nem
ainda censura, mas unicamente para atestar o fato. Esta
casta de obras, conserva-se aqui no puro domnio de
imaginao, desinteressada dos problemas do dia e do
sculo, alheia s crises sociais e filosficas. Seus principais
elementos so, como disse, a pintura dos costumes, e luta
das paixes, os quadros da natureza, alguma vez o estudo
dos sentimentos e dos caracteres; com esses elementos,
que so fecundssimos, possumos j uma galeria
numerosa e a muitos respeitos notvel.
No gnero dos contos,  maneira de Henri Murger, ou  de
Trueba, ou  de Ch. Dickens, que to diversos so entre si,
tm havido tentativas mais ou menos felizes, porm raras,
cumprindo citar, entre outros, o nome do Sr. Lus
Guimares Jnior, igualmente folhetinista elegante e jovial.
 gnero difcil, a despeito da sua aparente facilidade, e
creio que essa mesma aparncia lhe faz mal, afastando-se
dele os escritores, e no lhe dando, penso eu, o pblico
toda a ateno de que ele  muitas vezes credor.
Em resumo, o romance, forma extremamente apreciada e
j cultivada com alguma extenso,  um dos ttulos da
presente gerao literria. Nem todos os livros, repito,
deixam de se prestar a uma crtica minuciosa e severa, e
se a houvssemos em condies regulares creio que os
defeitos se corrigiriam, e as boas qualidades adquiririam
maior realce. H geralmente viva imaginao, instinto do
belo, ingnua admirao da natureza, amor s coisas
36
ptrias, e alm de tudo isto agudeza e observao. Boa e
fecunda terra, j deu frutos excelentes e os h de dar em
muito maior escala.
A POESIA
A ao de crtica seria sobretudo eficaz em relao 
poesia. Dos poetas que apareceram no decnio de 1850 a
1860, uns levou-os a morte ainda na flor dos anos, como
lvares de Azevedo, Junqueira Freire, Casimiro de Abreu,
cujos nomes excitam na nossa mocidade legtimo e sincero
entusiasmo, e bem assim outros de no menor porte. Os
que sobreviveram calaram as liras; e se uns voltaram as
suas atenes para outro gnero literrio, como Bernardo
Guimares, outros vivem dos louros colhidos, se  que no
preparam obras de maior tomo, como se diz de Varela,
poeta que j pertence ao decnio de 1860 a 1870. Neste
ltimo prazo outras vocaes apareceram e numerosas, e
basta citar um Crespo, um Serra, um Trajano, um Gentil-
Homem de Almeida Braga, um Castro Alves, um Lus
Guimares, um Rosendo Moniz, um Carlos Ferreira, um
Lcio de Mendona, e tantos mais, para mostrar que a
poesia contempornea pode dar muita coisa; se algum
destes, como Castro Alves, pertence  eternidade, seus
versos podem servir e servem de incentivo s vocaes
nascentes.
Competindo-me dizer o que acho da atual poesia, atenhome
s aos poetas de recentssima data, melhor direi a uma
escola agora dominante, cujos defeitos me parecem
graves, cujos dotes  valiosos e que poder dar muito de
si, no caso de adotar a necessria emenda.
No faltam  nossa atual poesia fogo nem estro. Os versos
publicados so geralmente ardentes e trazem o cunho da
inspirao. No insisto na cor local; como acima disse,
todas as formas a revelam com mais ou menos brilhante
resultado, bastando-me citar neste caso as outras duas
recentes obras, as Miniaturas de Gonalves Crespo e os
Quadros de J. Serra, versos estremados dos defeitos que
vou assinalar. Acrescentarei que tambm no falta  poesia
atual o sentimento da harmonia exterior. Que precisa ela
37
ento? Em que peca a gerao presente? Falta-lhe um
pouco mais de correo e gosto, peca na intrepidez s
vezes da expresso, na impropriedade das imagens na
obscuridade do pensamento. A imaginao, que h
deveras, no raro desvaira e se perde, chegando 
obscuridade,  hiprbole, quando apenas buscava a
novidade e a grandeza. Isto na alta poesia lrica,  na ode,
diria eu, se ainda subsistisse a antiga potica; na poesia
ntima e elegaca encontram-se os mesmos defeitos, e
mais um amaneirado no dizer e no sentir, o que tudo
mostra na poesia contempornea grave doena, que 
fora combater.
Bem sei que as cenas majestosas da natureza americana
exigem do poeta imagens e expresses adequadas. O
condor que rompe dos Andes, o pampeiro que varre os
campos do Sul, os grandes rios, a mata virgem com todas
as suas magnificncias de vegetao,  no h dvida que
so painis que desafiam o estro, mas, por isso mesmo
que so grandes, devem ser trazidos com oportunidade e
expressos com simplicidade. Ambas essas condies faltam
 poesia contempornea, e no  que escasseiem modelos,
que a esto, para s citar trs nomes, os versos de
Bernardo Guimares, Varela e lvares de Azevedo. Um
nico exemplo bastar para mostrar que a oportunidade e
a simplicidade so cabais para reproduzir uma grande
imagem ou exprimir uma grande idia. N'Os Timbiras, h
uma passagem em que o velho Ogib ouve censurarem-lhe
o filho, porque se afasta dos outros guerreiros e vive s. A
fala do ancio comea com estes primorosos versos:
So torpes os anuns, que em bandos folgam.
So maus os caititus que em varas pascem:
Somente o sabi geme sozinho,
E sozinho o condor aos cus remonta.
Nada mais oportuno nem mais singelo do que isto. A escola
a que aludo no exprimiria a idia com to simples meios,
e faria mal, porque o sublime  simples. Fora para desejar
que ela versasse e meditasse longamente estes e outros
modelos que a literatura brasileira lhe oferece. Certo, no
lhe falta, como disse, imaginao; mas esta tem suas
regras, o estro leis, e se h casos em que eles rompem as
38
leis e as regras,  porque as fazem novas,  porque se
chamam Shakespeare, Dante, Goethe, Cames.
Indiquei os traos gerais. H alguns defeitos peculiares a
alguns livros, como por exemplo, a anttese, creio que por
imitao de Vtor Hugo Nem por isso acho menos
condenvel o abuso de uma figura que, se nas mos do
grande poeta produz grandes efeitos, no pode constituir
objeto de imitao, nem sobretudo elementos de escola.
H tambm uma parte da poesia que, justamente
preocupada com a cor local, cai muitas vezes numa funesta
iluso. Um poeta no  nacional s porque insere nos seus
versos muitos nomes de flores ou aves do pas, o que pode
dar uma nacionalidade de vocabulrio e nada mais.
Aprecia-se a cor local, mas  preciso que a imaginao lhe
d os seus toques, e que estes sejam naturais, no de
acarreto. Os defeitos que resumidamente aponto no os
tenho por incorrigveis; a crtica os emendaria; na falta
dela, o tempo se incumbir de trazer s vocaes as
melhores leis. Com as boas qualidades que cada um pode
reconhecer na recente escola de que falo, basta a ao do
tempo, e se entretanto aparecesse uma grande vocao
potica, que se fizesse reformadora,  fora de dvida que
os bons elementos entrariam em melhor caminho, e 
poesia nacional restariam as tradies do perodo
romntico.
O TEATRO
Esta parte pode reduzir-se a uma linha de reticncia. No
h atualmente teatro brasileiro, nenhuma pea nacional se
escreve, rarssima pea nacional se representa. As cenas
teatrais deste pas viveram sempre de tradues, o que
no quer dizer que no admitissem alguma obra nacional
quando aparecia. Hoje, que o gosto pblico tocou o ltimo
grau da decadncia e perverso, nenhuma esperana teria
quem se sentisse com vocao para compor obras severas
de arte. Quem lhas receberia, se o que domina  a cantiga
burlesca ou obscena, o canc, a mgica aparatosa, tudo o
que fala aos sentidos e aos instintos inferiores?
39
E todavia a continuar o teatro, teriam as vocaes novas
alguns exemplos no remotos, que muito as haviam de
animar. No falo das comdias do Pena, talento sincero e
original, a quem s faltou viver mais para aperfeioar-se e
empreender obras de maior vulto; nem tambm das
tragdias de Magalhes e dos dramas de Gonalves Dias,
Porto Alegre e Agrrio. Mais recentemente, nestes ltimos
doze ou quatorze anos, houve tal ou qual movimento
Apareceram ento os dramas e comdias do Sr. J. de
Alencar, que ocupou o primeiro lugar na nossa escola
realista e cujas obras Demnio Familiar e Me so de
notvel merecimento. Logo em seguida apareceram vrias
outras composies dignas do aplauso que tiveram tais
como os dramas dos Srs. Pinheiro Guimares, Quintino
Bocaiva e alguns mais, mas nada disso foi adiante. Os
autores cedo se enfastiaram da cena que a pouco e pouco
foi decaindo at chegar ao que temos hoje, que  nada.
A provncia ainda no foi de todo invadida pelos
espetculos de feira; ainda l se representa o drama e a
comdia,  mas no aparece, que me conste, nenhuma
obra nova e original. E com estas poucas linhas fica
liquidado este ponto.
A LNGUA
Entre os muitos mritos dos nossos livros nem sempre
figura o da pureza da linguagem. No  raro ver
intercalados em bom estilo os solecismos da linguagem
comum, defeito grave, a que se junta o da excessiva
influncia da lngua francesa. Este ponto  objeto de
divergncia entre os nossos escritores. Divergncia digo,
porque, se alguns caem naqueles defeitos por ignorncia
ou preguia, outros h que os adotam por princpio, ou
antes por uma exagerao de princpio.
No h dvida que as lnguas se aumentam e alteram com
o tempo e as necessidades dos usos e costumes. Querer
que a nossa pare no sculo de quinhentos,  um erro igual
ao de afirmar que a sua transplantao para a Amrica no
lhe inseriu riquezas novas. A este respeito a influncia do
povo  decisiva. H, portanto, certos modos de dizer,
40
locues novas, que de fora entram no domnio do estilo e
ganham direito de cidade.
Mas se isto  um fato incontestvel, e se  verdadeiro o
principio que dele se deduz, no me parece aceitvel a
opinio que admite todas as alteraes da linguagem,
ainda aquelas que destroem as leis da sintaxe e a essencial
pureza do idioma. A influncia popular tem um limite, e o
escritor no est obrigado a receber e dar curso a tudo o
que o abuso, o capricho e a moda inventam e fazem
correr. Pelo contrrio, ele exerce tambm uma grande
parte de influncia a este respeito, depurando a linguagem
do povo e aperfeioando-lhe a razo.
Feitas as excees devidas no se lem muito os clssicos
no Brasil. Entre as excees poderia eu citar at alguns
escritores cuja opinio  diversa da minha neste ponto,
mas que sabem perfeitamente os clssicos. Em geral,
porm, no se lem, o que  um mal. Escrever como
Azurara ou Ferno Mendes seria hoje um anacronismo
insuportvel. Cada tempo tem o seu estilo. Mas estudarlhes
as formas mais apuradas da linguagem, desentranhar
deles mil riquezas, que,  fora de velhas se fazem novas,
 no me parece que se deva desprezar. Nem tudo tinham
os antigos, nem tudo tm os modernos; com os haveres de
uns e outros  que se enriquece o peclio comum.
Outra coisa de que eu quisera persuadir a mocidade  que
a precipitao no lhe afiana muita vida aos seus escritos.
Ha um prurido de escrever muito e depressa; tira-se disso
glria, e no posso negar que  caminho de aplausos. H
inteno de igualar as criaes do esprito com as da
matria, como se elas no fossem neste caso
inconciliveis. Faa muito embora um homem a volta ao
mundo em oitenta dias; para uma obra-prima do esprito
so precisos alguns mais.
Aqui termino esta notcia. Viva imaginao, delicadeza e
fora de sentimentos, graas de estilo, dotes de
observao e analise, ausncia s vezes de gosto,
carncias s vezes de reflexo e pausa, lngua nem sempre
pura, nem sempre copiosa, muita cor local, eis aqui por
alto os defeitos e as excelncias da atual literaturas
41
brasileira, que h dado bastante e tem certssimo futuro.
[5] A NOVA GERAO
I
H ENTRE NS uma nova gerao potica, gerao viosa
e galharda, e, cheia de fervor e convico. Mas haver
tambm uma poesia nova, uma tentativa, ao menos? Fora
absurdo neg-lo; h uma tentativa de Poesia nova,  uma
expresso incompleta. difusa, transitiva, alguma coisa que,
se ainda no  o futuro, no e j o passado. Nem tudo 
ouro nessa produo recente; e o mesmo ouro nem
sempre se revela de bom quilate; no h um flego igual e
constante; mas o essencial  que um esprito novo parece
animar a gerao que alvorece, o essencial  que esta
gerao no se quer dar ao trabalho de prolongar o ocaso
de um dia que verdadeiramente acabou.
J  alguma coisa. Esse dia, que foi o Romantismo, teve as
suas horas de arrebatamento, de cansao e por fim de
sonolncia, at que sobreveio a tarde e negrejou a noite. A
nova gerao chasqueia s vezes do Romantismo. No se
pode exigir da extrema juventude a exata ponderao das
coisas; no h impor a reflexo ao entusiasmo. De outra
sorte, essa gerao teria advertido que a extino de um
grande movimento literrio no importa a condenao
formal e absoluta de tudo o que ele afirmou; alguma coisa
entra e fica no peclio do esprito humano. Mais do que
ningum, estava ela obrigada a no ver no Romantismo
um simples interregno, um brilhante pesadelo, um efeito
sem causa, mas alguma coisa mais que, se no deu tudo o
que prometia, deixa quanto basta para legitim-lo. Morre
porque  mortal. "As teorias passam, mas as verdades
necessrias devem subsistir". Isto que Renan dizia h
poucos meses da religio e da cincia, podemos aplic-lo 
poesia e  arte. A poesia no . no pode ser eterna
repetio; est dito e redito que ao perodo espontneo e
original sucede a fase da conveno e do processo tcnico,
e  ento que a poesia, necessidade virtual do homem,
forceja por quebrar o molde e substitu-lo. Tal  o destino
da musa romntica. Mas no h s inadvertncia naquele
desdm dos moos; vejo a tambm um pouco de
42
ingratido. A alguns deles, se  a musa nova que o
amamenta, foi aquela grande moribunda que os gerou; e
at os h que ainda cheiram ao puro leite romntico.
Contudo acho legtima explicao ao desdm dos novos
poetas. Eles abriram os olhos ao som de um lirismo
pessoal, que salvas as excees, era a mais enervadora
msica possvel, a mais trivial e chocha. A poesia subjetiva
chegara efetivamente aos derradeiros limites da
conveno, descera ao brinco pueril, a uma enfiada de
coisas piegas e vulgares; os grandes dias de outrora
tinham positivamente acabado; e se de longe em longe,
algum raio de luz vinha aquecer a poesia transida e
debilitada, era talvez uma estrela, no era o sol. De
envolta com isto, ocorreu uma circunstncia grave, o
desenvolvimento das cincias modernas, que despovoaram
o cu dos rapazes, que lhe deram diferente noo das
coisas, e um sentimento que de nenhuma maneira podia
ser o da gerao que os precedeu. Os naturalistas,
refazendo a histria das coisas, vinham chamar para o
mundo externo todas as atenes de uma juventude, que
j no podia entender as imprecaes do varo de Hus; ao
contrrio, parece que um dos caracteres da nova direo
intelectual ter de ser um otimismo, no s tranqilo, mas
triunfante. J o  s vezes; a nossa mocidade manifesta
certamente o desejo de ver alguma coisa por terra, uma
instituio, um credo, algum uso, algum abuso; mas a
ordem geral do universo parece-lhe a perfeio mesma. A
humanidade que ela canta em seus versos est bem longe
de ser aquele monde avort de Vigny   mais sublime, 
um deus, como lhe chama um poeta,, ultramarino, o Sr.
Teixeira Bastos. A justia, cujo advento nos 
anunciado em versos subidos de entusiasmo, a justia
quase no chega a ser um complemento, mas um
suplemento; e assim como a teoria da seleo natural d a
vitria aos mais aptos, assim outra lei, a que se poder
chamar seleo social, entregar a palma aos mais puros.
 o inverso da tradio bblica;  o paraso no fim. De
quando em quando aparece a nota aflitiva ou melanclica,
a nota pessimista, a nota de Hartmann; mas  rara, e
tende a diminuir; o sentimento geral inclina-se  apoteose;
e isto no somente  natural, mas at necessrio; a vida
no pode ser um desespero perptuo, e fica bem 
mocidade um pouco de orgulho.
43
Qual , entretanto, a teoria e o ideal da poesia nova? Esta
pergunta e tanto mais cabida quanto que uma das
preocupaes da recente gerao  achar uma definio e
um ttulo. A, porm, flutuam as opinies, afirmam-se
divergncias, domina a contradio e o vago; no h,
enfim, um verdadeiro prefcio de Cromwell. Por exemplo,
um escritor, e no pouco competente, tratando de um
opsculo, uma poesia do Sr. Fontoura Xavier (prefcio, do
Rgio Saltimbanco), afirma que este poeta "tem as
caracterizaes acentuadas da nova escola, lgica fuso do
Realismo e do Romantismo, porque rene a fiel observao
de Baudelaire e as surpreendentes dedues do velho
mestre Vtor Hugo". Aqui temos uma definio assaz
afirmativa e clara, e se inexata em parte, admiravelmente
justa, como objeo. Digo que em parte  inexata porque
os termos Baudelaire e realismo no se correspondem to
inteiramente como ao escritor lhe parece. Ao prprio
Baudelaire repugnava a classificao de realista  cette
grossire pithte, escreveu ele em uma nota. Como
objeo, e alis no foi esse o intuito do autor, a definio
 excelente, o que veremos mais abaixo.
No falta quem conjugue o ideal potico e o ideal poltico, e
faa de ambos um s intuito, a saber, a nova musa ter de
cantar o Estado republicano. No  isto, porm, uma
definio, nem implica um corpo de doutrina literria. De
teorias ou preocupaes filosficas haver algum vestgio,
mas nada bem claramente exposto, e um dos poetas, o Sr.
Mariano de Oliveira, conquanto confesse estar no terceiro
perodo de Comte todavia pondera que um livro de versos
no  compndio de filosofia nem de propaganda, 
meramente livro de versos; opinio que me parece geral.
Outro poeta  creio que o mais recente,  o Sr. Valentim
Magalhes, descreve-nos (Cantos e Lutas, p. 12) um
quadro delicioso: a escola e a oficina cantam alegremente;
o gnio enterra o mal; Deus habita a conscincia; o
corao abre-se aos sculos do bem; aproxima-se a
liberdade, e conclui que  isto a idia nova. Isto qu?
pergunta-lhe um crtico (Economista Brasileiro, de 11 de
outubro de 1879); e protesta contra a definio, acha o
quadro inexato; a idia nova no  isso;  o que ela  e
pretende ser est dez pg-inas adiante; e cita uns versos
em que o poeta clama imperativamente que se esmaguem
os broquis, que se partam as lanas, que dos canhes se
44
faam esttuas, dos templos escolas, que se cale a voz das
metralhadoras, que se erga a voz do direito; e remata com
um pressentimento da ventura universal:
Quando pairar por sobre a Humanidade
A bno sacrossanta da Justia.
A diferena, como se v,  puramente cronolgica ou
sinttica; d-se num ponto como realidade acabada o que
noutro ponto parece ser apenas um prenncio; questo de
indicativo e imperativo; e esta simples diferena, que nada
entende com o ideal potico, divide o autor e o crtico. A
justia anunciada pelo Sr. V. Magalhes, ach-la-emos em
outros, por exemplo, no Sr. Tefilo Dias (Cantos Tropicais,
p. 139);  idia comum aos nossos e aos modernos poetas
portugueses. Um deles, chefe de escola, o Sr. Guerra
Junqueiro, no acha melhor definio para sua musa: Reta
como a Justia, diz ele em uns belos versos da Musa em
Frias. Outro, o Sr. Guilherme de Azevedo, um de seus
melhores companheiros, escreveu numa carta com que
abre o livro da Alma Nova: "Sorrindo ou combatendo fala
(o livro) da humanidade e da Justia". Outro, o Sr. Teixeira
Bastos, nos Rumores Vulcnicos, diz que os seus versos
cantam um deus sagrado  a Humanidade  e o
"coruscante vulto da Justia". Mas essa aspirao ao
reinado da Justia (que  afinal uma simples transcrio de
Proudhon) no pode ser uma doutrina literria;  uma
aspirao e nada mais. Pode ser tambm uma cruzada, e
no me desagradam as cruzadas em verso. Garrett,
ingnuo s vezes, como um grande poeta que era, atribui
aos versos uma poro de grandes coisas sociais que eles
no fizeram, os pobres versos; mas em suma, venham eles
e cantem alguma coisa nova,  essa justia, por exemplo,
que oxal desminta algum dia o conceito de Pascal. Mas
entre uma aspirao social e um conceito esttico vai
diferena; o que se precisa  uma definio esttica.
Ach-la-emos no prefcio que o Sr. Slvio Romero ps aos
seus Cantos do Fim do Sculo?
Os que tm procurado dar nova direo  arte,  diz ele  no se
achar de acordo. A bandeira de uns  a revoluo, de outros o
Positivismo; o Socialismo e o Romantismo transformado tm os seus
adeptos. So doutrinas que se exageram, ao lado da metafsica
idealista. Nada disto  verdade.
45
No se contendo em apontar a divergncia, o Sr. Slvio
Romero examina uma por uma as bandeiras hasteadas, e
prontamente as derruba; nenhuma pode satisfazer as
aspiraes novas. A revoluo foi parca de idias, o
Positivismo est acabado como sistema, o Socialismo no
tem sequer o sentido altamente filosfico do Positivismo o
Romantismo transformado  uma frmula v, finalmente o
idealismo metafsico equivale aos sonhos de um histrico;
eis a o extrato de trs pginas. Convm acrescentar que
este autor, ao invs do, outros, ressalva com boas palavras
o lirismo, confundido geralmente com a "melancolia
romntica". Perfeitamente dito e integralmente aceito.
Entretanto, o lirismo no pode satisfazer as necessidades
modernas da poesia, ou como diz o autor,  "no pode por
si s enche todo o ambiente literrio; h mister uma nova
intuio mais vasta e mais segura". Qual? No  outro o
ponto controverso, e depois de ter refutado todas as
teorias, o Sr. Slvio Romero conclui que a nova intuio
literria nada conter dogmtico,  ser um resultado do
esprito geral de crtica contempornea. Esta definio, que
tem a desvantagem de no ser uma definio esttica, traz
em si uma idia compreensvel, assaz vasta, flexvel, e
adaptvel a um tempo em que o esprito recua os seus
horizontes. Mas no basta  poesia ser o resultado geral da
crtica do tempo; e sem cair no dogmatismo, era justo
afirmar alguma coisa mais. Dizer que a poesia h de
corresponder ao tempo em que se desenvolve  somente
afirmar uma verdade comum a todos os fenmenos
artsticos. Ao demais, h um perigo na definio deste
autor, o de cair na poesia cientfica, e, por deduo, na
poesia didtica, alis inventada desde Lucrcio.
Ia-me esquecendo uma bandeira hasteada por alguns, o
Realismo, a mais frgil de todas, porque  a negao
mesma do princpio da arte. Importa dizer que tal doutrina
 aqui defendida, menos como a doutrina que , do que
como expresso de certa nota violenta, por exemplo, os
sonetos do Sr. Carvalho Jnior. Todavia, creio que de todas
as que possam atrair a nossa mocidade, esta  a que
menos subsistir, e com razo; no h nela nada que
possa seduzir longamente uma vocao potica. Neste
ponto todas as escolas se congraam; e o sentimento de
Racine ser o mesmo de Sfocles. Um poeta, V. Hugo, dir
que h um limite intranscendvel entre a realidade,
46
segundo a arte, e a realidade, segundo a natureza. Um
crtico, Taine escrever que se a exata cpia das coisas
fosse o fim da arte. o melhor romance ou o melhor drama
seria a reproduo taquigrfica de um processo judicial.
Creio que aquele no  clssico, nem este romntico Tal 
o princpio so, superior s contendas e teorias particulares
de todos os tempos.
Do que fica dito resulta que h uma inclinao nova nos
espritos, um sentimento diverso no dos primeiros e
segundos romnticos, mas no h ainda uma feio assaz
caracterstica e definitiva do movimento potico. Esta
concluso no chega a ser agravo  nossa mocidade; eu
sei que ela no pode por si mesma criar o movimento e
caracteriz-lo, mas sim receber o impulso estranho, como
aconteceu s geraes precedentes. A de 1840, por
exemplo, s uma coisa no recebeu diretamente do
movimento europeu de 1830: foi a tentativa de poesia
americana ou inditica, tentativa excelente, se tinha de dar
alguns produtos literrios apenas, mas precria, e sem
nenhum fundamento se havia de converter-se em escola, o
que foi demonstrado pelos fatos. A atual gerao,
quaisquer que sejam os seus talentos, no pode esquivarse
s condies do meio; afirmar-se- pela inspirao
pessoal, pela caracterizao do produto mas o influxo
externo  que determina a direo do movimento; no h
por ora no nosso ambiente a fora necessria  inveno
de doutrinas novas. Creio que isto chega a ser uma
verdade de La Palisse.
E aqui toco eu o ponto em que a definio do escritor, que
prefaciou o opsculo do Sr. Fontoura Xavier,  uma
verdadeira objeo. Reina em certa regio da poesia nova
um reflexo mui direto de V. Hugo e Baudelaire;  verdade.
V. Hugo produziu j entre ns principalmente no Norte,
certo movimento de imitao, que comeo em
Pernambuco, a escola hugosta, como dizem alguns, ou a
escola Condoreira, expresso que li h algumas semanas
num artigo bibliogrfico do Sr. Capistrano de Abreu um dos
nossos bons talentos modernos. Da vieram os versos dos
Srs. Castro Alves, Tobias Barreto Castro Rebelo Jnior,
Vitoriano Palhares e outros engenhos mais ou menos
vvidos. Esse movimento, porm, creio ter acabado com o
poeta das Vozes dfrica. Distinguia-o certa pompa, s
47
vezes excessiva, certo intumescimento de idia e de frase,
um grande arrojo de metforas, coisas todas que nunca
jamais poderiam constituir virtudes de uma escola; por isso
mesmo  que o movimento acabou. Agora, a imitao de
V. Hugo  antes da forma conceituosa que da forma
explosiva; o jeito axiomtico, a expresso antitica, a
imagem, enfim o contorno da metrificao, so muita vez
reproduzidos, e no sem felicidade. Contriburam
largamente para isso o Sr. Guerra Junqueiro e seus
discpulos da moderna escola portuguesa. Quanto a
Baudelaire, no sei se diga que a imitao  mais
intencional do que feliz. O tom dos imitadores  demasiado
cru; e alis no  outra a tradio de Baudelaire entre ns.
Tradio errnea. Satnico, v; mas realista o autor de D.
Juan aux Enfers e da Tristesse de Ia Lun! Ora, essa
reproduo, quase exclusiva, essa assimilao do sentir e
da maneira de dois engenhos, to originais, to
soberanamente prprios, no diminuir a pujana do
talento, no ser obstculo a um desenvolvimento maior,
no traz principalmente o perigo de reproduzir os
ademanes, no o esprito  a cara, no a fisionomia? Mais:
no chegar tambm a tentao de s reproduzir os
defeitos, e reproduzi-los exagerando-os que  a tendncia
de todo o discpulo intransigente?
A influncia francesa  ainda visvel na parte mtrica, na
excluso ou decadncia do verso solto, e no uso freqente
ou constante do alexandrino.  excelente este metro; e
para empregar um smile musical, no ser to meldico,
como outros mais genuinamente nossos, mas 
harmonioso como poucos. No  novo na nossa lngua,
nem ainda entre ns; desde Bocage algumas tentativas
houve para aclim-lo; Castilho o trabalhou com muita
perfeio. A objeo que se possa fazer  origem
estrangeira do alexandrino  frouxa e sem valor; no
somente as teorias literrias cansam, mas tambm as
formas literrias precisam ser renovadas. Que fizeram
nessa parte os romnticos de 1830 e 1840, seno ir buscar
e rejuvenescer algumas formas arcaicas?
Quanto  decadncia do verso solto, no h dvida que 
tambm um fato, e na nossa lngua um fato importante. O
verso solto, to longamente usado entre ns, to vigoroso
nas pginas de um Junqueira Freire e de um Gonalves
48
Dias entra em evidente decadncia! No h neg-lo.
Estamos bem longe do tempo em que Filinto proclamava
galhardamente a sua adorao ao verso solto, adorao
latina e arcaica. Algum j disse que o verso solto ou
branco era feito s para os olhos. Blank verse seems to be
verse only to the eye e Johnson, que menciona esse
conceito, para condenar a escolha feita por Mlton, pondera
que dos escritores italianos por este citados, e que baniram
a rima de seus versos, nenhum  popular: observao que
me levou a ajuizar de nossas prprias coisas. Sem diminuir
o alto merecimento de Gonzaga o nosso grande lrico, 
evidente que Jos Baslio da Gama era ainda maior poeta.
Gonzaga tinha decerto a graa, a sensibilidade, a melodia
do verso, a perfeio de estilo; ainda nos punha em Minas
Gerais as pastorinhas do Tejo e as ovelhas acadmicas.
Bem diversa  a obra capital de Baslio da Gama. No lhe
falta, tambm a ele, nem sensibilidade nem estilo, que em
, grau possui; a imaginao  grandemente superior  de
Gonzaga, e quanto  versificao nenhum outro, em nossa
lngua a possui mais harmoniosa e pura. Se Johnson o
pudesse ter lido, emendaria certamente o conceito de seu
ingenious critic. Pois bem, no obstante tais mritos, a
popularidade de Baslio da Gama  muito inferior 
Gonzaga; ou antes Baslio da Gama no  absolutamente
popular. Ningum, desde o que se preza de literato at ao
que mais alheio for s coisas de poesia, ningum deixa de
ter lido, ao menos uma vez livro do Inconfidente; muitos
de seus versos correm de cor. A reputao de Baslio da
Gama, entretanto,  quase exclusivamente literria. A
razo principal deste fenmeno  decerto mais elevada que
da simples forma mtrica, mas o reparo do crtico ingls
tem aqui muita cabida. No ser tambm certo que a
popularidade de Gonalves Dias acha razes mais profundas
nas suas belas estncias rimadas do que nas que o no
so, e que  maior o nmero dos que conhece a "Cano
do Exlio" e o "Gigante de Pedra", do que os que lem os
quatro cantos das Timbiras?
Mas e tempo de irmos diretamente aos poetas. Vimos que
h um tendncia nova, oriunda do fastio deixado pelo
abuso do subjetivismo e do desenvolvimento das modernas
teorias cientficas; vimos tambm que essa tendncia no
est ainda perfeitamente caracterizada, e que os prprios
escritores novos tentam achar-lhe uma definio e um
49
credo; vimos enfim que esse movimento  determinado por
influncia de literaturas ultramarinas. Vejamos agora
sumria e individualmente os novos poetas, no todos,
porque os no pude coligir a todos mas certo nmero
deles,  os que bastam pelo talento e pela ndole do
talento para dar uma idia dos elementos que compem a
atual gerao. Vamos l-los com afeio, com serenidade,
e com esta disciplina de esprito que convm exemplificar
aos rapazes.
II
No formam os novos poetas um grupo compacto: h deles
ainda fiis as tradies ltimas do Romantismo,  mas de
uma fidelidade Mitigada, j rebelde, como o Sr. Lcio de
Mendona, por exemplo ou como o Sr. Tefilo Dias, em
algumas pginas dos Cantos Tropicais. O Sr. Afonso Celso
Jnior, que balbuciou naquela lngua as suas primeiras
composies, fala agora outro idioma:  j notvel a
diferena entre os Devaneios e as Telas Sonantes: o
prprio ttulo o indica. Outros h que no tiveram essa
gradao ou no coligi documento que positivamente a
manifeste. No faltar tambm, s vezes, algum raro
vestgio de Castro Alves. Tudo isso como eu j disse, indica
um movimento de transio, desigualmente expresso,
movimento que vai das estrofes ltimas do Sr. Tefilo Dias
aos sonetos do Sr. Carvalho Jnior.
Detenhamo-nos em frente do ltimo, que  finado. Poucos
versos nos deixou ele, uma vintena de sonetos, que um
piedoso e talentoso amigo, o Sr. Artur Barreiros, coligiu
com outros trabalhos e deu h pouco num volume, como
obsquio pstumo. O Sr. Carvalho Jnior era literalmente o
oposto do Sr. Tefilo Dias, era o representante genuno de
uma poesia sensual, a que, por inadvertncia, se chamou e
ainda se chama Realismo. Nunca, em nenhum outro poeta
nosso, apareceu essa nota violenta, to exclusivamente
carnal. Nem ele prprio o dissimula; confessa-se desde a
primeira estrofe da coleo:
Odeio as virgens plidas, clorticas,
Belezas de missal.
e no fim do soneto:
50
Prefiro a exuberncia dos contornos,
As belezas da forma, seus adornos,
A sade, a matria, a vida enfim.
A temos o poeta, a o temos inteiro e franco. No lhe
desagradam as virgens plidas; o desagrado  uma
sensao tbia; tem-lhes dio, que  o sentimento dos
fortes. Ao mesmo tempo d-nos ali o seu credo, e f-lo
sem rebuo,  sem excluso do nome idneo, sem
excluso da matria, se a matria  necessria. Haver
nisso um sentimento sincero, ou o poeta carrega a mo,
para efeitos puramente literrios? Inclina-se a esta ltima
hiptese o Sr. Artur Barreiros. "Neste descompassado amor
 carne (diz ele) certo deve de haver o seu tanto ou quanto
de artificial." Quem l a composio que tem por ttulo
Antropofagia fica propenso a supor que  assim mesmo.
No conheo em nossa lngua uma pgina daquele tom; 
a sensualidade levada efetivamente  antropofagia. Os
desejos do poeta so instintos canibais, que ele mesmo
compara a jumentas lbricas:
Como um bando voraz de lbricas jumentas;
e isso, que parece muito, no  ainda tudo; a imagem no
chegou ainda ao ponto mximo, que  simplesmente a
besta-fera:
Como a besta feroz a dilatar as ventas,
Mede a presa infeliz por dar-lhe o bote a jeito,
De meu flgido olhar s chispas odientas
Envolvo-te, e, convulso, ao seio meu t'estreito.
L esto, naquela mesma pgina, as fomes bestiais, os
vermes sensuais, as carnes febris. Noutra parte os desejos
so "urubus em torno de carnia". No conhecia o Sr.
Carvalho Jnior as atenuaes da forma, as surdinas do
estilo; aborrecia os tons mdios. Das tintas todas da
palheta a que o seduzia era o escarlate. Entre os vinte
sonetos que deixou, raro  o que no comemore um lance,
um quadro, uma recordao de alcova; e eu compreendo a
fidelidade do Sr A. Barreiros, que, tratando de coligir os
escritos esparsos do amigo, no quis excluir nada, nenhum
elemento que pudesse servir ao estudo do esprito literrio
de nosso tempo. Vai em trinta anos que lvares de
Azevedo nos dava naquele soneto, "Plida  luz da
51
lmpada sombria", uma mistura to delicada da nudez das
formas com a uno do sentimento. Trinta anos bastaram
 evoluo que excluiu o sentimento para s deixar as
formas; que digo? para s deixar as carnes Formas parece
que implicam certa idealidade que o Sr. Carvalho Jnior
inteiramente bania de seus versos. E contudo era poeta
esse moo, era poeta e de raa. Crus em demasia so os
seus quadros; mas no  comum aquele vigor, no 
vulgar aquele colorido. O Sr. A. Barreiros fala dos sonetos
como escritos ao jeito de Baudelaire, modificados ao
mesmo tempo pelo temperamento do poeta. Para
compreender o acerto desta observao do Sr. Barreiros,
basta comparar a Profisso de F do Sr. Carvalho Jnior
com uma pagina das Flores do Mal.  positivo que o nosso
poeta inspirou-se do outro. "Belezas de missal" diz aquele;
Beauts de vignettes escreve este; e se Baudelaire no fala
de "virgens clorticas"  porque se exprime de outra
maneira: deixa-as a Gavarni, pote de chloroses. Agora,
onde o temperamento dos dois se manifesta, no  s em
que o nosso poeta odeia aquelas virgens ao passo que o
outro se contenta em dizer que elas lhe no podem
satisfazer o corao. Posto que isso baste a diferen-los,
nada nos d to positivamente a medida do contraste
como os tercetos com que eles fecham a respectiva
composio. O Sr. Carvalho Jnior, segundo j vimos,
prefere a exuberncia de contornos, a sade, a matria.
Vede Baudelaire:
Ce quiil faut  ce coeur profond comme un abme,
C'est vous, Lady Macbeth, me puissante au crime,
Rve d'Eschyle clos au climat des autans.
Ou bien toi, grande Nuit, fille de Michel-Ange,
Qui tors paisiblement dans une pose trange
Tes appas faonns aux bouches des Titans,
Assim pois, o Sr. Carvalho Jnior, cedendo a si mesmo e
carregando a mo descautelosa, faz uma profisso de f
exclusivamente carnal; no podia seguir o seu modelo,
alcunhado realista, que confessa um rouge idal e que o
encontra em Lady Macbeth, para lhe satisfazer o corao,
profond comme un abme. J ficamos muito longe da
alcova. Entretanto, convenho que Baudelaire fascinasse o
Sr. Carvalho Jnior, e lhe inspirasse algumas das
composies; convenho que este buscasse segui-lo na
52
viveza da pintura, na sonoridade do vocbulo; mas a
individualidade prpria do Sr. Carvalho Jnior l
transparece no livro, e com o tempo, acabaria por dominar
de todo. Era poeta, de uma poesia sempre violenta, as
vezes repulsiva, priapesca, sem interesse; mas em suma
era poeta; no so de amador estes versos de Nemesis:
H nesse olhar translcido e magntico
A mgica atrao de um precipcio,
Bem como no teu rir nervoso, cptico
As argentinas vibraes do vcio
No andar, no gesto mrbido, esplentico,
Tens no sei que de nobre e de patrcio,
E um som de voz metlico, frentico,
Como o tinir dos ferros de um suplcio.
Quereis ver o oposto do Sr. Carvalho Jnior? Lede o Sr.
Tefilo Dias. Os Cantos Tropicais deste poeta datam dum
ano; so o seu ltimo livro. A Lira dos Verdes Anos que foi
a estria, revelou desde logo as qualidades do Sr. Tefilo
Dias, mas no podia revel-lo todo, porque s mais tarde 
que o esprito do poeta comeou a manifestar vagamente
uma tendncia nova. O autor dos Cantos Tropicais 
sobrinho de Gonalves Dias, circunstncia que no tem s
interesse biogrfico, mas tambm literrio; a poesia dele,
a doura, o torneio do verso lembram muita vez a maneira
do cantor dOs Timbiras sem alis nada perder de sua
originalidade;  como se dissssemos um ar de famlia.
Quem percorre os versos de ambos reconhece, entretanto,
o que positivamente os separa; a Gonalves Dias sobrava
certo vigor, e, por vezes, tal ou qual tumulto de
sentimentos, que no so o caracterstico dos versos do
sobrinho. O tom principal do Sr. Tefilo Dias  a ternura
melanclica. No  que lhe falte, quando necessria, a
nota viril; basta ler o "Batismo do Fogo", "Cntico dos
Bardos" e mais duas ou trs composies; sente-se,
porm, que a o poeta  intencionalmente assim, que o
pode ser tanto, que o poderia ser ainda mais, se quisesse,
mas que a corda principal da sua lira no  essa. Por outro
lado, h no Sr. Tefilo Dias certas audcias de estilo, que
no se acham no autor do I-Juca-Pirama, e so por assim
dizer a marca do tempo. Citarei, por exemplo, este
53
princpio de um soneto, que  das melhores composies
dos Cantos Tropicais:
Na luz que o teu olhar azul transpira,
H sons espirituais;
estes "sons espirituais",  aquele "olhar azul",  aquele
"olhar que transpira", so atrevimentos poticos ainda
mais desta gerao que da outra; e se algum dos meus
leitores,  dos velhos leitores,  circunflexar as
sobrancelhas, como fizeram os guardas do antigo Parnaso
ao surgir a lua do travesso Musset, no lhes citarei decerto
este verso de um recente compatriota de Racine:
Quelque chose comme une odeur que serait blonde,
porque ele poder averb-lo de suspeio; vou  boa e
velha prata de casa, vou ao Porto Alegre:
E derrama no ar canoro lume.
Se a Lira dos Verdes Anos no o revelou todo, deu contudo
algumas de suas qualidades, e  um documento valioso do
talento do Sr. Tefilo Dias. Vrias composies desse, 
Cismas  Beira-mar, por exemplo, podiam estar na
segunda coleo do poeta. Talvez o estilo dessa
composio seja um pouco convencional; nota-se-lhe,
porm, sentimento potico, e, a espaos, muita felicidade
de expresso. Os Cantos Tropicais pagaram a promessa da
Lira dos Verdes Anos, o progresso  evidente; e, como
disse, o esprito do autor parece manifestar uma tendncia
nova. Contudo, no  tal o contraste, que justifique a
declarao feita pelo poeta no primeiro livro, a saber, que
quando comps aqueles versos pensava diferentemente do
que na data da publicao. Acredito que sim; mas  o que
se no deduz do livro. O poeta apura as suas boas
qualidades, forceja por variar o tom, lana os olhos em
redor e ao longe; mas a corda que domina  a das suas
estrias.
Poetas h cuja tristeza  como um goivo colhido de
inteno, e posto  guisa de ornamento. A estrofe do Sr.
Tefilo Dias, quando triste, sente-se que corresponde ao
sentimento do homem, e que no vem ali simplesmente
54
para enfeit-lo. O Sr. Tefilo Dias no  um desesperado,
mas no estou longe de crer que seja um desencantado; e
quando no achssemos documento em seus prprios
versos, ach-lo-amos nos de alheia e peregrina
composio, transferida por ele ao nosso idioma. Abro mo
da Harpa de Moore; mas os Mortos de Corao, do mesmo
poeta, no parece que o Sr. Tefilo Dias os foi buscar
porque lhe falavam mais diretamente a ele? Melhor do que
isso, porm, vejo eu na escolha de uma pgina das Flores
do Mal. O albatroz, essa guia dos mares, que, apanhada
no convs do navio perde o uso das asas e fica sujeita ao
escrnio da maruja, esse albatroz que Baudelaire compara
ao poeta, exposto  mofa da turba tolhido pelas prprias
asas, estou que seduziu o Sr. Tefilo Dias menos por
esprito de classe do que por um sentimento pessoal; esse
albatroz  ele prprio. No vejo o poeta, no que a fica, um
elogio no  elogio nem censura;  simples observao da
crtica. Quereis a prova do reparo? Lede os versos que tm
por ttulo Antema, curiosa histria de um amor de poeta,
amor casto e puro, cuja iluso se desfaz logo que o objeto
amado lhe fala cruamente a linguagem dos sentidos. Essa
composio, que termina por uma longnqua reminiscncia
do Padre Vieira  "Perdo-vos... e vingo-me!", essa
composio  o corolrio do Albatroz e explica o tom geral
do livro. O poeta indigna-se, no tanto em nome da moral,
como no de seu prprios sentimentos;  o egosmo da
iluso que solua, brada, e por fim condena, e por fim
sobrevive nestes quatro versos:
... Ao p de vs, quando em delcias
s minhas iluses sem d quebrveis,
Revestia-se um anjo com os andrajos,
Dos sonhos que rompeis.
No  preciso mais para conhecer o poeta, com a
melindrosa sensibilidade, com a singeleza da puercia, com
a iluso que forceja por arrancar o vo do cho; essa  a
nota principal do livro,  a do "Getseman" e a do
"Pressentimento". Pouco difere a da "Poeira e Lama", na
qual parece haver um laivo de pessimismo; e se, como na
"Andalusa", o poeta sonha com "bacanais" e "pulsaes
lascivas", crede que no  sonho, mas pesadelo e pesadelo
curto; ele  outra coisa. J acima o disse: h nos Cantos
Tropicais algumas pginas em que o poeta parece querer
55
despir as vestes primeiras; poucas so, e nessas a nota 
mais enrgica, intencionalmente enrgica; o verso sai-lhe
cheio e viril, como na "Poesia Moderna", e o pensamento
tem a elevao do assunto. A nos aparece a justia de que
falei na Primeira parte deste estudo; a vemos a musa
moderna, irm da liberdade, tomando nas mos a lana da
justia e o escudo da razo. Certo, h alguma coisa
singular neste evocar a musa da razo pela boca de um
poeta de sentimento; no menos parecem destoar do autor
do "Solilquio" as preocupaes polticas da "Poesia
Moderna".
No  que eu exclua os poetas de minha repblica; sou
mais tolerante que Plato; mas alguma coisa me diz que
esses toques polticos do Sr. Tefilo Dias so de puro
emprstimo; talvez um reflexo do crculo de seus amigos.
No obstante, h em tais versos um esforo para fugir 
exclusiva sentimentalidade dos primeiros tempos, esforo
que no ser baldado, porque entre as confidncias
pessoais e as aspiraes de renovao poltica, alarga-se
um campo infinito em que se pode exercer a inveno do
poeta. Ele tem a inspirao o calor, e o gosto; seu estilo 
decerto assaz flexvel para se acomodar a diferentes
assuntos, para os tratar com o apuro a que nos
acostumou. A realidade h de fecundar-lhe o engenho; seu
verso to meldico e puro, saber cantar outros aspectos
da vida. "Tenho vinte anos e desprezo a vida", diz o Sr.
Tefilo Dias em uma das melhores pginas dos seus Cantos
Tropicais. Ao que lhe respondo com esta palavra de um
moralista: Aimez la vie, la vie vous aimera.
Se o poeta quer um exemplo, tem-no completo no Sr.
Afonso Celso Jnior. O autor dos Devaneios -o tambm
das Telas Sonantes. No sei precisamente a sua idade;
creio, porm, que no conta ainda vinte anos. Pois bem.
em 1876 a sua potica, estilo e linguagem eram ainda as
de um lirismo extremamente pessoal, com a estrutura e os
ademanes prprios do gnero. Numa coleo de sonetos,
em que o verso alis corre fluente e no sem elegncia,
ligados todos por um nico ttulo, Me, falava o poeta de
sua alma, "mais triste do que J", nas tribulaes da vida
e no acerbo das lutas. Quantos h a, romnticos
provectos, que no empregaram tambm este mesmo
estilo, nos seus anos juvenis? Naquele mesmo livro dos
56
Devaneios, antes balbuciado do que escrito, ainda incorreto
em partes, ali mesmo avulta alguma coisa menos pessoal,
sente-se que o poeta quer fugir a si mesmo; mas so
apenas tentativas, como tentativa  a obra. Nas Telas
Sonantes temos a primeira afirmao definitiva do poeta.
Um trao h que distingue o Sr. Afonso Celso Jnior de
muitos colegas da nova gerao; a sua poesia no
impreca, no exorta, no invectiva.  um livro de quadros
o seu, singelos ou tocantes, graciosos ou dramticos, mas
verdadeiramente quadros, certa impessoalidade
caracterstica. Todos se lembram ainda agora do efeito
produzido, h oito anos, pelas Miniaturas do Sr. Crespo,
um talentoso patrcio nosso, cujo livro nos veio de
Coimbra, quando menos espervamos. Nos quadros do Sr.
Crespo, que alis no eram a maior parte do livro, tambm
achamos aquela, eliminao do poeta, com a diferena que
eram obras de puro artista, ao passo que nos do Sr. Afonso
Celso Jnior entra sempre alguma coisa, que no  a
presena, mas a inteno do poeta. Entender-se- isto
mais claramente, comparando a A Bordo do Sr. Crespo
com o Esboo do Sr. Afonso Celso Jnior. Ali  uma
descrio graciosa, e creio que perfeita, de um aspecto de
bordo, durante uma calmaria; vemos os marinheiros
"recostados em rolos de cordame", o papagaio, uma
inglesa, um cozinho da inglesa, o fazendeiro que passeia,
os trs velhos que jogam o voltarete, e outros traos assim
caractersticos; depois refresca o vento e l vai a galera. O
Esboo do Sr. Afonso Celso  uma volta de teatro; uma
jovem senhora, violentamente comovida, trmula, nervosa,
sai dali, entra no carro e torna  casa; acha  Porta o
criado, ansioso e trmulo, porque lhe adoecera um filho
com febre, e para cumprir sua obrigao servil, ali ficara
toda a noite a esper-la. A dama, diz o poeta,
A dama, que do palco ao drama imaginrio,
Havia arfado tanto
Perante o drama vivo, honrado e solitrio.
Soltou um ah! de gelo, e como a olhasse o velho,
Pedindo-lhe talvez no transe algum conselho,
Disse com abandono,
De indiferena cheia,
Que podia ir velar do filho o extremo sono;
Mas que fosse primeiro  mesa pr a ceia.
57
Esse contraste de efeitos entre a realidade e a fico
potica explica a idia do Sr. Afonso Celso Jnior. Notei a
diferena entre ele e o Sr. Crespo; notarei agora que o
poeta das Miniaturas de algum modo influiu no dos
Devaneios. Digo expressamente no dos Devaneios, porque
neste livro, e no no outro,  que o olhar exercitado do
leitor poder descobrir algum vestgio,  um quadro como
o do sonto "Na Fazenda",  ou a eleio de certas formas
e disposies mtricas; mas para conhecer que a influncia
de um no diminuiu a originalidade de outro, basta ler
duas composies de ttulo quase idntico,  duas
histrias,  a de uma mulher que ria sempre, e a de outra
que no ria nunca. Aquela gerou talvez esta, mas a
filiao, se a h, no passa de um contraste no ttulo; no
resto os dois poetas separam-se inteiramente. No
obstante, os Devaneios no tm o mesmo valor das Telas
Sonantes; eram uma promessa, no precisamente um
livro.
Neste  que est a feio dominante do Sr. Afonso Celso
Jnior; a comoo e a graa. Vimos o "Esboo", e "Flauta"
no  menos significativa. Verdadeiramente no cabe a
esta composio o nome de quadro, mas de poema, 
poema  moderna; h ali mais do que um momento e uma
perspectiva; h uma historia, uma ao. Um operrio vivo
possua uma flauta, que lhe servia a esquecer os inales da
vida e adormecer a filha que lhe ficara do matrimnio.
Escasseia, entretanto, o trabalho; entra em casa a penria
e a fome; o operrio vai empenhando, s ocultas, tudo o
que possui, e o dinheiro que pode apurar entrega-o  filha,
como se fosse salrio; a flauta era a confidente nica de
suas privaes. Mas o mal cresce; tudo est empenhado;
at que um dia, sem nenhum outro recurso, sai o operrio
e volta com um jantar. A filha, que a fome abatera,
recebe-o alegre e satisfaz a natureza; depois pede ao pai
que lhe toque a flauta, segundo costumava; o pai
confessa-lhe soluando que a vendera para lhe conservar a
vida. Tal  esse poema singelo e dramtico, em que h boa
e verdadeira poesia. Nenhum outro  mais feliz do que
esse. Assim como o "Esboo" tem por assunto um amor de
pai, a "Cena Vulgar" consagra a dor materna; e seria to
acabado como o outro, se fora mais curto. A idia 
demasiado tnue, e demasiado breve a ao, para as trs
pginas que o poeta lhe deu; outrossim, o desfecho,
58
aquele tocador de realejo, que exige a paga, enquanto a
me convulsa abraa o filho defunto, esse desfecho teria
mais fora, se fora mais sbrio, mais simples, se no tivera
nenhum qualificativo, nem a "rudez grosseira", nem "os
insolentes brados"; o simples contraste daquele homem e
daquela me era suficientemente cru.
Fiz um reparo; por que no farei ainda outro? A "Jia",
alis to sbria, to concisa, parece-me um pouco artificial.
Ao filhinho, que diante de um mostrador de joalheiro, lhe
pede um camafeu, responde a me com um beijo, e
acrescenta que esta jia  melhor do que a outra; o filho
entende-a, e diz-lhe que, se est assim to rica de jias,
lhe d um colar.  gracioso! mas no  a criana que fala,
 o poeta. No  provvel que a criana entendesse a
figura; dado que a entendesse,  improvvel que a
aceitasse. A criana insistiria na primeira jia; cet ge est
sans piti. Entretanto, h ali mais de uma expresso feliz,
como, por exemplo, a me e o filho que "lambem com o
olhar" as pedrarias do mostrador. O dilogo tem toda a
singeleza da realidade. Podia citar ainda outras pginas
assim graciosas, tais como "No ntimo", que se compe
apenas de dez versos: uma senhora, que depois de servir o
jantar aos filhos, serve tambm a um co; simples episdio
caseiro, narrado com muita propriedade. Podia citar ainda
a "Filha da Paz", poema de outras dimenses e outro
sentido, bem imaginado e bem exposto; podia citar alguns
mais; seria, porm, derramar a crtica.
Vejo que o Sr. Afonso Celso Jnior procura a inspirao na
realidade exterior, e acha-a fecunda e nova. Tem o senso
potico, tem os elementos do gosto e do estilo. A lngua 
vigorosa, conquanto no perfeita; o verso  fluente, se
nem sempre castigado. Alguma vez a fantasia parece ornar
a realidade mais do que convm  fico potica, como na
pintura dos sentimentos do soldado, na "Filha da Paz"; mas
ali mesmo achamos a realidade transcrita com muita
perspiccia e correo, como na pintura da casa, com o
seu tamborete manco, a mesa carunchosa, o registro e o
espelho pregados na parede. Os defeitos do poeta provm,
creio eu, de alguma impacincia juvenil. Quem pode o mais
pode o menos. Um poeta verdadeiro, como o Sr. Afonso
Celso Jnior, tem obrigao de o ser acabado; depende de
si mesmo.
59
Sinto que no possa dizer muito do Sr. Fontoura Xavier,
um dos mais vvidos talentos da gerao nova. Salvo um
opsculo, este poeta no tem nenhuma coleo publicada;
os versos andam-lhe espalhados por jornais, e os que pude
coligir no so muitos; achei-os numa folha acadmica de
S. Paulo, redigida em 1877, por uma pliade de rapazes de
talento, folha republicana, como  o Sr. Fontoura Xavier.
Republicano  talvez pouco. O Sr. Fontoura Xavier h de
tomar  boa parte uma confisso que lhe fao; creio que
seus versos avermelham-se de um tal ou qual jacobinismo;
no  impossvel que a Conveno lhe desse lugar entre
Hebert e Billaut. O citado opsculo, que se denomina o ,
confirma o que digo; acrobata, truo, frascrio, Benoiton
eqestre, deus de trampolim, tais so os eptetos usados
nessa composio. No so mais moderados os versos
avulsos. Se fossem somente verduras da idade, podamos
aguardar que o tempo as amadurecesse; se houvesse a
apenas uma interpretao errnea dos males pblicos e do
nosso estado social, era lcito esperar que a experincia
retificasse os conceitos da precipitao. Mas h mais do
que tudo isso; para o Sr. Fontoura Xavier h uma questo
literria: trata-se de sua prpria qualidade de poeta.
No creio que o Sr. Fontoura Xavier, por mais aferro que
tenha s idias polticas que professa, no creio que as
anteponha asceticamente s suas ambies literrias. Ele
pede a eliminao de todas as coroas, rgias ou
sacerdotais, mas  implcito que excetua a de poeta, e est
disposto a cingi-la. Ora,  justamente desta que se trata. O
Sr. Fontoura Xavier, moo de vivo talento, que dispe de
um verso cheio, vigoroso, e espontneo, est arriscando as
suas qualidades nativas, com um estilo, que  j a puda
ornamentao de certa ordem de discursos do Velho
Mundo. Sem abrir mo das opinies polticas, era mais
propcio ao seu futuro potico, exprimi-las em estilo
diferente,  to enrgico, se lhe parecesse, mas diferente.
O distinto escritor que lhe prefaciou o opsculo cita
Juvenal, para justificar o tom da stira, e o prprio poeta
nos fala de Roma; mas, francamente,  abusar dos termos.
Onde est Roma, isto , o declnio de um mundo, nesta
escassa nao de ontem, sem fisionomia acabada, sem
nenhuma influncia no sculo, apenas com um prlogo de
histria? Para que reproduzir essas velharias enfticas?
60
Inversamente, cai o Sr. Fontoura Xavier no defeito daquela
escola que, em estrofes inflamadas, nos proclamava to
grandes como os Andes,  a mais ftua e funesta das
rimas. Ni cet excs d'honneur, ni cette indignit.
No digo ao Sr. Fontoura Xavier que rejeite as suas
opinies polticas, por menos arraigadas que lhas julgue,
respeito-as. Digo-lhe que no deixe abafar as qualidades
poticas, que exera a imaginao, alteie e aprimore o
estilo, e no empregue o seu belo verso em dar vida nova
a metforas caducas; fique isso aos que no tiverem outro
meio de convocar a ateno dos leitores.
No est nesse caso o Sr. Fontoura Xavier. Entre os
modernos  ele um dos que melhormente trabalham o
alexandrino; creio que as vezes sacrifica a perspicuidade 
harmonia, mas no  nico nesse defeito, e alis no 
defeito comum nos seus versos, nos poucos versos que me
foi dado ler.
Isso que a fica acerca do Sr. Fontoura Xavier, bem o posso
aplicar, em parte, ao Sr. Valentim Magalhes, poeta ainda
assim menos exclusivo que o outro. Os Cantos e Lutas,
impressos h dois ou trs meses, creio serem o seu
primeiro livro. No comeo deste estudo citei o nome do Sr.
Valentim Magalhes; sabemos j que na opinio dele, a
idia nova  o cu deserto, a oficina e a escola cantando
alegres, o mal sepultado, Deus na conscincia, o bem no
corao, e prximas a liberdade e a justia. No  s na
primeira pagina que o poeta nos diz isto; repete-o no
"Prenncio da Aurora", "No Futuro", "Mais um Soldado"; 
sempre a mesma idia, diferentemente redigida, com igual
vocabulrio. Pode-se imaginar o tom e as promessas de
todas essas composies. Num delas o poeta afiana alvio
s almas que padecem, po aos operrios, liberdade aos
escravos, porque o reinado da justia est prximo.
Noutra parte, anunciando que pegou da espada e vem
juntar-se aos combatentes, diz que as legies do passado
esto sendo dizimadas, e que o dogma, o privilgio, o
despotismo, a dor vacilam  voz da justia. Vemos que,
no  s o po que o operrio h de ter, a liberdade que h
de ter o escravo;  a prpria dor que tem de ceder 
justia. Ao mesmo tempo, quando o poeta nos diz que fala
61
do futuro e no do passado, ouvimo-lo definir o heri
medieval, contraposto e sobreposto ao heri moderno, que
 um rapaz plido. "com horror  arma branca". Nessa
contradio, que o poeta busca dissimular e explicar, h
um vestgio da incerteza que, a espaos, encontramos na
gerao nova,  alguma coisa que parece remota da
conscincia e nitidez de um sentimento exclusivo. E a
feio desta quadra transitria.
No  vulgar a comoo nos versos do Sr. Valentim
Magalhes; creio at que seria impossvel ach-la fora da
pgina dedicada "a um morto obscuro". Nessa pgina h
na verdade uma nota do corao; a morte de um
companheiro ensinou-lhe a linguagem ingenuamente
cordial, sem artifcio nem inteno vistosa. H pequenos
quadros, como o "Contraste", em que o poeta nos descreve
um mendigo, ao domingo, no meio de uma populao que
descansa e ri; como o soneto em que nos d uma pobre
velha esperando at de madrugada a volta do filho
crapuloso; como o "Miservel", e outros; h desses
quadros, digo, que me parecem preferveis  "Velha
Histria", no obstante ser o assunto desta perfeitamente
verossmil e verdadeiro; o que a me agrada menos  a
execuo. O Sr. Valentim Magalhes deve atentar um
pouco mais para a maneira de representar os objetos e de
exprimir as sensaes; h uma certa unidade e equilbrio
de estilo, que por vezes lhe falta. No "Deus Mendigo", por
exemplo, o velho que pede esmola  porta da S, 
excelente; os olhos melanclicos do mendigo, dos quais
diz o poeta:
H neles o rancor silencioso,
A raivosa humildade da desgraa
Que blasfema e que esmola;
esses olhos esto reproduzidos com muita felicidade;
entretanto, pela composio adiante achamos uns
sobressaltos de estilo e de idias, que destoam e diminuem
o mrito da composio. Por que no h de o poeta
empregar sempre a mesma arte de que nos d exemplo na
descrio dos ferreiros trabalhando, com o "luar sangneo
dos carves e esbater-se-lhes no rosto bronzeado"?
62
Para conhecer bem a origem das idias deste livro, melhor
direi a atmosfera intelectual do autor, basta ler os "Dois
Edifcios".  quase meio-dia; encostado ao gradil de uma
cadeia est um velho assassino, a olhar para fora; h uma
escola defronte. Ao bater a sineta da escola saem as
crianas alegres e saltando confusamente; o velho
assassino contempla-as e murmura com voz amargurada:
"Eu nunca soube ler!" Quer o Sr. Valentim Magalhes que
lhe diga? Essa idia, a que emprestou alguns belos versos,
no tem por si nem a verdade nem a verossimilhana; 
um lugar-comum, que j a escola hugosta nos metrificava
h muitos anos. Hoje est bastante desacreditada. No a
aceita Littr, como panacia infalvel e universal; Spencer
reconhece na instruo um papel concomitante na
moralidade, e nada mais. Se no  rigorosamente
verdadeira,  de todo o ponto inverossmil a idia do
poeta; a expresso final, a moralidade do conto, no  do
assassino, mas uma reflexo que o poeta lhe empresta.
Quanto  forma, nenhuma outra pgina deste livro
manifesta melhor a influncia direta de V. Hugo; l est a
anttese constante,  "a luz em frente  sombra";  "a
fome em frente  esmola"; "o deus da liberdade em frente
ao deus do mal"; e esta outra figura para exprimir de vez o
contraste da escola e da cadeia:
Vtor Hugo fitando Incio de Loiola.
Tem o Sr. Valentim Magalhes o verso fcil e flexvel; o
estilo mostra por vezes certo vigor, mas carece ainda de
uma correo, que o poeta acabar por lhe dar. Creio que
cede, em excesso, a admiraes exclusivas. No 
propriamente um livro este dos Contos e Lutas. As idias
dele so geralmente de emprstimo; e o poeta no as
reala por um modo de ver prprio e novo. Crtica severa,
mas necessria, porque o Sr. Valentim Magalhes  dos
que tm direito e obrigao de a exigir.
No ilude a ningum o Sr. Alberto de Oliveira. Ao seu livro
de versos ps francamente um ttulo condenado entre
muitos de seus colegas; chamou-lhe Canes Romnticas.
Na verdade,  audacioso. Agora, o que se no compreende
bem  que, no obstante o ttulo, o poeta nos d a
"Toilette Lrica",  p. 43, uns versos em que fala do lirismo
condenado e dos trovadores. Dir-se- que h a alguma
63
ironia oculta? No; eu creio que o Sr. Alberto de Oliveira,
chega a um perodo transitivo, como outros colegas seus;
tem o lirismo pessoal, e busca um-a alma nova. Ele mesmo
nos diz,  p. 93, num soneto ao Sr. Fontoura Xavier, que
no l somente a histria dos amantes, os ternos
madrigais; no vive s de olhar para o cu:
Tambm sei me enlevar; se, em sacrossanta ira,
O Bem calca com os ps os Vcios arrogantes,
Eu, como tu, folheio a lenda dos gigantes,
E sei lhes dar tambm uma cano na lira.
 preciosa a confisso; e todavia apenas temos a
confisso; o livro no traz nenhuma prova da veracidade
do poeta. A razo  que o livro estava feito; e no  s
essa; h outra e principal. O Sr. Alberto de Oliveira pode
folhear a lenda dos gigantes; mas no lhes d um canto,
uma estrofe, um verso;  o conselho da crtica. Nem todos
cantam tudo; e o erro talvez da gerao nova ser querer
modelar-se somente saudada, mas tambm conversada,
interrogada e adivinhada; -lhe precisa a confabulao
diurna e noturna. No v o poeta atentar na vizinha
quando ela estiver a partir; mui difcil  que atine depois
com o nmero da casa nova. Por outro lado, no converta
os mimos em enfados, porque h tambm outra maneira
de se fazer desadorar da poesia:  mat-la com o contrrio
excesso,  observao to intuitiva que j um nosso
clssico dizia que o muito mimo tolhe o desenvolvimento
da planta. Nem descuido nem artifcio: arte.
No direi a mesma coisa ao Sr. Slvio Romero, e por
especial motivo. O autor dos Cantos do Fim do Sculo  um
dos mais estudiosos representantes da gerao nova; 
laborioso e hbil. Os leitores desta Revista acompanham
certamente com interesse as apreciaes crticas
espalhadas no estudo que, acerca da poesia popular no
Brasil, est publicando o Sr. Slvio Romero. Os artigos de
crtica parlamentar, dados h meses no Reprter, e
atribudos a este escritor, no eram todos justos, nem
todos nem sempre variavam no mrito, mas continham
algumas observaes engenhosas e exatas. Faltava-lhes
estilo, que  uma grande lacuna nos escritos do Sr. Slvio
Romero; no me refiro s flores de ornamentao, 
ginstica de palavras; refiro-me ao estilo, condio
64
indispensvel do escritor, indispensvel  prpria cincia 
o estilo que ilumina as pginas de Renan e de Spencer, e
que Wallace admira como uma das qualidades de Darwin.
No obstante essa lacuna, que o Sr. Romero preencher
com o tempo, no obstante outros pontos acessveis 
crtica, os trabalhos citados so documentos louvveis de
estudo e aplicao.
Os Cantos do Fim do Sculo podem ser tambm
documento de aplicao, mas no do a conhecer um
poeta; e para tudo dizer numa s palavra, o Sr. Romero
no possui a forma potica. Creio que o leitor no ser to
inadvertido que suponha referir-me a uma certa
terminologia convencional; tambm no aludo
especialmente  metrificao. Falo da forma potica, em
seu genuno sentido. Um homem pode ter as mais elevadas
idias, as comoes mais fortes, e real-las todas por
uma imaginao viva; dar com isso uma excelente pgina
de prosa, se souber escrev-la; um trecho de grande ou
maviosa poesia, se for poeta. O que  indispensvel  que
possua a forma em que se exprimir. Que o Sr. Romero
tenha algumas idias de poeta no lho negar a crtica;
mas logo que a expresso no traduz as idias, tanto
importa no as ter absolutamente. Estou que muitas
decepes literrias originam-se nesse contraste da
concepo, e da forma; o esprito, que formulou a idia, a
seu modo, supe hav-la transmitido nitidamente ao papel,
e da um equvoco. No livro do Sr. Romero achamos essa
luta entre o pensamento que busca romper do crebro, e a
forma que no lhe acode ou s lhe acode reversa e
obscura: o que d a impresso de um estrangeiro que
apenas balbucia a lngua nacional.
Pertenceu o Sr. Romero ao movimento hugosta, iniciado
no Norte e propagado ao Sul, h alguns anos; movimento
a que este escritor atribui uma importncia infinitamente
superior  realidade. Entretanto, no se lhe distinguem os
versos pelos caractersticos da escola, se escola lhe
pudssemos chamar; pertenceu a ela antes pela pessoa do
que pelo estilo. Talvez o Sr. Romero, coligindo agora os
versos, entendeu cercear-lhes os tropos e as demasias, 
vestgios do tempo. Na verdade, uma de suas
composies, a Revoluo, includa em 1878, nos Cantos
do Fim do Sculo, no traz algumas imagens
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singularmente arrojadas, que alis continha, quando eu a
li, em 1871 no Dirio de Pernambuco de domingo 23 de
julho desse mesmo ano. Outras ficaram, outras se ho de
encontrar no decorrer do livro, mas no so to graves que
o definam e classifiquem entre os discpulos de Castro
Alves e do Sr. Tobias Barreto; coisa que eu melhor poderia
demonstrar, se tivesse  mo todos os documentos
necessrios ao estudo daquele movimento potico, em que
alis houve bons versos e agitadores entusiastas.
Qualquer que seja, entretanto, minha opinio acerca dos
versos do Sr. Romero, lisamente confesso que no esto
no caso de merecer as crticas acerbssimas, menos ainda
as pginas insultuosas que o autor nos conta, em uma
nota, haverem sido escritas contra alguns deles.
"Injuriavam ao poeta (diz o Sr. Romero) por causa de
algumas duras verdades do crtico." Pode ser que assim
fosse; mas, por isso mesmo, o autor nem deveria inserir
aquela nota. Realmente, criticados que se desforam de
crticas literrias com improprios do logo idia de uma
imensa mediocridade,  ou de uma fatuidade sem freio, 
ou de ambas as coisas; e para lances tais  que o talento,
quando verdadeiro e modesto, deve reservar o silncio do
desdm: Non ragionar de lor, ma guarda, e passa.
No  comum suportar a anlise literria; e rarssimo
suport-la com gentileza. Da vem a satisfao da crtica
quando encontra essa qualidade em talentos que apenas
estriam. A crtica sai ento da turbamulta das vaidades
irritadias, das vocaes do anfiteatro, e entra na regio
em que o puro amor da arte  anteposto s ovaes da
galeria. Dois nomes me esto agora no esprito,  o Sr.
Lcio de Mendona e o Sr. Francisco de Castro,  poetas,
que me deram o gosto de os apresentar ao pblico, por
meio de prefcio em obras suas. No lhes ocultei nem a
um, nem a outro, nem ao pblico os senes e lacunas, que
havia em tais obras; e tanto o autor das Nvoas Matutinas,
como o das Estrelas Errantes aceitaram francamente,
graciosamente, os reparos que lhes fiz. No era j isso dar
prova de talento?
Um daqueles poetas, o Sr. Francisco de Castro, estreou h
um ano, com um livro de paginas juvenis, muita vez
incertas,  verdade, como de estreante que eram. "No se
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envergonhe de imperfeies (dizia eu ao Sr. Francisco de
Castro) nem se vexe de as ver apontadas; agradea-o
antes... H nos seus versos uma espontaneidade de bom
agouro, uma natural singeleza, que a arte guiar melhor e
a ao do tempo aperfeioar". Depois notava-lhe que a
poesia pessoal, cultivada por ele, estava exausta, e, visto
que outras paginas havia, em que a inspirao era mais
desinteressada, aconselhava-o a poetar fora daquele
campo. Dizia-lhe isso em 4 de agosto de 1878. Pouco mais
de um ano se h passado; no  tempo ainda de
desesperar do conselho. Pode-se, entretanto, julgar do que
far o Sr. Francisco de Castro, se se aplicar deveras 
poesia, pelo que j nos deu nas Estrelas Errantes.
Neste volume de 200 pginas, em que alguma coisa h
frouxa e somenos, sente-se o bafejo potico, o verso
espontneo, a expresso feliz; h tambm por vezes
comoo sincera, como nestes lindos versos de "Ao P do
Bero":
Deus perfuma-te a face com um beijo,
E em sonhos te aparece,
Quando, ao calor de uma asa que no veio
O corao te aquece.
s vezes, quando dormes, eu me inclino
Sobre teu bero, e busco do destino
Ler a pgina em flor que nele existe;
De tua fronte santa e curiosa
Docemente aproximo, temerosa,
A minha fronte pensativa e triste.
Como um raio de luz do paraso,
Teu lbio esmalta virginal sorriso...
Ao ver-te assim, exttico me alegro
Bebo em teu seio o hlito das fores,
Osis no deserto dos amores,
Pgina branca do meu livro negro.
A paternidade inspirou tais estrofes. O amor inspira-lhe
outras; outras so puras obras de imaginao inquieta, e
desejosa de fugir  realidade. Talvez esse desejo se mostre
por demais imperioso; a realidade  boa, o realismo  que
no presta para nada. Que o Sr. Francisco de Castro pode
e deve fecundar a sua inspirao, alargando-lhe os
horizontes, coisa  para mim evidente. "Tiradentes",
"Spartaco", so pginas em que o poeta revela possuir a
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nota pujante e saber empreg-la. Nem todos os versos
dessas composies so irrepreensveis; mas h ali vida,
fluncia, animao; e quando ouvimos o poeta falar aos
heris, nestes belos versos:
Vs que dobrais do tempo o promontrio,
E, barra dentro, a eternidade entrais.
mal podemos lembrar que  o mesmo poeta que, algumas
pginas antes, inclinara a fronte pensativa sobre um bero
de criana. Quem possui a faculdade de cantar to opostas
coisas, tem diante de si um campo largo e frtil. Certas
demasias h de perd-las com o tempo; a melhor lio
crtica  a experincia prpria. Confesso, entretanto, um
receio. A cincia  m vizinha; e a cincia tem no Sr.
Francisco de Castro um cultor assduo e valente. Lembrese
todavia o poeta que os antigos arranjaram
perfeitamente estas coisas; fizeram de Apolo o deus da
poesia e da medicina. Goethe escreveu o Fausto e
descobriu um osso no homem  o que tudo persuade que
a cincia e a poesia no so inconciliveis. O autor das
Estrelas Errantes pode mostrar que so amigas.
O que eu dizia em 1878 a este poeta, dizia-o em 1872 ao
autor das Nvoas Matutinas. No dissimulei que havia na
sua primavera mais folhas plidas que verdes; foram as
minhas prprias expresses; e argia-o dessa melancolia
prematura e exclusiva. J l vo sete anos. H quatro, em
1875, o poeta publicou outra coleo, as Alvoradas;
explicando o ttulo, no prlogo, diz que seus versos no
tm a luz nem as harmonias do amanhecer. Sero,
acrescenta, como as madrugadas chuvosas:
desconsoladas, mudas e montonas. No se iluda o leitor;
no se refugie em casa com medo das intempries que o
Sr. Lcio de Mendona lhe anuncia; so requebros de
poeta. A manh  clara; choveu talvez durante a noite,
porque as flores esto ainda midas de lgrimas; mas a
manh  clara.
A comparao entre os dois livros  vantajosa para o
poeta; certas incertezas do primeiro, certos tons mais
vulgares que ali se notam, desapareceram no segundo.
Mas o esprito geral  ainda o mesmo. H, como nas
Nvoas Matutinas, uma corrente pessoal e uma corrente
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poltica. A parte poltica tem as mesmas aspiraes
partidrias da gerao recente; e alis vinham j de 1872 e
1871. Para conhecer bem o talento deste poeta, h mais
de uma pgina de lindos versos, como estes, "Leno
Branco":
Lembras-te, Aninha, prola roceira
Hoje engastada no ouro da cidade,
Lembras-te ainda,  bela companheira,
Dos velhos tempos da primeira idade?
Longe dessa botina azul celeste,
Folgava-te o pezinho no tamanco...
Eras roceira assim quando me deste,
Na hora de partir, teu leno branco;
ou como as deliciosas estrofes, "Alice", que so das
melhores composies que temos em tal gnero; mas eu
prefiro mostrar outra obra menos pessoal; prefiro citar "A
Famlia". Trata-se de um moo, celibatrio e prdigo, que
sai a matar-se, uma noite, em direo do mar; de repente,
pra, olhando atravs dos vidros de uma janela:
Era elegante a sala, e quente e confortada.
 mesa, junto  luz, estava a me sentada.
Cosia. Mais alm, um casal de crianas,
Risonhas e gentis como umas esperanas,
Olhavam juntamente um livro de gravuras,
Inclinando sobre ele as cabecinhas puras.
Num gabinete, alm que entreaberto se via,
Um homem  era o pai,  calmo e grave, escrevia.
Enfim uma velhinha. Estava agora s
Porque estava rezando. Era, decerto, a av
E em tudo aquilo havia uma paz, um conforto...
Oh! a famlia! o lar! o bonanoso porto
No tormentoso mar. Abrigo, amor, carinho.
O moo esteve a olhar. E voltou do caminho.
Nada mais simples do que a idia desta composio: mas a
simplicidade da idia, a sobriedade dos toques e a verdade
da descrio, so aqui os elementos do efeito potico, e
produzem nada menos que uma excelente pgina. O Sr.
Lcio de Mendona possui o segredo da arte. Se nas
Alvoradas no h outro quadro daquele gnero, pode havlos
num terceiro livro, porque o poeta tem dado
recentemente na imprensa algumas composies em que a
inspirao  menos exclusiva, mas imbuda da realidade
69
exterior. Li-as,  proporo que elas iam aparecendo; mas
no as coligi to completamente que possa analis-las com
alguma minuciosidade. Sei que tais versos formam
segunda fase do Sr. Lcio de Mendona; e  por ela que o
poeta se
prende mais intimamente  nova direo dos espritos. O
autor das Alvoradas tem a vantagem de entrar nesse
terreno novo com a forma j trabalhada e lcida.
A poesia do Sr. Ezequiel Freire no tem s o lirismo
pessoal,  traz uma nota de humorismo e de stira; e 
por essa ltima parte que o podemos ligar ao Sr. Artur
Azevedo. As Flores do Campo, volume de versos dado em
1874, tiveram a boa fortuna de trazer um prefcio devido 
pena delicada e fina de D. Narcisa Amlia, essa jovem e
bela poetisa, que h anos aguou a nossa curiosidade com
um livro de versos, e recolheu-se depois  turris eburnea
da vida domstica. Resende  a ptria de ambos; alm
dessa afinidade, temos a da poesia, que em suas partes
mais ntimas e do corao,  a mesma. Naturalmente, a
simpatia da escritora vai de preferncia s composies
que mais lhe quadram  prpria ndole, e, no nosso caso,
basta conhecer a que lhe arranca maior aplauso, para
adivinhar todas as delicadezas da mulher. Dona Narcisa
Amlia aprova sem reserva os "Escravos no Eito", pgina
da roa, quadro em que o poeta lana a piedade de seus
versos sobre o padecimento dos cativos. No se limita a
aplaudi-lo, subscreve a composio. Eu, pela minha parte,
subscrevo o louvor; creio tambm que essa composio
resume o quadro. A pintura  viva e crua; o verso cheio e
enrgico. A invectiva que forma a segunda parte seria,
porm, mais enrgica, se o poeta no-la desse menos
extensa; mas h ali um sentimento real de comiserao.
Notam-se no livro do Sr. Ezequiel Freire outros quadros da
roa. "Na Roa"  o prprio ttulo de uma das paginas mais
interessantes;  uma descrio da casa do poeta  beira do
terreiro, entre moitas de pita, com seu teto de sap; fora,
o tico-tico remexe no farelo, e o gurundi salta na
grumixama; nada falta, nem o mugir do gado nem os
jogos dos moleques:
O gado muge no curral extenso;
Um grupo de moleques doutra banda
70
Brinca o tempo-ser; vm vindo as aves
Do parapeito rente da varanda.
No carreador de alm, que atalha a mata,
Ouvem-se notas de cano magoada.
Ai! sorrisos do cu  das roceirinhas!
Ai! cantigas de amor  do camarada!
Nada falta; ou falta s uma coisa, que  tudo; falta certa
moa que um dia se foi para a corte. Essa ausncia
completa to bem o quadro que mais parece inventada
para o efeito potico. E creio que sim. No se combinam
to tristes saudades, com o pico final:
 gentes que morais a na corte,
Sabei que vivo aqui como um lagarto.
 ventos que passais, contai  moa
Que h duas camas no meu pobre quarto...
"Lcia", que se faz Lucola,  tambm um quadro da roa,
em que h toques menos felizes;  uma simples histria
narrada pelo poeta. Mais ainda que na outra, h nessa
composio a nota viva e gaiata, que nem sempre serve a
temperar a melancolia do assunto. J disse que o Sr.
Ezequiel Freire tem a corda humorstica; a terceira parte 
toda uma coleo de poesia em que o humorismo traz a
ponta aguada pela stira. Gosto menos desta ltima parte
que das duas primeiras; nem os assuntos so
interessantes, nem s vezes claros, o que de algum modo
 explicado por esta frase da poetisa resendense: "A stira,
sendo quase sempre alusiva, faz-se obscura para os que
no gozam a intimidade do poeta". Em tal caso, devia o
poeta elimin-la. Tambm o estilo est longe de competir
com o do resto do volume, que alis no  perfeito.
Certamente  correntio e bem trabalhado, o "Jos de
Arimatia", por exemplo, anncio de um gato fugido; mas
que diferena entre essa pgina e a do "Nevoeiro"! No 
que no haja lugar para o riso, mormente em livro to
pessoal s vezes; mas o melhor que h no riso  a
espontaneidade.
No sei se escreveu mais versos o Sr. Ezequiel Freire;  de
supor que sim, e  de lastimar que no. Ignoro tambm
que influncia ter tido nele o esprito que parece animar a
gerao a que pertence; mas no h temeridade em crer
que o autor das Flores do Campo siga o caminho dos Srs.
71
Afonso Celso Jnior, Lcio de Mendona, e Tefilo Dias,
que tambm deram as suas primeiras flores.
Se no Sr. Ezequiel Freire no h vestgio de tendncia
nova, menos a iremos achar no Sr. Artur Azevedo, que 
puramente satrico. Conheo deste autor o Dia de Finados,
A Rua do Ouvidor e Sonetos; trs opsculos. No darei
nenhuma novidade ao autor, dizendo-lhe que o estilo de
tais opsculos  incorreto, que a versificao no tem o
apuro necessrio, e alis cabido em suas foras. Sente-se
naquelas pginas o descuido voluntrio do poeta; respirase
a aragem do improviso, descobre-se o inacabado do
amador. Alm deste reparo, que far relevar muita coisa,
ocorre-me outro igualmente grave. No s o desenho 
incorreto, mas tambm a cor das tintas  demasiado crua,
e os objetos nem sempre poticos. Digo poticos, sem
esquecer que se trata de um satrico; stira ou epopia,
importa que o assunto preencha certas condies da arte.
O Dia de Finados, por exemplo, contm episdios de tal
natureza, que deve cobrir por fora alguma realidade. A
absoluta inveno daquilo seria, na verdade, inoportuna.
Pois ainda assim, cabe o reparo: nem todos esses
episdios ali deviam estar, e assim juntos destrem o
efeito do todo, porque uns aos outros fazem perder a
verossimilhana. Diz-se que efetivamente a visita de um
dos nossos cemitrios no dia em que se comemoram os
defuntos,  um quadro pouco edificante. Come-se no
cemitrio em tal dia? Mas a refeio que o poeta nos
descreve  uma verdadeira patuscada de arrabalde, em
que nada falta, nem a embriaguez; e tanto menos se
compreende isso, quanto a dor no parece excluda da
ocasio, o que o poeta nos indica bem, aludindo a uma das
convivas:
Um camaro a atrai;
Vai a com-lo, e nele a lgrima lhe cai.
A viva que repreende em altos brados o escravo, o credor
que vai cobrar uma dvida, o rendez-vous dos namorados,
as chacotas, os risos, tudo isso no parece que excede a
realidade? Mas dado que seja a realidade pura, a fico
potica no podia admiti-la sem restrio. No fim, o poeta
sobe at a vala, que fica acima da plancie, e d-nos alguns
72
versos tocantes; lastima a caridade peridica, a dor que
no di e o pranto que no queima.
Na Rua do Ouvidor e nos Sonetos no h impresso do Dia
de Finados, naturalmente porque o contraste da stira 
menor. O primeiro daqueles opsculos  uma revista da
nossa rua magna, uma revista alegre em que as qualidades
boas e ms do Sr. Azevedo claramente aparecem. O maior
defeito de tal stira  a extenso. Revistas dessas no
comportam dimenses muito maiores que as do Passeio,
de Tolentino. Os sonetos so a melhor parte da obra
potica do Sr. A. Azevedo. Nem todos so perfeitos; e
alguns h em que o assunto excede o limite potico, como
a "Metamorfose"; mas h outros em que a idia  graciosa,
e menos solto o estilo; tal, por exemplo, o que lhe mereceu
uma vizinha ralhadora,  soneto cujo fecho dar idia da
versificao do poeta quando ele a quer apurar:
Tu, que s o co tinhoso em forma de senhora,
Oh! ralha, ralha e ralha, e ralha mais e ralha...
Mas deixa-me primeiro ir para sempre embora.
A obra do Sr. Mcio Teixeira  j considervel: trs
volumes de versos, e, segundo vejo anunciado, um quarto
volume, os Novos Ideais. Neste ltimo livro, j pelo ttulo,
j por algumas amostras que vi na imprensa diria,  queesto
definidas mais intimamente as relaes do poeta com
o grosso do novo exrcito; mas nada posso adiantar sobre
ele. Nos outros, principalmente nas Sombras e Clares,
podemos ver as qualidades do poeta, as boas e as ms.
Creio que at agora o Sr. Mcio; Teixeira cedeu
principalmente ao influxo da chamada escola hugosta. "O
Trono e a Igreja", "Gutenberg", a "Posteridade", e outras
composies do idia cabal dessa poesia, que buscava os
efeitos em certos meios puramente mecnicos. Vemos a o
condor, aquele condor que  fora de voar em tantas
estrofes, h doze anos, acabou por cair no cho, onde foi
apanhado e empalhado; vemos as epopias, os Prometeus,
os gigantes, as Babis, todo esse vocabulrio de palavras
grandes destinadas a preencher o vcuo das idias justas.
O Sr. Mcio Teixeira cedeu  torrente, corno tantos outros;
no h que censur-lo mas resiste afinal e o seu novo livro
ser outro.
73
Talvez seja o Sr. Mcio Teixeira o poeta de mais pronta
inspirao entre os novos; sente-se que os versos lhe
brotam fceis e rpidos A qualidade  boa, mas o uso deve
ser discreto; e eu creio que o Sr. Mcio Teixeira no resiste
a si mesmo. H movimento em suas estrofes, mas h
tambm demasias; o poeta no  correto; falta-lhe
limpidez e propriedade. Quando a comoo verdadeira
domina o poeta, tais defeitos desaparecem, ou diminuem;
mas  rara a comoo nos versos do Sr. Mcio Teixeira.
No  impossvel que o autor das Sombras e Clares
prefira os assuntos que exigem certa altiloquia, h outros
que se contentam do vocabulrio mdio e do tom brando;
e, contudo, creio que a musa dele se exercer nestes com
muito mais proveito. Os outros iludem muito. Se me no
escasseasse tanto o espao, mostraria, como exemplos, a
diferena dos resultados obtidos pelo Sr. Mcio Teixeira em
uma e outra ordem de composies; mostraria a
superioridade da "Noite de Vero", "Desalento" e "Eu"
sobre a "Voz Proftica" e os "Fantasmas do Porvir". Pode
ser que haja um qu de artificial no "Desalento"; mas o
verso sai mais natural, a expresso  mais idnea:  ele
outro. E por que ser artificial aquela pgina? O Sr. Mcio
Teixeira tem s vezes a expresso da sinceridade; devem
ser sinceros estes versos, alis um pouco vulgares, com
que fecha a dedicatria das Sombras e Clares:
Se ainda no descri de tudo neste mundo
Eu  que o clix do fel sorvi at o fundo,
Chorando no silncio, e rindo  multido;
 que encontrei em vs as bnos e os carinhos
Que a infncia tem no lar, e as aves tm nos ninhos...
Amigo de meus pais! eu beijo a vossa mo.
No custa muito fazer versos assim, naturais, verdadeiros,
em que a expresso corresponde  idia, e a idia 
lmpida. Estou certo de que as qualidades boas do poeta
dominaro muito no novo livro creio tambm que ele
empregar melhor a facilidade, que  um do seus dotes, e
corresponder cabalmente s esperanas que suas
estrias legitimamente despertam. Se algum conselho lhe
pode insinua a crtica  que d costas ao passado.
III
74
Qualquer que seja o grau de impresso do leitor, fio que
no ter exclusivamente benigna nem exclusivamente
severa, mas ambas as coisas a um tempo, que e o que
convm a nova gerao. Viu que h talentos, e talentos
bons. Falta unidade ao movimento, mas sobra confiana e
brilho; e se as idias trazem s vezes um cunho de
vulgaridade uniforme, outras um aspecto de incoercvel
fantasia, revela-se todavia esforo para fazer alguma coisa
que no seja continuar literalmente o passado. Esta
inteno  j um penhor de vitria. Aborrecer o passado ou
idolatr-lo vem a dar no mesmo vicio; vcio de uns que no
descobrem a filiao dos tempos, e datam de si mesmos a
aurora humana, e de outros que imaginam que o esprito
do homem deixou as asas no caminho e entra a p num
charco. Da primeira opinio tm desculpa os moos,
porque esto na ida em que a irreflexo  condio de
bravura; em que um pouco de injustia para com o
passado  essencial  conquista do futuro. Nem os novos
poetas aborrecem o que foi; limitam-se a procurar alguma
coisa diferente.
No  possvel determinar a extenso nem a persistncia
do atual movimento potico. Circunstncias externas
podem aceler-lo e defini-lo; ele pode tambm acabar ou
transformar-se. Creio, ainda assim, que alguns poetas
sairo deste movimento e continuaro pelo tempo adiante
a obra dos primeiros dias. Grande parte deles ho de
absorver-se em outras aplicaes mais concretas. Entre
esses haver at alguns que no sejam poetas, seno
porque a idade o pede; extinta a musa extinguir-se-lhes-
a poesia. Isto que uns aceitam de boa mente, outros de
m cara, costuma, s vezes, ser causa secreta de
ressentimentos; os que calaram no chegam a
compreender que o idioma no acabasse com eles. Se tal
fato se der, entre os moos atuais, aprendero os que
prosseguirem na obra, qual a soma e natureza de esforos
que ela custa; vero juntar-se as dificuldades morais s
literrias.
A nova gerao freqenta os escritores da cincia; no h
a poeta digno desse nome que no converse um pouco, ao
menos, com os naturalistas e filsofos modernos. Devem,
todavia, acautelar-se de um mal: o pedantismo.
Geralmente, a mocidade, sobretudo a mocidade de um
75
tempo de renovao cientfica e literria, no tem outra
preocupao mais do que mostrar s outras gentes que h
uma poro de coisas que estas ignoram; e da vem que os
nomes ainda frescos na memria, a terminologia apanhada
pela rama, so logo transfe-ridos ao papel, e quanto mais
crespos forem os nomes e as palavras, tanto melhor. Digo
aos moos que a verdadeira cincia no  a que se incrusta
para ornato, mas a que se assimila para nutrio; e que o
modo eficaz de mostrar que se possui um processo
cientfico, no  proclam-lo a todos os instantes, mas
aplic-lo oportunamente. Nisto o melhor exemplo so os
luminares da cincia: releiam os moos o seu Spencer e
seu Darwin. Fujam tambm a outro perigo: o esprito de
seita, mais prprio das geraes feitas e das instituies
petrificadas. O esprito de seita tem fatal marcha do odioso
ao ridculo; e no ser para uma gerao que lana os
olhos ao largo e ao longe, que se comps este verso
verdadeiramente galante:
Nul naura de l'esprit, hors nous et nos amis.
Finalmente, a gerao atual tem nas mos o futuro,
contanto que lhe no afrouxe o entusiasmo. Pode adquirir
o que lhe falta, e perder o que a deslustra; pode afirmar-se
e seguir avante. Se no tem por ora uma expresso clara e
definitiva, h de alcan-la com o tempo; ho de alcan-la
os idneos. Um escritor de ultramar, Sainte-Beuve, disse
um dia, que o talento pode embrenhar-se num mau
sistema, mas se for verdadeiro e original, depressa se
emancipar e achar a verdadeira potica. Estas palavras
de um crtico que tambm foi poeta, repete-as agora
algum que, na crtica e na poesia, despendeu alguns anos
de trabalho, no fecundo nem grande mas assduo e
sincero; algum que para os recm-chegados h de ter
sempre a advertncia amiga e o aplauso oportuno.
[6] A CRTICA TEATRAL. JOS DE ALENCAR: ME
ESCREVER crtica e crtica de teatro no e s uma tarefa
difcil,  tambm uma empresa arriscada.
76
A razo  simples. No dia em que a pena, fiel ao preceito
da censura, toca um ponto negro e olvida por momentos a
estrofe laudatria, as inimizades levantam-se de envolta
com as calnias.
Ento, a crtica aplaudida ontem,  hoje ludibriada, o crtico
vendeu-se, ou por outra, no passa de um ignorante a
quem por compaixo se deu algumas migalhas de aplauso.
Esta perspectiva poderia fazer-me recuar ao tomar a pena
do folhetim dramtico, se eu no colocasse acima dessas
misrias humanas a minha conscincia e o meu dever. Sei
que vou entrar numa tarefa onerosa; sei-o, porque
conheo o nosso teatro, porque o tenho estudado
materialmente; mas se existe uma recompensa para a
verdade, dou-me por pago das pedras que encontrar em
meu caminho.
Protesto desde j uma severa imparcialidade,
imparcialidade de que no pretendo afastar-me uma
vrgula simples revista sem pretenso a orculo, como ser
este folhetim, dar-lhe-ei um carter digno das colunas em
que o estampo. Nem azorrague, nem luva de pelica; mas
a censura razovel, clara e franca, feita na altura da arte
da crtica.
Estes preceitos, que estabeleo como norma do meu
proceder, so um resultado das minhas idias sobre a
imprensa, e de h muito que condeno os ouropis da letra
redonda, assim como as intrigas mesquinhas, em virtude
de que muita gente subscreve juzos menos exatos e
menos de acordo com a conscincia prpria.
Se faltar a esta condio que me imponho, no ser um
atentado voluntrio contra a verdade, mas erro de
apreciao.
As minhas opinies sobre o teatro so eclticas em
absoluto. No subscrevo, em sua totalidade, as mximas
da escola realista, nem aceito, em toda a sua plenitude, a
escola das abstraes romnticas; admito e aplaudo o
drama como forma absoluta do teatro, mas nem por isso
condeno as cenas admirveis de Corneille e de Racine.
77
Tiro de cada coisa uma parte, e fao o meu ideal de arte,
que abrao e defendo.
Entendo que o belo pode existir mais revelado em uma
forma menos imperfeita, mas no  exclusivo de uma s
forma dramtica. Encontro-o no verso valente da tragdia,
como na frase ligeira e fcil com que a comdia nos fala ao
o esprito.
Com estas mximas em mo  entro no teatro.  este o
meu procedimento; no dia em que me puder conservar
nessa altura, os leitores tero um folhetim de menos, e eu
mais um argumento de que cometer empresas destas, no
 uma tarefa para quem no tem o esprito de um
temperamento superior.
Sirvam estas palavras de programa.
Se eu quisesse avaliar a nossa existncia moral pelo
movimento atual do teatro, perderamos no paralelo.
Ou influncia ou estao, ou causas estranhas, dessas que
transformam as situaes para dar nova direo s coisas,
o teatro tem caminhado por uma estrada difcil e
escabrosa.
Quem escreve estas palavras tem um fundo de convico,
resultado do estudo com que tem acompanhado o
movimento do teatro; e tanto mais insuspeito, quanto que
 um dos crentes mais srios e verdadeiros desse grande
canal de propaganda.
Firme nos princpios que sempre adotou, o folhetinista que
desponta, d ao mundo, como um colega de alm-mar, o
espetculo espantoso de um crtico de teatro que cr no
teatro.
E cr: se h alguma coisa a esperar para a civilizao 
desses meios que esto em contacto com os grupos
populares. Deus me absolva se h nesta convico uma
utopia de imaginao clida.
Estudando, pois, o teatro, vejo que a atualidade dramtica
no  uma realidade esplndida, como a desejava eu,
78
como a desejam todos os que sentem em si uma alma e
uma convico.
J disse, essa morbidez  o resultado de causas estranhas,
inseparveis talvez  que podem aproximar o teatro de
uma poca mais feliz.
Estamos com dois teatros em ativo; uma nova companhia
se organiza para abrir em pouco o teatro Variedades; e
essa completar a trindade dramtica.
No meio das dificuldades com que caminha o teatro,
anuncia-se no Ginsio um novo drama original brasileiro. A
repetio dos anncios, o nome oculto do autor, as
revelaes dbias de certos orculos, que os h por toda
parte, prepararam a expectativa pblica para a nova
produo nacional.
Veio ela enfim.
Se houve verdade nas conversaes de certos crculos, e
na nsia com que era esperado o novo drama, foi que a
pea estava acima do que se esperava.
Com efeito desde que se levantou o pano o pblico
comeou a ver que o esprito dramtico, entre ns, podia
ser uma verdade. E quando a frase final caiu esplndida no
meio da platia, ela sentiu que a arte nacional entrou em
um perodo mais avantajado de gosto e de
aperfeioamento.
Esta pea intitula-se Me.
Revela-se  primeira vista que o autor do novo drama
conhece o caminho mais curto do triunfo; que, dando todo
o desenvolvimento  fibra da sensibilidade, praticou as
regras e as prescries da arte sem dispensar as sutilezas
de cor local.
A ao  altamente dramtica; as cenas sucedem-se sem
esforo, com a natureza da verdade; os lances so
preparados corri essa lgica dramtica a que no podem
atingir as vistas curtas.
79
Altamente dramtica  a ao, disse eu; mas no pra a;
tambm altamente simples.
Jorge  um estudante de medicina, que mora em um
segundo andar com uma escrava apenas  a quem trata
carinhosamente e de quem recebe provas de um afeto
inequvoco.
No primeiro andar, moram Gomes, empregado pblico, e
sua filha Elisa. A intimidade da casa trouxe a intimidade
dos dois vizinhos, Jorge e Elisa, cujas almas, ao comear o
drama, ligam-se j por um fenmeno de simpatia.
Um dia, a doce paz, que fazia a ventura daquelas quatro
existncias, foi toldada por um corvo negro, por um
Peixoto, usurrio, que vem ameaar a probidade de Gomes
com a maquinao de um trama diablico e muito comum,
infelizmente, na humanidade.
Ameaado em sua honra, Gomes prepara um suicdio que
no realiza; entretanto, envergonhado por pedir dinheiro,
porque com dinheiro removia a tempestade iminente, deixa
 sua filha o importante papel de salv-lo e salvar-se.
Elisa, confiada no afeto que a une a Jorge vai expor-lhe a
situao; esse compreende a dificuldade, e, enquanto
espera a quantia necessria do Dr. Lima, um carter nobre
da pea, trata de vender, e ao mesmo Peixoto, a moblia
de sua casa.
Joana, a escrava, compreende a situao, e, vendo que o
usurrio no dava a quantia precisa pela moblia de Jorge,
prope-se a uma hipoteca; Jorge repele ao princpio o
desejo de sua escrava, mas a operao tem lugar,
mudando unicamente a forma de hipoteca para a de
venda, venda nulificada desde que o dinheiro emprestado
voltasse a Peixoto.
Volta a manh serena depois de tempestade procelosa; a
probidade e a vida de Gomes esto salvas.
Joana, podendo escapar um minuto a seu senhor
temporrio, vem na manh seguinte visitar Jorge.
80
Entretanto o Dr. Lima tem tirado as suas malas da
alfndega e traz o dinheiro a Jorge. Tudo vai, por
conseguinte, voltar ao seu estado normal.
Mas Peixoto, no encontrando Joana em casa, vem
procur-la  casa de Jorge, exigindo a escrava que havia
comprado na vspera. O Dr. Lima no acreditou que se
tratasse de Joana, mas Peixoto, forado a declarar o nome,
pronuncia-o. Aqui a peripcia  natural, rpida e bem
conduzida; o Dr. Lima ouve o nome, dirige-se para a
direita por onde acaba de entrar Jorge.
 Desgraado, vendeste tua me!
Eu conheo poucas frases de igual efeito. Sente-se uma
contrao nervosa ao ouvir aquela revelao inesperada. O
lance  calculado com maestria e revela pleno
conhecimento da arte no autor.
Ao conhecer sua me, Jorge no a repudia; aceita-a em
face da sociedade, com esse orgulho sublime que s a
natureza estabelece e que faz do sangue um ttulo.
Mas Joana, que forcejava sempre por deixar corrido o vu
do nascimento de Jorge, na hora que este o sabe, aparece
envenenada. A cena  dolorosa e tocante, a despedida para
sempre de um filho, no momento em que acaba de
conhecer sua me, e por si uma situao tormentosa e
dramtica.
No  bem acabado este tipo de me que sacrifica as
carcias que poderia receber de seu filho, a um escrpulo
de que a sua individualidade o fizesse corar.
Esse drama, essencialmente nosso, podia, se outro fosse o
entusiasmo de nossa terra, ter a mesma nomeada que o
romance de Harriette Stowe  fundado no mesmo teatro
da escravido.
Os tipos acham-se ali bem definidos, e a ligao das frases
no pode ser mais completa.
O veneno que Joana bebe, para aperfeioar o quadro e
completar o seu martrio tocante,  o mesmo que Elisa
81
tomara das mos de seu pai, e que a escrava encontrou.
sobre uma mesa em casa de Jorge, para onde a menina o
levara.
H frases lindas e impregnadas de um sentimento doce e
profundo; o dilogo  natural e brilhante mas desse brilho
que no exclui a simplicidade, e que no respira o torneado
bombstico.
O autor soube haver-se com a ao, sem entrar em
anlise. Descoberta a origem de Jorge, a sociedade d o
ltimo arranco em face da natureza, pela boca de Gomes,
que tenta recusar sua filha prometida a Jorge.
Repito-o: o drama  de um acabado perfeito, e foi uma
agradvel surpresa para os descrentes da arte nacional.
Ainda oculto o autor, foi saudado por todos com a sua
obra; feliz que , de no encontrar patos no seu Capitlio.
A Sr. Velluti e o Sr. Augusto disseram com felicidade os
seus papis; a primeira, dando relvo ao papel de escrava
com essa inteligncia e sutileza que completam os artistas;
o segundo, sustentando a dignidade do Dr. Lima na altura
em que a colocou o autor.
A Sr.  Ludovina no discrepou no carter melanclico de
Elisa; todavia, parecia-me que devia ter mais animao
nas suas transies, que  o que define o claro-escuro.
O Sr. Heller, pondo em cena o carter do empregado
pblico, teve momentos felizes, apesar de lhe notar uma
gravidade de porte, pouco natural, s vezes.
H um meirinho na pea desempenhado pelo Sr. Graa,
que corno bom ator cmico, agradou e foi aplaudido. O
papel  insignificante, mas aqueles que tm visto o
distinto artista, adivinham o desenvolvimento que a sua
veia cmica lhe podia dar.
Jorge foi desempenhado pelo Sr. Paiva que, trazendo o
papel a altura de seu talento, fez-nos entrever uma figura
singela e sentimental.
82
O Sr. Milito completa o quadro com o papel de Peixoto,
onde nos deu um usurrio brutal e especulador.
A noite foi de regozijo para aqueles que, amando a
civilizao ptria , estimam que se faa to bom uso da
lngua que herdamos. Oxal que o exemplo se espalhe.
Na prxima revista tocarei no teatro de S. Pedro e no das
Variedades, se j houver encetado a sua carreira.
Entretanto, fecho estas pginas, e deixo que o leitor, rigor
da estao, v descansar um pouco, no  sombra como
Ttiro, mas entre os nevoeiros de Petrpolis, ou nas
montanhas da velha Tijuca.
[7] PROPSITO
A TEMPERATURA literria est abaixo de zero. Este clima
tropical, que tanto aquece as imaginaes, e faz brotar
poetas, quase como faz brotar as flores, por um fenmeno,
alis explicvel, torna preguiosos os espritos, e nulo o
movimento intelectual. Os livros que aparecem so raros,
distanciados, nem sempre dignos de exame da crtica. H
decerto excees to esplndidas quanto raras, e por isso
mesmo mal compreendidas do presente, graas  ausncia
de uma opinio. At onde ir uma situao semelhante,
ningum pode diz-lo, mas os meios de iniciar a reforma,
esses parecem-nos claros e smplices, e para achar o
remdio basta indicar a natureza do mal.
A nosso ver, h duas razes principais desta situao: uma
de ordem material, outra de ordem intelectual. A primeira,
que se refere  impresso dos livros, impresso cara, e de
nenhum lucro pecunirio, prende-se inteiramente 
segunda que  a falta de gosto formado no esprito pblico.
Com efeito, quando aparece entre ns essa planta extica
chamada editor, se os escritores conseguem encarreg-lo,
por meio de um contrato, da impresso das suas obras, 
claro que o editor no pode oferecer vantagem aos poetas,
pela simples razo de que a venda do livro  problemtica
e difcil. A opinio que devia sustentar o livro, dar-lhe voga,
coro-lo enfim no Capitlio moderno, essa, como os heris
de Tcito, brilha pela ausncia. H um crculo limitado de
83
leitores; a concorrncia  quase nula, e os livros aparecem
e morrem nas livrarias. No dizemos que isso acontea
com todos os livros, nem com todos os autores, mas a
regra geral  essa.
Se a ausncia de uma opinio literria torna difcil a
publicao dos livros, no  esse o menor dos seus
inconvenientes; h outro, de maior alcance, porque  de
futuro:  o cansao que se apodera dos escritores, na luta
entre a vocao e a indiferena. Daqui se pode concluir que
o homem que trabalha, apesar de tais obstculos, merece
duas vezes as bnos das musas Um exemplo: apareceu
h meses um livro primoroso, uma obra selada por um
verdadeiro talento, alis conhecido e celebrado. Iracema foi
lida, foi apreciada mas no encontrou o agasalho que uma
obra daquelas merecia. Se alguma vez se falou na
imprensa a respeito dela, mais detidamente, foi para
deprimi-la; e isso na prpria provncia que o poeta escolhe
para teatro do seu romance. Houve na Corte, quem se
ocupasse igualmente com o livro, mas a apreciao do
escritor, reduzida a uma opinio isolada, no foi suficiente
para encaminhar a opinio, e promover as palmas a que o
autor tinha incontestvel direito. Ora, se depois desta
prova, o Sr. Conselheiro Jos de Alencar atirasse a sua
pena a um canto, e se limitasse a servir ao pas no cargo
pblico que ocupa,  triste diz-lo, mas ns cremos que a
sua absteno estava justificada. Felizmente, o autor d'O
Guarani  uma dessas organizaes raras que acham no
trabalho sua prpria recompensa, e lutam menos pelo
presente, do que pelo futuro, Iracema, como obra do
futuro, h de viver, e temos f de que ser lida e
apreciada, mesmo quando muitas das obras que esto hoje
em voga, servirem apenas para a crnica bibliogrfica de
algum antiqurio paciente.
A fundao da Arcdia Fluminense foi excelente num
sentido: no cremos que ela se propusesse a dirigir o
gosto, mas o seu fim decerto que foi estabelecer a
convivncia literria, como trabalho preliminar para obra
de maior extenso. Nem se cuide que esse intento  de
mnimo valor: a convivncia dos homens de letras, levados
por nobres estmulos, pode promover ativamente o
movimento intelectual; a Arcdia j nos deu algumas
produes de merecimento incontestvel, e se no
84
naufragar, como todas as cousas boas do nosso pas, podese
esperar que ela contribua para levantar os espritos do
marasmo em que esto.
Qual o remdio para este mal que nos assoberba, este mal
de que s podem triunfar as vocaes enrgicas e ao qual
tantos talentos sucumbem? O remdio j tivemos ocasio
de indic-lo em um artigo que apareceu nesta mesma
folha: o remdio  a crtica. Desde que, entre o poeta e o
leitor, aparecer a reflexo madura da crtica, encarregada
de aprofundar as concepes do poeta para as comunicar
ao esprito do leitor; desde que uma crtica conscienciosa e
artista, guiar a um tempo, a musa no seu trabalho, e o
leitor na sua escolha, a opinio comear a formar-se, e o
amor das letras vir naturalmente com a opinio. Nesse dia
os cometimentos ilegtimos no sero to fceis; as obras
medocres no podero resistir por muito tempo; o poeta,
em vez de acompanhar o gosto mal formado, olhar mais
seriamente para sua arte; a arte no ser uma distrao,
mas uma profisso, alta, sria, nobre, guiada por vivos
estmulos; finalmente, o que  hoje exceo, ser amanh
uma regra geral.
Os que no conhecerem de perto o autor destas linhas, vo
naturalmente atribuir-lhe, depois desta exposio, uma
inteno imodesta que ele no tem. No, o lugar vago da
crtica no se preenche facilmente, no basta ter mostrado
algum -amor pelas letras para exercer a tarefa difcil de
guiar a opinio e as musas nem essa tarefa pode ser
desempenhada por um s homem; e as eminentes e raras
qualidades do crtico, so de si to difceis de encontrar,
que eu no sei se temos no Imprio meia dzia de
pensadores prprios para esse mister.
Assim que, estas semanas literrias no passam de
revistas bibliogrficas; seguramente que nos no
limitaremos a noticiar livros, sem exame, sem estudo; mas
da a exercer influncia no gosto, e a pr em ao os
elementos da arte, vai uma distncia infinita. Se os livros,
porm, so poucos, se raro aparecem as vocaes
legtimas, como, preencher esta tarefa? A esta pergunta
dos nossos leitores temos uma resposta fcil. Se as
publicaes no so freqentes, h obras na estante
nacional, que podem nos dias de carncia ocupar a ateno
85
do cronista; e  assim, por exemplo, que uma das
primeiras, obras de que nos ocuparemos ser a Iracema do
Sr. Jos de Alencar. Antes, porm, de trazer para estas
colunas a irm mais moa de Moema e de Lindia, to
formosa, como elas, e como elas to nacional, diremos
alguma cousa do ltimo romance do Sr. Dr. Macedo, O
Culto do Dever, que acaba de ser publicado em volume. A
prxima revista ser consagrada ao livro do autor d'A
Moreninha, que no meio das suas preocupaes polticas,
no se esquece das musas. Mas que fruto nos traz ele da
sua ltima excurso ao Parnaso?  o que veremos na
prxima semana.
[8] J.M. DE MACEDO: O CULTO DO DEVER
O AUTOR d'A Nebulosa e dA Moreninha tem jus ao nosso
respeito, j por seus talentos j por sua reputao. Nem a
crtica deve destinar-se a derrocar tudo quanto a mo do
tempo construiu, e assenta em bases slidas. Todavia,
respeito no quer dizer adorao estrepitosa e intolerante;
o respeito neste caso  uma nobre franqueza, que honra
tanto a conscincia do crtico, como o talento do poeta; a
maior injuria que se pode fazer a um autor  ocultar-lha a
verdade, porque faz supor que ele no teria coragem de
ouvi-la. Nem todas as horas so prprias ao trabalho das
musas; h obras menos cuidadas e menos belas, entre
outras mais belas e mais cuidadas: apontar ao poeta quais
elas so, e por que o so,  servir diretamente a sua glria.
Por agora s nos ocuparemos com o ltimo livro do Sr. Dr.
Macedo; aplicando aquelas mximas salutares ligeira
anlise que vamos fazer, falaremos sem rodeios nem
disfarce, procuraremos ver se o autor atendeu a todas as
regras da forma escolhida, se fez obra d'arte ou obra de
passatempo, e resumindo a nossa opinio em termos
claros e precisos, teremos dado ao autor dO Culto do
Dever o culto de uma nobre considerao.
No se cuide que  fcil apreciar O Culto do Dever. A
primeira dvida que se apresenta ao esprito do leitor 
sobre quem seja o autor deste livro. O Sr. Dr. Macedo
declara num prembulo que recebeu o manuscrito das
mos de um velho desconhecido, h cinco ou seis meses.
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Se a palavra de um autor  sagrada, como harmoniz-la,
neste caso, com o estilo da obra? O estilo  do autor d'O
Moo Loiro; no sereis vs, mas a fisionomia  vossa; a o
escritor est em luta com o homem. Nisto no fazemos
injria alguma ao Sr. Dr. Macedo; a histria literria de
todos os pases est cheia de exemplos semelhantes. A
verdade, porm,  que o livro traz no rosto o nome do Sr.
Dr. Macedo, como autor do romance, e esta interpretao
parece-nos a mais aceitvel. Em todo o caso, apraz-nos ter
de falar a um nome conhecido, sobre o qual pesa a larga
responsabilidade do talento.
O autor declara que a histria  verdadeira, que  uma
histria de ontem, um fato real, com personagens vivos; a
ao passa nesta corte, e comea no dia de Reis do ano
passado, assim, pois,  muito possvel que os prprios
personagens d'O Culto do Dever estejam lendo estas
linhas. Pode a crtica apreciar livremente as paixes e os
sentimentos em luta neste livro, analisar os personagens,
aplaudi-los ou conden-los, sem ferir o amor-prprio de
criaturas existentes? Realidade ou no, o livro est hoje no
domnio do pblico, e naturalmente far parte das obras
completas do Sr. Dr. Macedo; o fato sobre que ele se
baseia j passou ao terreno da fico;  coisa prpria do
autor. Nem podia deixar de ser assim; a simples narrao
de um fato no constitui um romance, far quando muito
uma gazetilha;  a mo do poeta que levanta os
acontecimentos da vida e os transfigura com a varinha
mgica da arte. A crtica no aprecia o carter de tais ou
tais indivduos, mas sim o carter das personagens
pintadas pelo poeta, e discute menos os sentimentos das
pessoas que a habilidade do escritor.
Aos que no tiverem lido O Culto do Dever parecer
excessivo este nosso escrpulo; todavia, o escrpulo 
legtimo  vista de urna circunstncia: h no romance uma
cena, a bordo do vapor Santa Maria, na qual o autor faz
intervir a pessoa de Sua Alteza o Sr. Conde dEu,
companheiro de viagem de uma das personagens, cuja
mo o prncipe aperta cordialmente. No  crvel que a
liberdade da fico v to longe; e ns cremos
sinceramente na realidade do fato que serve de assunto a
O Culto do Dever.
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O dever  a primeira e a ltima palavra do romance;  o
seu ponto de partida,  o seu alvo; cumprir o dever, 
custa de tudo, eis a lio do livro. Estamos de acordo com
o autor nos seus intuitos morais. Como os realiza ele?
sacrificando a felicidade de uma moa no altar da ptria;
uma noiva que manda o noivo para o campo da honra; o
trao  lacedemnio, a ao  antiga.
Faites votre devoir et laissez faire aux dieux
Angelina tem uma expresso idntica para convencer o
noivo.   fora da sua palavra, imperiosa mas serena, que
Tefilo vai assentar praa de voluntrio, e parte para a
guerra. Angelina faz tudo isso por uma razo que o autor
repete a cada pgina do livro;  que ela foi educada por
um pai austero e rgido; Domiciano influiu no corao de
sua filha o sentimento do dever, como pedra de toque para
todas as suas aes; o prprio Domiciano morre vtima da
austeridade da sua conscincia. H nesta simples
exposio elementos dramticos; O autor tem diante de si
uma tela vasta e prpria para traar um grande quadro e
preparar um drama vivo. Por que o no fez? O autor dir
que no podia alterar a realidade dos fatos; mas esta
resposta  de poeta,  de artista? Se a misso do
romancista fosse copiar os fatos, tais quais eles se do na
vida, a arte era uma coisa intil; a memria substituiria a
imaginao; O Culto do Dever deitava abaixo Corina,
Adolfo, Manon Lescaut. O poeta daria a demisso e o
cronista ria a direo do Parnaso. Demais, o autor podia,
sem alterar os fatos, fazer obra de artista, criar em vez de
repetir;  isso que no encontramos n'O Culto do Dever.
Dizia acertadamente Pascal que sentia grande prazer
quando no autor de um livro, em vez de uni orador, achava
um homem. Debalde se procura o homem n'O Culto do
Dever; a pessoa que narra os acontecimentos daquele
romance, e que se diz testemunha dos fatos, ser
escrupulosa na exposio de tdas as circunstncias, mas
est longe de ter uma alma, e o leitor chega  ltima
pgina com o esprito frio e o corao indiferente.
E contudo, no faltam ao poeta elementos para interessar;
o nobre sacrifcio de uma moa que antepe o interesse de
todo ao seu prprio interesse, o corao da ptria ao seu
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prprio corao, era um assunto fecundo; o poeta podia
tirar da pginas deliciosas, situaes interessantes.
Qual era o meio de mostrar a grandeza do dever que
Angelina pratica? Seguramente que no  repetindo. como
se faz no romance, a palavra dever, e lembrando a cada
passo as lies de Domiciano. A grandeza do dever, para
que a situao de Angelina nos interessasse, devia nascer
da grandeza do sacrifcio, e a grandeza do sacrifcio da
grandeza do amor. Ora, o leitor no sente de modo
nenhum o grande amor de Angelina por Tefilo; depois de
assistir  declarao na noite de Reis,  confisso de
Angelina a seu pai, e  partida de Tefilo, para Portugal, o
leitor  solicitado a ver o episdio da morte de Domiciano,
e outros, e o amor de Angelina, palidamente descrito nos
primeiros captulos, no aparece seno na boca do
narrador; a resoluo da moa para que Tefilo v para o
Sul, -lhe inspirada sem luta alguma; a serenidade das
suas palavras, longe de impor o esprito do leitor, lana-o
em grande perplexidade; Angelina afirma,  verdade, que
vai sentir muito com a separao de Tefilo; mas se o diz,
no faz senti-lo. Quando Rodrigo mata, em desforo de
uma injria, o pai de Ximena, e esta vai pedir vingana ao
rei, que luta no se trava no corao da amante do Cid! O
dilema a  cruel: pedir o sangue do amante em paga do
sangue do pai. Ximena estorce-se, lamenta-se, lava-se em
lgrimas; metade da sua vida matou a outra metade, como
ela mesma diz; e o leitor sente tda a grandeza da dor,
toda a nobreza do sacrifcio: Ximena  uma herona sem
deixar de ser mulher.
Se trazemos este exemplo no  pelo gosto de opor  obra
do poeta brasileiro a obra de um gnio trgico; nossa
inteno  indicar, por comparao de um modelo, quais os
meios de fazer sentir ao leitor a extenso de um sacrifcio.
Francamente, a Angelina da vida real, a Angelina que
talvez esteja lendo estas linhas, h de desconhecer-se na
prpria obra do poeta.
Tefilo deve sentir a mesma estranheza quando ler o livro
do Sr. Dr. Macedo. Quando, ao tratar-se em casa de
Angelina do nobre sacrifcio do Imperador e de seus
augustos genros, partindo para a guerra, a tia Plcida faz
uma observao intempestiva. Tefilo responde-lhe com
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duas falas inspiradas de patriotismo e decidida coragem. O
ato do cidado que no acode  voz da ptria  qualificado
por ele de covarde e mais infame. A concluso do leitor 
bvia: Tefilo vai adiar o casamento, vai partir para a
guerra; nada nos autoriza a crer que ele se guie pela moral
de Talleyrand. Pois bem, acontece exatamente o contrrio.
Quando mais tarde o narrador, testemunha dos fatos,
lembra-lhe o dever de ir para o Sul, Tefilo responde com o
amor de Angelina, dizendo que a honra da ptria est
confiada a milhes de filhos, e que a esperana da moa
est somente nele; lembram-lhe as suas palavras; ele
responde que foi imprudente em proferi-las, dizem-lhe que
Angelina s se casar depois da guerra; ele dispe-se a ir
falar  noiva, e destruir esses escrpulos desabridos.
Tefilo vai ter com Angelina, a noiva mostra-se inabalvel;
a sua condio  que o moo v para o Sul, prometendo
esper-lo na volta da campanha. No devo, responde ela
com a serena impassibilidade do non possumus pontifcio.
Todos a cercam, instam todos; Angelina no recua um
passo. Mas que faz Tefilo? Gasta trs dias em rogativas
inteis; roja-se aos ps da moa para alcanar a sano
daquilo que ele, pouco antes condenava como ato
infamante. No alcanando nada, trama-se uma
conspirao: Tefilo reporta-se  vontade de sua me, que
deve chegar da fazenda; a me  prevenida a tempo;
convenciona-se que ela recusara licena ao filho para
partir; segundo a opinio primitiva de Tefilo, aquilo era
nada menos que a conspirao dos covardes; o moo,
porm, no se preocupa muito com isso; rompe a
conspirao; a me nega ao filho a licena de partir, o
irmo e a irm falam no mesmo sentido; tudo vo:
Angelina persiste em que o noivo deve ir para o Sul. A
figura da moa, confessemo-lo, impe aquilo pelo
contraste; ser uma grandeza mas  uma grandeza que se
alenta da fraqueza dos outros. O certo  que, no podendo
alcanar outra resposta, Tefilo resolve-se a partir, o que
d lugar  cena dos bilhetes escritos, entre os dois noivos;
Angelina escreve ocultamente, uma ordem de partir, ao
passo que Tefilo escreve em outro papel, ao mesmo
tempo, a sua resoluo de obedecer; os dois bilhetes so
lidos na mesma ocasio. A idia ser original, mas a cena
no tem gravidade; e se foi trazida para salvar Tefilo, o
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intento  intil, porque aos leitores perspicazes, Tefilo
transige com a obstinao de Angelina, no se converte.
Ora, o Tefilo da vida real querer reconhecer-se nesta
pintura? Duvidamos muito. Se o autor quisesse pintar em
Tefilo a instabilidade do carter, a contradio dos
sentimentos, nada teramos que lhe dizer: a figura era
completa. Mas no; desde comeo Tefilo  apresentado
aos leitores como um moo honrado, srio, educado em
boa escola de costumes; Domiciano no se farta de elogilo.
A inteno do autor  visvel: mas a execuo traiu-lhe
a inteno.
Dissemos acima que Tefilo partira para Portugal, logo
depois da sua declarao a Angelina; os leitores tero
curiosidade de saber o motivo dessa partida, que d lugar
a uma longa cena, idntica  da conspirao. O motivo  ir
recolher uma herana deixada por um parente de Tefilo;
h o mesmo concerto unnime de rogativas; mas nem
Angelina, nem Domiciano consentem que o moo fique. 
dever, responde Angelina; e devemos dizer que a repetio
desta palavra torna-se quase uma ostentao de virtude.
Parte o moo e deixa todos consternados. O que torna,
porm, esta cena intil e sobreposse,  que a aflio geral
nasce de uma dificuldade que no existe. Se a noiva est
pedida, se os dois noivos se amam, se nem a me, nem o
irmo do rapaz lhe impem o dever de partir, no havia
um meio simples. um recurso forense, para remediar a
situao? Um advogado no fazia as vezes do herdeiro?
Esta pergunta  to natural que durante a leitura do
captulo esperamos sempre ouvi-la da boca de um dos
personagens, e contvamos que aquela soluo traria a
felicidade a todos, arrancando-os a um mal imaginrio.
Domiciano, descrito pejo autor como o tipo do dever, seria
mais bem acabado, se a sua virtude fosse mais discreta e
menos exigente. Os sacrifcios que ele pratica so
realmente dolorosos; mas essa vir-tude no paira numa
regio elevada; amesquinha-se, dilui-se, no cap-tulo em
que o bom do velho fala de uma violeta dada por Angelina
a Tefilo. Essa violeta, no entender de Domiciano,  um
erro grave, causou-lhe uma dor profunda; o leitor admirase
de uma virtude to minuciosa; mas a crtica de tamanho
alvoroo no pai de Angelina, no  o leitor quem a faz,  o
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prprio narrador que no podendo ter-se. pergunta-lhe
com uma gravidade cmica , quantas flores no lhe deu a
mulher antes de se casarem. Desde esse captulo o
interesse por Domiciano no  tamanho como devera ser;
as suas belas palavras, recusando abandonar o trabalho,
apesar da certeza de que morre, impressionam, decerto,
mas o esprito est prevenido pela cena da violeta, e no
se apaixona por aquela santa dignidade.
Tais contrastes, tais omisses, tornam os personagens d'O
Culto do Dever pouco aceitveis da parte de um apreciador
consciencioso. Em geral, as personagens esto apenas
esboadas; o esprito no as retm; ao fechar o livro
dissipam-se todas como sombras impalpveis; como elas
no comovem, o corao do leitor no conserva o menor
vestgio de sensao, a menor impresso de dor.
Faltariam ao poeta as tintas necessrias para traduzir uma
obra melhor? Sinceramente, no; contestando o
merecimento d'O Culto do Dever, seria ridculo negar o
talento do Sr. Dr. Macedo. O que desejamos, sobretudo, 
que os talentos provados, os talentos reconhecidos,
tenham sempre em vista o interesse da sua glria, e no
se exponham ao desastre de produzir um livro mau.
O Culto do Dever  um mau livro, como a Nebulosa  um
belo Poema. Esta ser a linguagem dos amigos do poeta, a
linguagem dos que amam deveras as boas obras, e
almejam antes de tudo o progresso da literatura nacional.
O que esses desejam sinceramente  que o Sr. Dr. Macedo,
nos lazeres que lhe deixar a poltica, escreva uma nova
obra, evocando a musa que outras vezes o inspirou; as
letras ganharo com isso; o seu nome receber novo
lustre, ficando-nos o prazer de registrar nestas mesmas
colunas o esplendor da sua nova vitria.
Isto em relao ao poeta.
Pelo que diz respeito s letras, o nosso intuito  ver
cultivado, pelas musas brasileiras, o romance literrio, o
romance que rene o estudo das paixes humanas aos
toques delicados e originais da poesia,  meio nico de
fazer com que uma obra de imaginao, zombando do
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aoite do tempo, chegue, inaltervel e pura, aos olhos
severos da posteridade.
[9] JOS DE ALENCAR: IRACEMA
A ESCOLA potica, chamada escola americana, teve
sempre adversrios, o que no importa dizer que houvesse
controvrsia pblica. A discusso literria no nosso pas 
uma espcie de steeple-chase, que se organiza de quando
em quando; fora disso a discusso trava-se no gabinete,
na rua, e nas salas. No passa da. em nos parece que se
deva chamar escola ao movimento que atraiu as musas
nacionais para o tesouro das tradies indgenas. Escola ou
no, a verdade  que muita gente viu na poesia americana
uma aberrao selvagem, uma distrao sem graa, nem
gravidade At certo ponto tinha razo: muitos poetas,
entendendo mal a musa de Gonalves Dias, e no podendo
entrar no fundo do sentimento e das idias, limitaram-se a
tirar os seus elementos potico do vocabulrio indgena;
rimaram as palavras, e no passaram adiante; os
adversrios, assustados corri a poesia desses tais,
confundiram no mesmo desdm os criadores e os
imitadores, e cuidaram desacreditar a idia fulminando os
intrpretes incapazes.
Erravam decerto: se a histria e os costumes indianos
inspiraram poetas como Jos Baslio, Gonalves Dias, e
Magalhes,  que se podia tirar dali criaes originais,
inspiraes novas. Que importava a invaso da
turbamulta? A poesia deixa de ser a misteriosa linguagem
dos espritos, s porque alguns maus rimadores foram
assentar-se ao sop do Parnaso? O mesmo se d corri a
poesia americana. Havia tambm outro motivo para
conden-la: supunham os crticos que a vida indgena
seria, de futuro, a tela exclusiva da poesia brasileira, e
nisso erravam tambm, pois no podia entrar na idia dos
criadores, obrigar a musa nacional a ir buscar todas as
suas inspiraes no estudo das crnicas e da lngua
primitiva. Esse estudo era um dos modos de exercer a
poesia nacional; mas, fora dele, no est a a prpria
natureza, opulenta, fulgurante, vivaz, atraindo os olhos dos
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poetas, e produzindo pginas como as de Porto Alegre e
Bernardo Guimares?
Felizmente, o tempo vai esclarecendo os nimos; a poesia
dos caboclos est completamente nobilitada os rimadores
de palavras j no podem conseguir o descrdito da idia,
que venceu com o autor de "I-Juca-Pirama", e acaba de
vencer com o autor de Iracema.  deste livro que vamos
falar hoje aos nossos leitores.
As tradies Indgenas encerram motivos para epopias e
para, glogas; podem inspirar os seus Homeros e os seus
Tecritos. H a lutas gigantescas, audazes capites, iladas
sepultadas no esquecimento; o amor, a amizade, os
costumes domsticos tendo a simples natureza Dor teatro,
oferecem  musa lrica, pginas deliciosas de sentimento e
de originalidade. A mesma pena que escreveu "IJucaPirama"
traou o lindo monlogo de "Marab"; o
aspecto do ndio Kob e a figura potica de Lindia so
filhos da mesma cabea; as duas partes dos Natchez
resumem do mesmo modo a dupla inspirao da fonte
indgena. O poeta tem muito para escolher nessas runas j
exploradas, mas no completamente conhecidas. O livro do
Sr. Jos de Alencar, que  um poema em prosa, no 
destinado a cantar lutas hericas, nem cabos de guerra; se
h a algum episdio, nesse sentido, se alguma vez troa
nos vales do Cear a pocema da guerra, nem por isso o
livro deixa de ser exclusivamente votado  histria tocante
de uma virgem indiana, dos seus amores. e dos seus
infortnios. Estamos certos de que no falta ao autor de
Iracema energia e vigor para a pintura dos vultos hericos
e das paixes guerreiras; lrapu e Poti a esse respeito so
irrepreensveis; o poema de que o autor nos fala deve
surgir  luz, e ento veremos como a sua musa emboca a
tuba pica; este livro, porm, limita-se a falar do
sentimento, v-se que no pretende sair fora do corao.
Estudando profundamente a lngua e os costumes dos
selvagens, obrigou-nos o autor a entrar mais ao fundo da
poesia americana; entendia ele, e entendia bem, que a
poesia americana no estava completamente achada; que
era preciso prevenir-se contra um anacronismo moral, que
consiste em dar idias modernas e civilizadas aos filhos
incultos da floresta. O intuito era acertado; no
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conhecemos a lngua indgena; no podemos afirmar se o
autor pde realizar as suas promessas, no que respeita 
linguagem da sociedade indiana, s suas idias, s suas
imagens; mas a verdade  que relemos atentamente o
livro do Sr. Jos de Alencar, e o efeito que ele nos causa 
exatamente o mesmo a que o autor entende que se deve
destinar ao poeta americano; tudo ali nos parece primitivo;
a ingenuidade dos sentimentos, o pitoresco da linguagem,
tudo, at a parte narrativa do livro, que nem parece obra
de um poeta moderno, mas uma histria de bardo
indgena, contada aos irmos,  porta da cabana, aos
ltimos raios do sol que se entristece. A concluso a tirar
daqui  que o autor houve-se nisto com uma cincia e uma
conscincia, para as quais todos os louvores so poucos.
A fundao do Cear, os amores de Iracema e Martim, o
dio de duas naes adversrias, eis o assunto do livro. H
um argumento histrico, sacado das crnicas, mas esse 
apenas a tela que serve Ido poeta; o resto  obra da
imaginao. Sem perder de vista os dados colhidos nas
velhas crnicas, criou o autor uma ao interessante,
episdios originais, e mais que tudo, a figura bela e potica
de Iracema. Apesar do valor histrico de alguns
personagens, com Martim e Poti (o clebre Camaro, da
guerra holandesa), a maior soma de interesse concentra-se
na deliciosa filha de Araken. A pena do cantor d'O Guarani
 feliz nas criaes femininas; as mulheres dos seus livros
trazem sempre um cunho de originalidade, de delicadeza, e
de graa, que se nos gravam logo na memria e no
corao. Iracema e da mesma famlia. Em poucas palavras
descreve o poeta a beleza fsica daquela Diana selvagem.
Uma frase imaginosa e concisa, a um tempo, exprime tudo.
A beleza moral vem depois, com o andar dos sucessos: a
filha do paj, espcie de vestal indgena, vigia do segredo
da jurema,  um complexo de graas e de paixo, de
beleza e de sensibilidade, de casta reserva e de amorosa
dedicao. Reala-lhe a beleza nativa a poderosa paixo do
amor selvagem, do amor que procede da virgindade da
natureza, participa da independncia dos bosques, cresce
na solido, alenta-se do ar agreste da montanha.
Casta, reservada, na misso sagrada que lhe impe a
religio do seu pas, nem por isso Iracema resiste 
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invaso de um sentimento novo para ela, e que transforma
a vestal em mulher. No resiste, nem indaga; desde que os
olhos de Martim se trocaram com os seus, a moa curvou a
cabea quela doce escravido. Se o amante a
abandonasse, a selvagem iria morrer de desgosto e de
saudade, no fundo do bosque, mas no oporia ao volvel
mancebo nem uma splica nem uma ameaa. Pronta a
sacrificar-se por ele, no pediria a mnima compensao do
sacrifcio. No pressente o leitor, atravs da nossa frase
inculta e sensabor, uma criao profundamente
verdadeira? No se v na figura de Iracema, uma perfeita
combinao do sentimento humano com a educao
selvagem? Eis o que  Iracema, criatura copiada da
natureza, idealizada pela arte, mostrando atravs da
rusticidade dos costumes, uma alma prpria para amar e
para sentir.
Iracema  tabajara; entre a sua nao e a nao potiguara
h um dio de sculos; Martim, aliado dos potiguaras,
andando erradio, entra no seio dos tabajaras, onde 
acolhido com a franqueza prpria de uma sociedade
primitiva;  estrangeiro,  sagrado; a hospitalidade
selvagem  descrita pelo autor com cores simples e vivas.
O europeu abriga-se na cabana de Araken, onde a
solicitude de Iracema prepara-lhe algumas horas de
folgada ventura.
O leitor v despontar o amor de Iracema ao contacto do
homem civilizado. Que simplicidade, e que interesse!
Martim cede a pouco e pouco  influncia invencvel
daquela amorosa solicitude. Um dia lembra-lhe a ptria e
sente-se tomado de saudade:  "Uma noiva te espera?"
pergunta Iracema.
O silncio  a resposta do moo. A virgem no censura,
nem suplica; dobra a cabea sobre a espdua, diz o autor,
como a tenra planta da carnaba, quando a chuva peneira
na vrzea.
Desculpe o autor se desfolhamos por este modo a sua
obra; no escolhemos belezas, onde as belezas sobram,
trazemos ao papel estes traos que nos parecem
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caracterizar a sua herona, e indicar ao leitor, ainda que
remotamente, a beleza da filha de Araken.
Herona, dissemos, e o  decerto, naquela divina
resignao. Uma noite, no seio da cabana, a virgem de
Tup torna-se esposa de Martim; cena delicadamente.
escrita, que o leitor adivinha, sem ver. Desde ento
Iracema disps de si; a sua sorte est ligada  de Martim;
o cime de Irapu e a presena de Poti, precipitam tudo;
Poti e Martim devem partir para a terra dos potiguaras;
Iracema os conduz, como uma companheira de via-em. A
esposa de Martim abandona tudo, o lar a famlia, os
irmos, tudo para ir perecer ou ser feliz com o esposo. No
 o exlio, para ela o exlio seria ficar ausente do esposo,
no meio dos seus. Todavia, essa resoluo suprema custalhe
sempre, no arrependimento, mas tristeza e vergonha,
no dia em que aps uma batalha entre as duas naes
rivais, Iracema v o cho coalhado de sangue dos seus
irmos. Se esse espetculo no a comovesse, ia-se a
simpatia que ela nos inspira; mas o autor teve em conta
que era preciso interess-la, pelo contraste da voz do
sangue e da voz do corao.
Da em diante a vida de Iracema  uma sucesso de
delcias, at que uma circunstncia fatal vem pr termo
aos seus jovens anos. A esposa de Martim concebe um
filho. Que doce alegria no banha a fronte da jovem me!
Iracema vai dar conta a Martim daquela boa nova; h uma
cena igual nos Natchez; seja-nos lcito compar-la  do
poeta brasileiro.
Quando Ren, diz o poeta dos Natchez, teve certeza de que Celuta
trazia um filho no seio, acercou-se dela com santo respeito, e abraoua
delicadamente para no machuc-la. "Esposa, disse ele, o cu
abenoou as tuas entranhas."
A cena  bela, decerto;  Chateaubriand quem fala; mas a
cena de Iracema aos nossos olhos  mais feliz. A selvagem
cearense aparece aos olhos de Martim, adornada de flores
de maniva, trava da mo dele, e diz-lhe:
 Teu sangue j vive no seio de Iracema. Ela ser me de teu filho.
 Filho, dizes tu? exclamou o cristo em jbilo.
Ajoelhou ali, e cingindo-a com os braos, beijou o ventre fecundo da
esposa.
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V-se a beleza deste movimento, no meio da natureza
viva, diante de uma filha da floresta. O autor conhece os
segredos de despertar a nossa comoo por estes meios
simples, naturais, e belos. Que melhor adorao queria a
maternidade feliz, do que aquele beijo casto e eloqente?
Mas tudo passa; Martim sente-se tomado de nostalgia;
lembram-lhe os seus e a ptria; a selvagem do Cear,
como a selvagem da Luisiana, comea ento a sentir a sua
perdida felicidade. Nada mais tocante do que essa longa
saudade, chorada no ermo, pela filha de Araken, me
desgraada, esposa infeliz que viu um dia partir o esposo,
e s chegou a v-lo de novo, quando a morte j voltava
para ela os seus olhos lnguidos e tristes.
Poucas so as personagens que compem este drama da
solido, mas os sentimentos que as movem, a ao que se
desenvolve entre elas,  cheia de vida, de interesse, e de
verdade.
Araken  a solenidade da velhice contrastando com a
beleza agreste de Iracema: um patriarca do deserto,
ensinando aos moos os conselhos da prudncia e da
sabedoria. Quando lrapu, ardendo em cime pela filha do
paj, faz romper os seus dios contra os potiguaras, cujo
aliado era Martim, Araken ope-lhe a serenidade da
palavra, a calma da razo. Irapu e os episdios da guerra
fazem destaque no meio do quadro sentimental que  o
fundo do livro; so captulos traados com muito vigor, o
que d novo realce ao robusto talento do poeta.
Irapu  o cime e o valor marcial; Araken a austera
sabedoria dos anos; Iracema o amor. No meio destes
caracteres distintos e animados, a amizade  simbolizada
em Poti. Entre os indgenas a amizade no era este
sentimento, que  fora de civilizar-se tornou-se raro;
nascia da simpatia das almas, avivava-se com o perigo,
repousava na abnegao reciproca; Poti e Martim, so os
dois amigos da lenda, votados  mtua estima e ao mtuo
sacrifcio.
A aliana os uniu; o contacto fundiu-lhes as almas;
todavia, a afeio de Poti difere da de Martim, como o
estado selvagem do estado civilizado; sem deixarem de ser
igualmente amigos, h em cada um deles um trao
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caracterstico que corresponde  origem de ambos; a
afeio de Poti tem a expresso ingnua, franca, decidida;
Martim no sabe ter aquela simplicidade selvagem.
Martim e Poti sobrevivem  catstrofe de Iracema, depois
de enterr-la ao p de um coqueiro; o pai desventurado
toma o filho rfo de me, e arreda-se da praia cearense.
Umedecem-se os olhos ante este desenlace triste e
doloroso, e fecha-se o livro, dominado ainda por uma
profunda impresso.
Contar todos os episdios desta lenda interessante seria
tentar um resumo impossvel; basta-nos afirmar que os h,
em grande numero, traados por mo hbil, e todos
ligados ao assunto principal. O mesmo diremos de alguns
personagens secundrios, como Caubi e Andira, um, jovem
guerreiro, outro, guerreiro ancio, modelados pelo mesmo
padro a que devemos Poti e Araken.
O estilo do livro e como a linguagem daqueles povos:
imagens e idias, agrestes e pitorescas, respirando ainda
as auras da montanha, cintilam nas cento e cinqenta
pginas da Iracema. H, sem dvida, superabundncia de
imagens, e o autor com uma rara conscincia literria,  o
primeiro a reconhecer esse defeito. O autor emendar, sem
dvida a obra, empregando neste ponto uma conveniente
sobriedade. O excesso, porm, se pede a reviso da obra,
prova em favor da poesia americana, confirmando ao
mesmo tempo o talento original e fecundo do autor. Do
valor das imagens e das comparaes, s se pode julgar
lendo o livro, e para ele enviamos os leitores estudiosos.
Tal  o livro do Sr. Jos de Alencar, fruto do estudo, e da
meditao, escrito com sentimento e conscincia. Quem o
ler uma vez, voltar muitas mais a ele, para ouvir em
linguagem animada e sentida, a histria melanclica da
virgem dos lbios de mel. H de viver este livro, tem em si
as foras que resistem ao tempo, e do plena fiana do
futuro.  tambm um modelo para o cultivo da poesia
americana, que, merc de Deus h de avigorar-se com
obras de to superior quilate. Que o autor de Iracema no
esmorea, mesmo a despeito da indiferena pblica; o seu
nome literrio escreve-se hoje com letras cintilantes: Me,
O Guarani, Diva, Lucola, e tantas outras; o Brasil tem o
99
direito de pedir-lhe que Iracema no seja o ponto final.
Espera-se dele outros poemas em prosa. Poema lhe
chamamos a este, sem curar de saber se  antes uma
lenda, se um romance: o futuro chamar-lhe- obra-prima.
[10] JUNQUEIRA FREIRE: INSPIRAES DO
CLAUSTRO
DEVAMOS falar hoje do ltimo livro do Sr. Fagundes
Varela; o talentoso autor do prefcio que acompanha os
Cantos e Fantasias, diz ali que um dos modelos do mavioso
poeta foi o autor das Inspiraes do Claustro; esta aluso
trouxe-nos  memria um dos talentos mais estimados da
nossa terra, e lembrou-nos de algum modo o cumprimento
de uma promessa feita algures. Alm de que, convm
examinar se h realmente alguma filiao entre o poeta
baiano e o poeta fluminense. Trataremos pois de Junqueira
Freire e da sua obra, adiando para a semana prxima o
exame do belo livro do Sr. Varela. Nisto executamos o
programa desta revista; quando a semana for nula de
publicaes literrias,  e muitas o so,  recorreremos 
estante nacional, onde no faltam livros para folhear, em
ntima conversa com os leitores.
Nem todos os poetas podem ter a fortuna de Junqueira
Freire, que atravessou a vida cercado de circunstncias
romanescas e legendrias.
A sua figura destaca-se no fundo solitrio da cela
comprimindo ao peito o desespero e o remorso. Como
dizem de Mallebranche, poderia dizer-se dele que e uma
guia encerrada no templo, batendo com as vastas asas as
abbadas sombrias e imveis do santurio. Rara fortuna
esta, que nos arreda para longe dos tempos atuais, em que
o poeta, depois de uma valsa de Strauss, vai chorar uma
comprida elegia; este  decerto o mais infeliz: qualquer
que seja a sinceridade da sua dor, nunca poder ser
acreditado pelo vulgo, a quem no e dado perscrutar toda
a profundidade da alma humana.
Junqueira Freire entrou para o claustro, levado por uma
tendncia asctica; esta nos parece a explicao mais
100
razovel, e  a que resulta, no s da prpria natureza do
seu talento, como do texto de alguns dos seus cantos. Trs
anos ali esteve, e de l saiu, aps esse tempo, trazendo
consigo um livro e uma histria. Todas as iluses
desesperos, dios, amores, remorsos, contrastes, vinham
contados ali, pgina por pgina. No  palestra de
sacristia, nem mexerico de locutrio;  um livro
profundamente sentido, uma histria dolorosamente
narrada em versos, muitas vezes duros, mas geralmente
sados do corao. Compreende-se que um livro escrito em
condies tais, devia atrair a ateno pblica; o poeta
vinha falar da vida monstica, no como filsofo, mas
como testemunha, como o observador, como vtima. No
discutia a santidade da instituio; reunia em algumas
Pginas a histria ntima do que vira e sentira. O livro era
ao mesmo tempo uma sentena e uma lio; no
significava uma aspirao Potica, pretendia ser uma obra
de utilidade; a epgrafe de P.-L. Courrier, inscrita no
prefcio, parece-nos que no exprime seno isto. De todas
estas circunstncias nasceu, antes de tudo, um grande
interesse de curiosidade.
Que viria dizer aquela alma, escapa do mosteiro, herica
para uns, covarde para outros? Essa foi a nossa impresso,
antes de lermos pela primeira vez as Inspiraes do
Claustro. Digamos em poucas palavras o que pensamos do
livro e do poeta, a quem parece que os deuses amavam,
pois que o levaram cedo.
No prefcio que acompanha as Inspiraes do Claustro,
Junqueira Freire procura defender-se previamente de uma
censura da crtica: a censura de inconseqncia, de
contradio, de falta de unidade no livro, censura que,
segundo ele, deve recair sobretudo no carter diferente
dos "Claustros", a apologia do convento, e do "Monge"
condenao da ordem monstica. Teme, disse ele, que lhe
chamem o livro uma coleo de oraes e blasfmias. Caso
raro! O poeta via objeto de censura exatamente naquilo
que faz a beleza da obra; defendia-se de um contraste,
que representa a conscincia e a unidade do livro. Sem
esse dplice aspecto, o livro das Inspiraes perde o
encanto natural, o carter de uma histria real e sincera;
deixa de ser um drama vivo. Contrrio a si mesmo,
cantando por inspiraes opostas, aparece-nos o homem
101
atravs do poeta; v-se descer o esprito da esfera da
iluso religiosa para o terreno da realidade prtica; assistese
s peripcias daquela transformao; acredita-se na
palavra do poeta, pois que ele sai, corno Enias, dentre as
chamas de Tria. O escrpulo portanto era demasiado, era
descabido; e a explicao que Junqueira Freire procura dar
ao dplice carter das suas Inspiraes, sobre
desnecessria e confusa.
A poesia dos "Claustros"  uma apologia da instituio
monstica; estava ento no pleno verdor das suas iluses
religiosas. O convento para ele  o refgio nico e santo s
almas sequiosas de paz, revestidas de virtude. A voz do
poeta  grave, a expresso sombria, o esprito asctico.
No hesita em clamar contra o sculo, a favor do mosteiro
contra os homens, a favor do frade. Confundindo na
mesma adorao os primeiros solitrios com os monges
modernos, a instituio primitiva com a instituio atual, o
poeta levanta um grito contra a filosofia, e espera morrer
abraado  cruz do claustro.
O que faz interessar esta poesia  que ela representa um
estado sincero da alma do poeta. uma aspirao
conscienciosa; a designao do sculo XVIII, feita por ele,
para tirar os seus versos do crculo das impresses atuais e
constitu-los em simples apreciao histrica, nada significa
ali, e se alguma coisa pudesse significar, no seria a favor
do prestgio do livro. Os "Claustros", o "Apstolo Entre as
Gentes", e algumas outras pginas, exprimindo o estado
contemplativo do poeta, completam essa unidade do livro
que ele no viu, por virtude de um escrpulo exagerado.
No diz ele prprio algures, saudando a profisso de um
religioso:
Eu tambm ideei a linda imagem
Da placidez da vida;
Eu tambm desejei o claustro estril
Como feliz guarida.
Pois bem, as pginas aludidas representam nada menos
que a imagem ideada pelo poeta; dar-lhes outra explicao
 mutilar a alma do livro.
102
O poeta canta depois o "Monge".  o anverso da medalha;
e a decepo, o arrependimento, o remorso. Aqui j o
claustro no  aquele refgio sonhado nos primeiros
tempos;  um crcere de ferro, o homem se estorce de
desespero, e chora suas iluses perdidas. Quereis ver que
profundo abismo separa o "Monge" dos "Claustros",
ligando-o todavia, por uma sucesso natural? O prprio
monge o diz:
Corpo nem alma os mesmos me ficaram.
Homem que fui no sou. Meu ser, meu todo
Fugiu-me, esvaeceu-se, transformou-se.
Vivo, mas acabei meu ser primeiro.
....................................
Dista, dista de mim minh'alma antiga.
Aquele ser primeiro, aquela alma antiga,  o ser,  a alma
dos "Claustro". A transformao do poeta fica a
perfeitamente definida no livro. E para avaliar a tremenda
queda que a alma devia sentir basta comparar essas duas
composies, to diversas entre si, na forma e na
inspirao; elas resumem a histria dos trs anos de vida
do convento, aonde o poeta entrou cheio de crena viva, e
donde saiu extenuado e descrente, no das coisas divinas,
mas das obras humanas. Da comparao entre essas duas
poesias, fruto de duas pocas,  que resulta a autoridade
de que vem selada aquela sentena contra a instituio
monacal. Sem excluir da comparao o "Apstolo Entre as
Gentes", devemos todavia lembrar que h nessa poesia um
tom geral, um esprito puramente religioso, que no deriva
da inspirao dos "Claustros", nem se prende  existncia
dos mosteiros. O poeta canta simplesmente a misso do
apstolo; a histria e a religio so as suas musas. Falando
a um sentimento mais universal, pois que a filosofia no
tem negado at hoje a grandeza histrica do apostolado
cristo, Junqueira Freire eleva-se mais ainda que em todas
as outras poesias, e acha at uma nova harmonia para os
seus versos que so os mais perfeitos do livro. A  ele
mais poeta e menos frade: alguns versos mesmo deviam
produzir estranha impresso aos solitrios do Mosteiro; o
poeta no hesita em proclamar a unidade religiosa de
todos os homens, a mesma divindade dominando em todas
as regies, sob nomes diversos. Os ltimos versos, porm,
resumem a superioridade do sacerdote cristo;
103
superioridade que o poeta faz nascer da constncia e do
infortnio:
Nos, ditos do mstico pagode
O ministro de Brama aspira incensos.
O ugure de Teos assentado
Na trpode tremente auspcios canta.
O piaga de Tup, severo e casto,
Nas ocas tece os versos dos orculos.
E o sacerdote do Senhor,  sozinho, 
Coberto de baldes, a par do rprobo,
Ante o mundo ao martrio o colo curva,
E aos cus cantando um hino sacrossanto,
Como as notas finais do rgo do templo,
Confessa a Deus, e  confessando  morre.
A sentena de impiedade que o poeta antevia, se lhe
deram, no teve nem efeito nem base. Combatendo o
anacronismo e a ociosidade de uma instituio religiosa,
Junqueira Freire no se desquitava da f crist. A
impiedade no estava nele, estava nos outros Veja-se, por
exemplo, os versos a "Frei Bastos", um Bossuet, na frase
do poeta, que se afogava, brio de vinho:
No imundo pego da lascvia impura
.....................................
Desces do altar  crpula homicida,
Sobes da crpula aos fulmneos plpitos.
Ali teu brado lisonjeia os vcios,
Aqui atroa apavorado os crimes.
E os lbios rubros dos femneos beijos
Disparam raios que as paixes aterram.
Ora, vejamos: este espetculo era prprio para avigorar o
esprito do poeta, na sua dedicao  vida monstica?
Imagine-se uma alma jovem, de elevadas aspiraes,
asctica por ndole, buscando na solido do claustro um
refgio e um descanso, e indo l encontrar os vcios e as
paixes c de fora; compare-se e veja-se, se a elegia do
"Monge" no  o eco sincero e eloqente de uma dor
eloqente e sincera.
"Meu Filho no Claustro" e a "Freira" exprimem o mesmo
sentimento do "Monge"; mas a o quadro  mais restrito, e
a inspirao menos impetuosa. o monlogo da "Freira" 
sobretudo lindo pela originalidade da idia, e por uma
104
expresso franca e ingnua, que contrasta singularmente
com a castidade de uma esposa do Senhor.
Fora dessas poesias que compem a histria do monge e
do poeta, muitas outras h nas Inspiraes do Claustro,
filhas de inspirao diversa, e que servem para caracterizar
o talento de Junqueira Freire: "Mlton", o "Apstata", o
"Converso", o "Misantropo" , o "Renegado" vrias nnias a
morte de alguns religiosos. Todas nascem do claustro; pelo
assunto e pela forma; v-se que foram compostas na
solido da cela; esta observao precede mesmo em
relao ao Renegado, cano do judeu. Uma s poesia
faz destaque no meio de todas essas:  a que tem
referncia a uma mulher e a um amor. Entraria o amor,
por alguma coisa, na resoluo que levou Junqueira Freire
para o fundo do mosteiro? Ou, pelo contrrio, precipitou
ele o rompimento do monge e do claustro? A este respeito,
como de tudo quanto diz respeito ao poeta, apenas
podemos conjeturar; nada sabemos de sua vida, seno o
que ele prprio refere no prefcio. Qualquer que seja,
porm, a explicao dessa pgina obscura, nem por isso
deixa ela de ser uma das mais dolorosas da vida do poeta,
uni elemento de apreciao literria e moral do homem.
Tratamos at aqui do frade; vejamos o poeta. Junqueira
Freire diz no prefcio que no  poeta, e no o diz para
preencher essa regra de modstia literria, que  comum
nos prlogos; sentia em si, diz ele, a reflexo gelada de
Montaigne, que apaga os mpetos. Teria razo o autor das
Inspiraes? Achamos que no. No e inspirao que lhe
falta, nem fervor potico; colorido, vigor, imagens belas e
novas, tudo isso nos parece que sobram em Junqueira
Freire. O seu verso, porm, s vezes incorreto, s vezes
duro, participa das circunstncias em que nascia; traz em
si o cunho das impresses que rodeavam o poeta;
Junqueira Freire pretendia mesmo dar-lhe o carter de
prosa medida, e por honra da musa e dele devemos
afirmar que o sistema muitas vezes lhe falhou. Tivesse ele
o cuidado de aperfeioar os seus versos, e o livro ficaria
completo pelo lado da forma. O que lhe d sobretudo um
sabor especial  a sua grande originalidade, que deriva no
s das circunstncias pessoais do autor, mas tambm da
feio prpria do seu talento; Junqueira Freire no imita
ningum; rude embora, aquela poesia  propriamente
105
dele; sente-se ali essa preciosa virtude que se chama 
individualidade potica. Com uma poesia sua, uma lngua
prpria, exprimindo idias novas e sentimentos
verdadeiros, era um poeta fadado para os grandes arrojos,
e para as graves meditaes. Quis Deus que ele morresse
na flor dos anos, legando  nossa bela ptria a memria de
um talento to robusto quanto infeliz.
[11] FAGUNDES VARELA: CANTOS E FANTASIAS
AQUI TEMOS um livro do Sr. F. Varela, que  ao mesmo
tempo uma realizao e uma: promessa:  realiza as
esperanas das Noturnas e das Vozes da Amrica, e
promete ainda melhores pginas no futuro.
O Sr. F. Varela  um dos talentos mais vitais da nova
gerao; e lendo os seus versos explica-se naturalmente o
entusiasmo dos seus companheiros da academia de So
Paulo, onde o nome do autor das Noturnas goza de uma
indisputvel primazia. A academia de S. Paulo, como 
natural em uma corporao inteligente, deu sempre um
belo exemplo de confraternidade literria, rodeando de
aplausos e animao os seus talentos mais capazes. Nisto
o Sr. Ferreira de Meneses, autor do prefcio que
acompanha os Cantos e Fantasias,  um rgo fiel do
pensamento de todos; e saudando esta reunio, no mesmo
livro, de dois nomes prestimosos, de dois moos de
talento, saudamos ao mesmo tempo o progresso da
academia e o futuro das letras brasileiras.
O Sr. Ferreira de Meneses, que conviveu com o poeta dos
Cantos e Fantasias indica no prefcio a que aludimos os
autores que servem de modelo ao Sr. Varela, e entre eles,
Lord Byron. No nos parece inteiramente exata esta
apreciao.  verdade que, durante algum tempo, a poesia
de Lord Byron influiu poderosamente nas jovens fileiras da
academia; mas se o autor das Vozes da Amrica aprecia,
como todos ns, a musa do cantor de Child-Harold, nem
por isso reproduz os caracteres do grande poeta, e damoslhe
por isso os nossos parabns.
106
Houve um dia em que a poesia brasileira adoeceu do mal
byrnico; foi a grande seduo das imaginaes juvenis
pelo poeta ingls; tudo concorria nele para essa influncia
dominadora: a originalidade da poesia, a sua doena
moral, o prodigioso do seu gnio, o romanesco da sua vida,
as noites de Itlia, as aventuras de Inglaterra, os amores
de Guiccioli, e at a morte na terra de Homero e de Tibulo.
Era, por assim dizer, o ltimo poeta; deitou fora um belo
dia as insnias de noble lord, desquitou-se das normas
prosaicas da vida, fez-se romance, fez-se lenda, e foi
imprimindo o seu gnio e a sua individualidade em criaes
singulares e imorredouras.
Quis a fatalidade dos poetas, ou antes o privilgio dos
gnios criadores, que este esprito to original, to prprio
de si, aparecesse um dia s imaginaes de alguns como
um modelo potico. Exaltou-se-lhes a imaginao, e
adoeceram, no da molstia do cantor de D. Juan, mas de
outra diversa, que no procedia, nem das disposies
morais, nem das circunstncias da vida. A conseqncia
era natural esse desespero do poeta ingls, a que alude o
Sr. Ferreira de Meneses, no existia realmente nos seus
imitadores; assim, enquanto ele operava o milagre de fazer
do cepticismo um elemento potico, os seus imitadores
apenas vazavam em formas elegantes um tema invarivel
e uniforme. Tomaram-se de uns ares, que nem eram
melanclicos, nem alegres, mas que exprimiam certo
estado da imaginao, nocivo aos interesses da prpria
originalidade. A culpa seria dos imitadores ou do original?
Dos imitadores no era; so fceis de impressionar as
imaginaes vivas, e as que se deixaram adoecer tinham
nisso a razo da sua desculpa.  suprfluo dizer que, na
exposio deste fato, no temos inteno de acusar a
poesia quando ela exprime os tdios, as tristezas, os
desfalecimentos da alma humana; a vida  um complexo
de alegrias e pesares, um contraste de esperana e de
abatimento, e dando ao poeta uma alma delicada e
franzina, uma imaginao viva e ardente, imps-lhe o
Criador o duelo perptuo da realidade e da aspirao.
Daqui vem a extrema exaltao do poeta, na pintura do
bem, como na pintura do mal; mas exprimir essas
comoes diversas e mltiplas da alma  o mesmo que
transformar em sistema o tdio e o cepticismo?
107
Um poeta houve, que, apesar da sua extrema
originalidade, no deixou de receber esta influncia a que
aludimos; foi lvares de Azevedo; nele, porm, havia uma
certa razo do consanginidade com o poeta ingls, e uma
ntima convivncia com os poetas do norte da Europa. Era
provvel que os anos lhe trouxessem uma tal ou qual
transformao, de maneira a afirmar-se mais -a sua
individualidade, e a desenvolver-se o seu robustssimo
talento; mas verdade  que ele no sacrificou o carter
pessoal da sua musa, e sabia fazer prprios os elementos
que ia buscar aos climas estranhos.
Faremos, a seu tempo, um estudo deste poeta, e ento
diremos o que nos ocorre ainda a respeito dele; por agora
limitamo-nos a atribuir-lhe uma parte da influncia
exercida em algumas imaginaes pela poesia byrnica, e
nisso fazemos um ato pstumo de justia literria.
Ora, pois,  o Sr. Varela uma das vocaes que escaparam
a essa influncia; pelo menos, no h vestgio claro nas
suas belas poesias. E como o nosso juzo no  decisivo, 
apenas uma opinio, podemos estar neste ponto em
desacordo com o autor do prefcio, sem por isso deixarmos
de respeitar a sua opinio e apreciar o seu talento. No que
estamos de pleno acordo, e no juzo que ele forma do
poeta, apesar de defeitos prprios da mocidade;  o Sr.
Varela uma vocao real, um poeta espontneo de
verdadeira e amena inspirao. Diz o autor do prefcio que
os descuidos de forma so filhos da sua prpria vontade e
do desprezo das regras. Se assim , o sistema 
antipotico; a boa versificao  uma condio
indispensvel  poesia; e no podemos deixar de chamar a
ateno do autor para esse ponto. Com o talento que tem,
corre-lhe o dever de apurar aqueles versos, a minoria
deles, onde o estudo da forma no acompanha a beleza e o
vio do pensamento. Desde j lhe notamos aqui os versos
alexandrinos, que realmente no so alexandrinos, pois
que lhes falta a cesura dos hemistquios; outros descuidos
aparecem ainda no volume dos Cantos e Fantasias;
vocbulos mal cabidos, s vezes, rimas imperfeitas,
descuidos todos que no avultam muito no meio das
belezas, mas que o nosso dever obriga-nos a indicar
conscienciosamente.
108
Feitos estes reparos, entremos na leitura do livro do Sr.
Varela. Divide-se em trs partes: "Juvenlia", "Livro das
Sombras", "Melodias do Estio". Destes ttulos s os dois
primeiros definem o grupo de poesias que lhes
corresponde; o ltimo, no; e h a poesias que nos
parecem caber melhor no "Livro das Sombras"; isto,
porm,  crtica de miunas, e veio ao correr da pena. O
que importa saber  o valor dos versos do Sr. Varela. A
primeira parte, como o ttulo indica, compe-se das
expanses da juventude, dos devaneios do amor, dos
palpites do corao, tema eterno que nenhum poeta
esgotou ainda, e que h de inspirar ainda o ltimo poeta.
Toda essa primeira parte do livro,  exceo de algumas
estrofes, feitas em hora menos propcia,  cheia de
sentimento e de suavidade; a saudade , em geral, a musa
de todos esses versos; o poeta quer rver et non pleurer,
como Lamartine; descrio viva, imagens poticas, uma
certa ingenuidade do corao, que interessa e sensibiliza;
nada de arrojos mal cabidos, nem gritos descompassados;
a mocidade daqueles versos  a mocidade crente, amante,
resignada, falando uma linguagem sincera, vertendo
lagrimas verdadeiras.
O ttulo de "Livro das Sombras", que  a segunda parte do
volume, faz crer que um abismo a separa do poema de
"Juvenlia"; mas realmente no  assim. As sombras no
livro do Sr. Varela so como as sombras da tarde, as
sombras transparentes, douradas pelo ltimo olhar do dia,
no as da noite e da tempestade. No h mesmo
diferenas notveis entre os dois livros, a no ser que, no
segundo, inspira-se o poeta de assuntos diversos e
variados, e no h a a doce monotonia do primeiro. O
"Cntico do Calvrio", porm, avantaja-se a todos os
cantos do volume: so versos escritos por ocasio da
morte de um filho; h a verdadeiro lirismo, paixo,
sensibilidade e belos efeitos de uma dor sincera e
profunda. So esses tambm os versos mais apurados do
livro, descontados uns raros descuidos. A idia com que
fecha essa formosa pgina  bela e original, nasce
naturalmente do assunto, e  representada em versos
excelentes. Quase o mesmo podemos dizer dos versos ao
"Mar" que tantos poetas ho cantado, desde Homero at
Gonalves Dias; a parfrase de Ossian, "Colmar", encerra
igualmente os mais belos versos do poeta, e tanto quanto
109
 possvel parafrasear o velho bardo, f-lo com felicidade o
Sr. Varela. "Colmar" pertence j ao livro das "Melodias do
Estio"; como se v, a nossa apreciao  rpida, tendo por
fim resumir o nosso pensa-mento, acerca de um livro que
merece a ateno da anlise, e de um poeta que tem jus
ao aplauso dos entendedores.
Se h neste volume mais de uma imperfeio, se por vezes
apare-cem os descuidos de forma e de locuo, no
faamos desses cochilos de Homero grande cabedal;
aconselhemos, sim, ao autor que no erija em sistema um
defeito que pode diminuir o mrito das suas obras. V-se
pelos bons versos que ele nos d, quanto lhe  fcil
produzir certo apuro na forma; emendar no prova nunca
contra o talento, e prova sempre a favor da reflexo; e o
tempo, cremos ter lido isto algures, s respeita aquilo que
 feito com tempo; mxima salutar que os poetas nunca
deviam esquecer.
Quanto ao cabedal da natureza, a inspirao a
espontaneidade, essa tem-na o Sr. Varela em larga escala;
sabemos que  um moo estudioso, e v-se pelas suas
obras, que possui a rara qualidade do gosto e do
discernimento. Os que prezam as boas letras interessamse
pela ascenso progressiva do nome do Sr. Varela, e
predizem-lhe um futuro glorioso. Que ele no perca de
vista esse interesse e essa predio.
Aconselhando-lhe a perseverana e o trabalho, o culto
desvelado e incessante das musas, a nossa inteno 
simplesmente corresponder aos hbitos de atividade que
lhe supomos; no entra, porm, no nosso esprito a idia
de exigir dele uma prova de infatigabilidade literria; h
quem faa uni crime da produo lenta, e ache virtude nos
hbitos das vocaes sfregas; pela nossa parte, nunca
deixaremos de exigir, mesmo dos talentos mais fecundos,
certas condies de reflexo e de madureza, que no
dispensam uma demora salutar. Ao tempo e  constncia
no estudo, deve-se deixar o cuidado do aperfeioamento
das obras. Com estas mximas
em vista e um talento real, como o do Sr. Varela,  fcil ir
longe.
110
Desperta-nos as mesmas consideraes um volume que
acabamos de receber do Rio Grande do Sul. Intitula-se Um
Livro de Rimas, e  escrito pelo Sr. J. de Vasconcelos
Ferreira. Tem o poeta rio-grandense talento natural e
vocao fcil; falta-lhe estudo e talvez gosto; alguns anos
mais, e podemos esperar dele um livro aperfeioado e
completo. O que lhe aconselhamos, porm,  que, alm do
extremo cuidado na escolha das imagens, que as h
comuns e nem sempre belas, no livro das Rimas, procure
o Sr. Ferreira tratar da sua forma, que em geral  pobre e
imperfeita. Faa das musas, no uma distrao, mas um
culto;  o meio de atingir  bela,  grande,  verdadeira
poesia.
[12] O TEATRO NACIONAL
H UNS BONS trinta anos o Misantropo e o Tartufo faziam
as delcias da sociedade fluminense; hoje seria difcil
ressuscitar as duas imortais comdias. Querer isto dizer
que, abandonando os modelos clssicos, a estima do
pblico favorece a reforma romntica ou a reforma
realista? Tambm no; Molire, Vtor Hugo, Dumas Filho,
tudo passou de moda; no h preferncias nem simpatias.
O que h  um resto de hbito que ainda rene nas
platias alguns espectadores; nada mais; que os poetas
dramticos, j desiludidos da cena, contemplam
atentamente este fnebre espetculo; no os
aconselhamos, mas  talvez agora que tinha cabimento a
resoluo do autor das Asas de um Anjo quebrar a pena e
fazer dos pedaos uma cruz.
Deduzir de semelhante estado a culpa do pblico, seria
transformar o efeito em causa. O pblico no tem culpa
nenhuma, nem do estado da arte, nem da sua indiferena
por ela; uma prova disso  a solicitude com que corre a ver
a primeira representao das peas nacionais, e os
aplausos com que sempre recebe os autores e as obras,
ainda as menos corretas. Graas a essa solicitude, mais
claramente manifestada nestes ltimos anos, o teatro
nacional pde enriquecer-se com algumas peas de vulto,
frutos de uma natural emulao, que, alis, tambm
amorteceu pelas mesmas causas que produziram a
111
indiferena pblica. Entre a sociedade e o teatro, portanto,
j no h liames nem simpatias; longe de educar o gosto,
o teatro serve apenas para desenfastiar o esprito, nos dias
de maior aborrecimento. No est longe a completa
dissoluo da arte; alguns anos mais, e o templo ser um
tmulo.
As testemunhas do tempo dizem que as comdias citadas
acima acham sempre o pblico disposto e atencioso; era
um sintoma excelente.  verdade que, depois do Tartufo,
aparecia Pourcegnac e mais o cortejo dos boticrios e dos
trues, no dia seguinte ao do Misantropo, ia-se ver o
doutoramento do Doente Imaginrio. Neste ponto o teatro
brasileiro de 1830 no podia andar adiante da Comdia
Francesa, onde, segundo cremos, ainda se no dispensam
os acessorios daquelas duas excelentes farsas, se  que se
pode chamar farsa ao Doente Imaginrio.
Os diretores daquele tempo pareciam compreender que o
gosto devia ser plantado a pouco e pouco, e para fazer
aceitar o Molire do alto cmico, davam tambm o Molire
do baixo cmico; inimitveis ambos. Fazia-se o que, em
matria financeira, se chama dar curso forado s notas,
com a diferena, porm, de que ali obrigava-se o curso do
ouro de lei. Nem eram esses os nicos exemplos de
preciosas exumaes; mas nem esses nem outros puderam
subsistir; causas, em Parte naturais, em parte
desconhecidas, trouxeram ao teatro fluminense uma nova
situao.
No  preciso dizer que a principal dessas causas foi a
reforma romntica; desde que a nova escola, constituda
sob a direo de Vtor Hugo pde atravessar os mares, e
penetrar no Brasil, o teatro, como era natural, cedeu ao
impulso e aceitou a idia triunfante. Mas como? Todos
sabem que a bandeira do Romanticismo cobriu muita
mercadoria deteriorada; a idia da reforma foi levada at
aos ltimos limites, foi mesmo alm deles, e da nasceu
essa coisa hbrida que ainda hoje se escreve, e que, por
falta de mais decente designao, chama-se Ultraromanticismo.
A cena brasileira,  exceo de algumas
peas excelentes, apresentou aos olhos do pblico uma
longa srie de obras monstruosas, criaes informes, sem
nexo, sem arte, sem gosto, nuvens negras que
112
escureceram desde logo a aurora da revoluo romntica.
Quanto mais o pblico as aplaudia, mais requintava a
inventiva dos poetas; at que a arte, j trucidada pelos
maus imitadores, foi empolgada por especuladores
excelentes, que fizeram da extravagncia dramtica um
meio de existncia. Tudo isso reproduziu a cena brasileira,
e raro aparecia, no meio de tais mons-truosidades, uma
obra que trouxesse o cunho de verdadeiro talento.
Sem haver terminado o perodo romntico, mas apenas
amortecido o primeiro entusiasmo, aportou s nossas
plagas a reforma realista, cujas primeiras obras foram logo
coroadas de aplausos; como anteriormente, veio-lhes no
encalo a longa srie da imitaes e das exageraes; e o
Ultra-realismo tomou o lugar do Ultra-romanticismo, o que
no deixava de ser montono. Aconteceu o mesmo que
com a reforma precedente; a teoria realista, como a teoria.
romntica, levadas at  exagerao, deram o golpe de
misericrdia no esprito pblico. Salvaram-se felizmente os
autores nacionais. A estas causas, que chamaremos
histricas, juntam-se outras, circunstanciais ou fortuitas, e
nem por isso menos poderosas; h, porm, uma que vence
as demais, e que nos parece de carter grave: apont-la 
mostrar a natureza do remdio aplicvel  doena.
Para que a literatura e a arte dramtica possam renovarse,
com garantias do futuro, torna-se indispensvel a
criao de um teatro normal. Qualquer paliativo, neste
caso, no adianta coisa nenhuma, antes atrasa, pois que 
necessrio ainda muito tempo para colocar a arte
dramtica nos seus verdadeiros eixos. A iniciativa desta
medida s pode partir dos poderes do Estado; o Estado,
que sustenta uma academia de pintura, arquitetura e
estaturia, no achar razo plausvel para eximir-se de
criar uma academia dramtica, uma cena-escola, onde as
musas achem terreno digno delas, e que possa servir para
a reforma necessria no gosto pblico.
Argumentar com o exemplo do estrangeiro seria, sobre
prolixo, ocioso. Basta lembrar que a idia da criao de um
teatro normal j entrou nas preocupaes do governo do
Brasil. O Sr. Conselheiro Sousa Ramos, quando ministro do
imprio, em 1862, nomeou uma comisso composta de
pessoas competentes para propor as medidas tendentes ao
113
melhoramento do teatro brasileiro. Essas pessoas eram os
Srs. Conselheiro Jos de Alencar e Drs. Macedo e Meneses
e Sousa. Alm disso, consta-nos de fonte insuspeita que S.
Ex. escrevera ao Sr. Porto Alegre pedindo igualmente o
auxlio das suas luzes neste assunto e existe a resposta do
autor do Colombo nos arquivos da secretaria de Estado.
No podemos deixar de mencionar com louvor o nome do
Sr. Conselheiro Sousa Ramos pelos passos que deu, e que,
infelizmente, no tiveram resultado prtico.
A carta do Sr. Porto Alegre ocupa-se mais detidamente das
condies arquitetnicas de um edifcio para servir
simultaneamente de teatro dramtico e teatro lrico. Os
pareceres da comisso  que tratam mais minuciosamente
do assunto; dizemos os pareceres, por que o Sr. Dr.
Macedo separou-se da opinio dos seus colegas, e deu voto
individual. O parecer da maioria da comisso estabelece de
uma maneira definitiva a necessidade da construo de um
edifcio destinado  cena dramtica e  pera nacional. O
novo teatro deve chamar-se, diz o parecer, Comdia
Brasileira, e ser o teatro da alta comdia. Alm disso, o
parecer mostra a necessidade de criar um conservatrio
dramtico, de que seja presidente o inspetor-geral dos
teatros, e que tenha por misso julgar da moralidade e das
condies literrias das peas destinadas aos teatros
subvencionados, e da moralidade, decncia, religio,
ordem pblica, dos que pertencerem aos teatros de
particulares. A Comdia Brasileira seria ocupada pela
melhor companhia que se organizasse, com a qual o
governo poderia contratar, e que receberia uma
subveno, tirada, bem como o custo do teatro, dos fundos
votados pelo corpo legislativo para a academia da msica.
Os membros do conservatrio dramtico, nomeados pelo
governo e substitudos trienalmente, perceberiam uma
gratificao e teriam a seu cargo a inspeo interna de
todos os teatros.
O parecer do Sr. Dr. Macedo, concordando, em certos
pontos, com o da maioria da comisso, separa-se,
entretanto, a outros respeitos, e tais so, por exemplo, o
da construo de um teatro, que no julga indispensvel, e
da organizao do conservatrio e da companhia normal. A
maioria da comisso fez acompanhar o seu parecer de um
projeto para a criao do novo conservatrio dramtico e
114
providenciando acerca da construo de um teatro de
Comdia Brasileira. O Sr. Dr. Macedo, alm do parecer,
deu tambm um projeto para a organizao provisria do
teatro normal, acompanhado de um oramento de despesa
e receita.
Esta simples exposio basta para mostrar o zelo da
comisso em desempenhar a incumbncia do governo, e
neste sentido as vistas deste no podiam ser melhor
auxiliadas. Dos dois pareceres o que nos agrada mais  o
da maioria da comisso por ser o que nos parece abranger
o interesse presente e o interesse futuro, dando 
instituio um carter definitivo, do qual depende a sua
realizao. No temos grande f numa organizao
provisria; a necessidade das aulas para a educao de
artistas novos e aperfeioamento dos atuais, Pode ser
preenchida mesmo com o projeto da maioria da comisso,
e julgamos esse acrscimo indispensvel, porquanto 
preciso legislar principalmente para o futuro. O governo do
Brasil tem-se aplicado um pouco a este assunto, e era
conveniente aproveitar-lhe os bons desejos e propor logo
uma organizao completa e definitiva. Fora sem dvida
para desejar que a Comdia Brasileira ficasse
exclusivamente a cargo do governo, que faria dela uma
dependncia do ministrio do imprio, com oramento
votado pelo corpo legislativo. Nisto no vemos s unia
condio de solenidade, irias tambm uma razo de
segurana futura.
Criando um conservatrio dramtico, assentado em bases
largas e definidas, com carter pblico, a comisso atentou
para uma necessidade indeclinvel, sobretudo quando
exige para as peas da Comdia Brasileira o exame das
condies literrias. Sem isso, a idia de um teatro-modelo
ficaria burlada, e no raro veramos invadi-lo os brbaros
da literatura. No regmen atual, a polcia tem a seu cargo o
exame das peas no que respeita  moral e ordem pblica.
No temos presente a lei, mas se ela no se exprime por
outro modo,  difcil marear o limite da moralidade de uma
pea, e nesse caso as atribuies da autoridade policial,
sobre incompetentes, so vagas, o que no torna muito
suave a posio dos escritores.
115
Sabemos que, alm da comisso nomeada pelo Sr.
Conselheiro Sousa Ramos, foi posteriormente consultada
pelo Sr. Marqus de Olinda uma pessoa muito competente
nesta matria, que apresentou ao atual Sr. Presidente do
Conselho um longo parecer. Temos razo para crer
tambm que o Sr. Porto Alegre, consultado em 1862, j o
tinha sido em 1853 e 1856. V-se, pois, que a criao do
teatro normal entra h muito tempo nas preocupaes do
governo.  urgncia da matria no se tirava o carter de
importncia. e assim pode-se explicar o escrpulo do
governo em no pr mos  obra, sem estar perfeitamente
esclarecido. Os nomes das pessoas consultadas, o
desenvolvimento das diferentes idias emitidas, e
sobretudo o estado precrio da literatura e da arte
dramtica, tudo est dizendo que a Comdia Brasileira
deve ser criada de uma maneira formal e definitiva.
Esta demora em executar uma obra to necessria ao pas
pode ter causas diversas, mas seguramente que uma delas
 a no permanncia dos estadistas no governo, e a
natural alternativa da balana poltica; cremos, porm, que
os interesses da arte entram naquela ordem de interesses
perptuos da sociedade, que andam a cargo da entidade
moral do governo, e constituem, nesse caso, um dever
geral e comum. Se, depois de tantos anos de amarga
experincia, e dolorosas decepes, no vier uma lei que
ampare a arte e a literatura, lance as bases de uma firme
aliana entre o pblico e o poeta, e faca renascer a j
perdida noo do gosto. fechem-se as portas do templo,
onde no h nem sacerdotes nem fiis.
Na esperana de que esta reforma se h de efetuar,
aproveitaremos o tempo, enquanto ela no chega, para
fazer um estudo dos nossos principais autores dramticos,
sem nos impormos nenhuma ordem de sucesso, nem
fixao de pocas, e conforme nos forem propcios o tempo
e a disposio. Ser uma espcie de balano do passado: a
Comdia Brasileira iniciar uma nova era para a literatura.
Terminaramos aqui, se um ilustre amigo no nos houvesse
mimoseado com alguns versos inditos e recentes do poeta
brasileiro, o Sr. Francisco Muniz Barreto. Todos sabem que
o Sr. Muniz Barreto  celebrado por seu raro talento de
repentista; os versos em questo foram improvisados em
116
circunstncias singulares. Achava-se o poeta em casa do
cnsul portugus na Bahia, onde igualmente estava Emlia
das Neves, a talentosa artista, to aplaudida nos nossos
teatros. Conversava-se, quando o poeta batendo aquelas
palmas do costume, que no tempo de Bocage anunciavam
os improvisos, comps de um jacto este belssimo soneto.
Por sbios e poetas sublimado,
Teu nome ilustre pelo orbe voa:
Outra Ristri a fama te apregoa,
Outra Raquel, no portugus tablado.
Ao teu poder magntico, prostrado,
O mais rude auditrio se agrilhoa;
Despir-te a fronte da imortal coroa
No pode o tempo, no consegue o fado.
De atriz o teu condo  sem segundo;
Na cena, a cada instante, uma vitria
Sabes das almas conquistar no fundo.
Impera, Emlia!  teu domnio  a histria!
Teu slio  o palco; tua corte  o mundo;
Teu cetro o drama; teu diadema  a glria.
Ouvindo estes versos to vigorosamente inspirados, Emlia
das Neves cedeu a um movimento natural e correu a
abraar o poeta, retribuindo-lhe a fineza, com a expresso
mais agradvel a uma fronte anci, com um beijo. Foi o
mesmo que abrir uma nova fonte de improviso; sem deterse
um minuto, o poeta produziu as seguintes quadras
faceiras e graciosas:
Como, sendo tu das Neves,
Musa, que vieste aqui,
Assim queima o peito  gente
Um beijo dado por ti?!
O que na face me deste,
Que acendeu-me o corao,
No foi sculo de  neves,
Foi um beijo de vulco.
Neves  tenho eu na cabea,
Do tempo pelos vaivns;
Tu s s  Neves  no nome,
T nos lbios fogo tens.
117
Beijando, no s  das Neves;
Do sol, Emlia, tu s
Como neves se derretem
Os coraes a teus ps.
O meu, que  neve  j era,
Ao toque do beijo teu,
Todo arder senti na chama,
Que da face lhe desceu.
Errou, quem o sobrenome
De  Neves  te ps, atriz.
Que s das lavas no das neves,
Minha alma, acesa, me diz.
Chamem-te, embora, das Neves;
Vesvio te hei de eu chamar,
Enquanto a impresso do beijo,
Que me deste, conservar.
Oh! se de irm esse beijo
Produziu tamanho ardor,
Que incndio no promovera,
Se fora um beijo de amor! ...
No te chames mais das Neves,
Mulher que abrasas assim;
Chama-te antes das Luzes,
E no te esqueas de mim.
Se me prometes, Emlia,
De hora em hora um beijo igual,
Por sobre neves ou fogo
Dou comigo em Portugal.
Como dissemos, estes versos so ainda inditos; e cabe
aqui aos leitores do Dirio do Rio o prazer de os receber
em primeira mo.
[13] O TEATRO DE GONALVES DE MAGALHES
O NOME do Sr. Dr. Magalhes, autor de Antnio Jos, est
ligado  histria do teatro brasileiro; aos seus esforos
deve-se a reforma da cena tocante  arte de declamao, e
as suas tragdias foram realmente o primeiro passo firme
da arte nacional. Foi na inteno de encaminhar o gosto
pblico, que o Sr. Dr. Magalhes tentou aquela dupla
reforma, e se mais tarde voltou  antiga situao, nem por
118
isso se devem esquecer os intuitos do poeta e os
resultados da sua benfica influncia.
Entretanto, o Sr. Dr. Magalhes s escreveu duas
tragdias, traduziu outras, e algum tempo depois,
encaminhado para funes diversas, deixou o teatro, onde
lhe no faltaram aplausos. Teria ele reconhecido que no
havia no seu talento as aptides prprias para a arte
dramtica? Se tal foi o motivo que o levou a descalar o
coturno de Melpneme, crtica sincera e amiga no pode
deixar de aplaudi-lo e estim-lo. Poeta de elevado talento,
mas puramente lrico, essencial-mente elegaco, buscando
casar o fervor potico  contemplao filosfica, o autor de
Olgiato no  um talento dramtico na acepo restrita da
expresso.
Quando a sua musa avista de longe a cidade eterna, ou
pisa o gelo dos Alpes, ou atravessa o campo de Waterloo,
v-se que tudo isso  domnio dela, e a linguagem em que
exprime os seus sentimentos  uma linguagem prpria. O
tom da elegia  natural e profundo nas poucas pginas dos
Mistrios, livro afinado pela lamentao de J e pela
melancolia de Young. Mas a poesia dramtica no tem
esses caracteres, nem essa linguagem; e o gnio potico
do Sr. Dr. Magalhes, levado, por natureza e por estudo, 
meditao expresso dos sentimentos pessoais, no pode
afrontar tranqilamente as luzes da rampa.
Isto posto, simplifica-se a tarefa de quem examina as suas
obras. O que se deve procurar ento nas tragdias do Sr.
Dr. Magalhes no  o resultado de uma vocao, mas
simplesmente o resultado de um esforo intelectual,
empregado no trabalho de uma forma que no  a sua.
Mesmo assim, no  possvel esquecer que o Sr. Dr.
Magalhes  o fundador do teatro brasileiro, e nisto
parece-nos que se pode resumir o seu maior elogio.
Quando o Sr. Dr. Magalhes escreveu as suas duas
tragdias, estava ainda em muita excitao a querela das
escolas; o rudo da luta no continente europeu vinha ecoar
no continente americano; alistavam-se aqui romnticos e
clssicos; e todavia o autor de Antnio Jos no se filiou
nem na igreja de Racine, nem na igreja de Vtor Hugo
119
O poeta faz essa confisso nos prefcios que acompanham
as suas duas peas, acrescentando que, no vendo
verdade absoluta em nenhum dos sistemas, fazia as
devidas concesses a ambos. Mas, apesar dessa confisso,
v-se que o poeta queria principalmente protestar contra o
caminho que levava a poesia dramtica, graas as
exageraes da escola romntica, procurando infundir no
esprito pblico melhor sentimento de arte. Poderia
consegui-lo, se acaso exercesse uma ao mais eficaz
mediante um trabalho mais ativo, e uma produo mais
fecunda; o seu exemplo despertaria outros, e os talentos
nacionais fariam uma cruzada civilizadora. Infelizmente
no aconteceu assim. Apareceram,  verdade, depois das
obras do poeta, outras obras dignas de ateno e cheias de
talento; mas desses esforos isolados e intermitentes
nenhuma eficcia podia resultar.
O assunto de Antnio Jos  tirado da histria brasileira.
Todos conhecem hoje o infeliz poeta que morreu numa das
hecatombes inquisitoriais, por cuja renovao ainda
suspiram as almas beatas. Pouco se conhece da vida de
Antnio Jos, e ainda menos se conhecia, antes da tragdia
do Sr. Dr. Magalhes. Mas do silncio da histria, diz o
autor, aproveita-se com vantagem a poesia. O autor criou,
pois, um enredo: pediu duas personagens  histria,
Antnio Jos e o Conde de Ericeira, e tirou trs de sua
imaginao, Mariana, Frei Gil e Lcia. Com estes elementos
escreveu a sua pea. Mesmo atendendo ao propsito do
autor em no ser nem completamente clssico, nem
completamente romntico, no se pode reconhecer no
Antnio Jos o carter de uma tragdia. Seria imprprio
exigir a excluso do elemento familiar na forma trgica ou
a eterna repetio dos heris romanos. Essa no  a nossa
inteno; mas buscando realizar a tragdia burguesa, O Sr.
Dr. Magalhes, segundo nos parece, no deu bastante
ateno ao elemento puramente trgico, que devia
dominar a ao, e que realmente no existe seno no 5
ato.
A ao, geralmente familiar, s vezes cmica, no diremos
nas situaes, mas no estilo, raras vezes desperta a
comoo ou interessa a alma. O 5 ato a esse respeito no
sofre censura; tem apenas duas cenas, mas cheias de
interesse, e verdadeiramente dramticas; o monlogo de
120
Antnio Jos inspira grande piedade; as interrogaes do
judeu, condenado por uma instituio clerical a um brbaro
suplcio. so cheias de filosofia e de pungente verdade; acena
entre Antnio Jos e Frei Gil  bem desenvolvida e
bem terminada. A ltima fala do Poeta  alta,  sentida. 
eloqente.
Ora, estes mritos que reconhecemos no 5 ato, no
existem em tamanha soma no resto da tragdia. A prpria
versificao e o prprio estilo so diferentes entre os
primeiros atos e o ltimo. H sem dvida duas situaes
dramticas, uma no 3 outra no 4, mas no so de
natureza a compensar a frieza e ausncia de paixo do
resto da pea.
Aproveitando-se do silncio da histria, o Sr. Dr.
Magalhes imaginou uma fbula interessante, que, se fosse
mais aprofundada, poderia dar magnficos efeitos. O amor
de um frade por Mariana, a luta resultante dessa situao,
a denncia, a priso e o suplcio  eis um quadro vasto e
fecundo.  verdade que o autor lutava, pelo que toca a Frei
Gil. com a figura do imortal Tartufo; mas, sem pretender
entrar em um confronto impossvel, a execuo do
pensamento dramtico, o poeta podia assumir maior
interesse, e, em alguns pontos, maior gravidade. No
estranhar esta ltima expresso quem tiver presente 
memria o expediente usado pelo poeta para que Frei Gil
venha a saber do refgio de Antnio Jos, e bem assim as
reflexes de Lcia, descendente em linha reta de Martine e
Toinette.
No  nossa inteno entrar em anlise minuciosa; apenas
exprimimos as nossas dvidas e impresses. Ser fcil
cotejar este rpido juzo com a obra do poeta. Olgiato
confirma as nossas impresses gerais acerca da tragdia
do Sr. Dr. Magalhes; tm ambas os mesmos defeitos e as
mesmas belezas; Olgiato  sem dvida mais dramtico: h
cenas patticas, situaes interessantes e vivas; mas estas
qualidades, que sobressaem sobretudo por comparao,
no destroem a nossa apreciao acerca do talento potico
do Sr. Magalhes. Quando o autor pe na boca dos seus
personagens conceitos filosficos e reflexes morais, entra
no seu gnero, e produz efeitos excelentes; mas desde que
estabelece a luta dramtica e faz a pintura dos caracteres,
121
sente-se que lhe falta a imaginao prpria e especial da
cena.
O assunto de Olgiato foi bem escolhido, por suas condies
dramticas; nesse ponto a histria oferecia elementos
prprios ao poeta. Excluiu ele da tragdia o tirano
Galeazzo, e explica o seu procedimento no prefcio que
acompanha a obra: a razo de exclu-lo procede de ser
Galeazzo um dos frios monstros da humanidade, diz o
autor, e, alm disso, por no ser necessrio  ao da
pea.
Destas duas razes, a segunda  legtima; mas a primeira
no nos parece aceitvel. O autor tinha o direito de
transportar para a cena o Galeazzo da histria, sem ofensa
dos olhos do espectador, uma vez que conservasse a
verdade ntima do carter. A poesia no tem o dever de
copiar integralmente a histria sem cair no papel
secundrio e passivo do cronista.
Prevendo esta objeo, o Sr. Dr. Magalhes diz que no
podia alterar a realidade histrica, porque fazia uma
tragdia,  e no um drama. No compreendemos esta
distino, e se ela exprime o que nos quer parecer,
estamos em pleno desacordo com O PoetaPor que motivo
haver duas leis especiais para fazer servir a histria 
forma dramtica e  forma trgica? A tragdia, a comdia
e o drama so trs formas distintas, de ndole diversa; mas
quando o poeta, seja trgico, dramtico ou cmico, vai
estudar no passado os modelos histricos, uma nica lei
deve gui-lo a mesma lei que o deve guiar no estudo da
natureza e essa lei impe-lhe o dever de alterar, segundo
os preceitos da boa arte, a realidade da natureza e da
histria. Quando, h tempos apreciamos nesta folha a
ultima produo do Sr. Mendes Leal, tivemos ocasio de
desenvolver este pensamento, alis corrente e conhecido;
aplaudimos na obra do poeta portugus a aplicao
perfeita deste dever indispensvel, sem o qual, como
escreve o escritor citado pelo Sr. Dr. Magalhes, Vtor
Cousin, desce-se da classe dos artistas.
Mas isto nos levaria longe, o espao de que dispomos hoje
 em extremo acanhado. As duas tragdias do Sr. Dr.
Magalhes merecem, apesar das imperfeies que nos
122
parece haver nelas, uma apreciao mais detida e
aprofundada. Em todo o caso, o nosso pensamento a fica
expresso e claro, embora em resumo. Reconhecendo os
servios do poeta em relao  arte dramtica, o bom
exemplo que deu, a conscincia com que procurou haverse
no desempenho de uma misso toda voluntria, nem
por isso lhe ocultaremos que, aos nossos olhos, as suas
tendncias no so dramticas; isto posto, crescem de
vulto as belezas das suas peas, do mesmo modo que lhe
diminuem a imperfeies.
Abandonando o coturno de Melpmene o poeta consultou o
interesse da sua glria. Que ele nos cante de novo os
desesperos, as aspiraes, os sentimentos da alma, na
forma essencialmente sua, com a lngua que lhe  prpria.
O escritor, ainda novel e inexperiente, que assina estas
linhas balbuciou a poesia, repetindo as pginas dos
Suspiros e Saudades e as estrofes melanclicas dos
Mistrios; para ele, o Sr. Dr. Magalhes no vale menos,
sem Antnio Jos e Olgiato.
[14] O TEATRO DE JOS DE ALENCAR
I
UMA GRANDE parte das nossas obras dramticas apareceu
neste ltimo decnio, devendo contar-se entre elas as
estrias de autores de talento e de reputao, tais como os
Srs. Conselheiro Jos de Alencar, Quintino Bocaiva,
Pinheiro Guimares e outros. O Sr. Dr. Macedo apresentou
ao pblico, no mesmo perodo, novos dramas e comdias,
e estava obrigado a faz-lo, como autor d'O Cego e do
Cob. Desgraadamente, causas que os leitores no
ignoram fizeram cessar  entusiasmo de uma poca que
deu muito, e prometia mais. Deveremos citar entre essas
causas a seduo poltica? No h um, dos quatro nomes
citados, que no tenha cedido aos requebros da deusa, uns
na imprensa, outros na tribuna. Ora, a poltica que j nos
absorveu. entre outros, trs brilhantes talentos poticos, o
Sr. Conselheiro Otaviano, o Sr. Senador Firmino, o Sr.
conselheiro Jos Maria do Amaral, ameaa fazer novos
raptos na famlia das musas. Parece-nos, todavia, que se
podem conciliar os interesses da causa pblica e da causa
123
potica. Basta romper de uma vez com o preconceito de
que no cabem na mesma fronte os louros da Fcion e os
louros de Virglio. Por que razo o poema indito do Sr.
Conselheiro Amaral e as poesias soltas do Sr. Conselheiro
Otaviano no fariam boa figura ao lado dos seus despachos
diplomticos e dos seus escritos polticos? At que ponto
deve prevalecer um preconceito que condena espritos
educados em boa escola literria ao cultivo clandestino das
musas?
Felizmente, devemos reconhec-lo, vai-se rompendo a
pouco e pouco com os velhos hbitos. O Sr. Dr. Macedo.
que ocupa um lugar na poltica militante, publicou h
tempos um romance; o Sr. Dr. Pedro Lus no hesita em
compor uma ode, depois de proferir um discurso na
Cmara; o Sr. Conselheiro Alencar que, apesar de retirado
da cena poltica, ser mais tarde ou mais cedo chamado a
ela, enriqueceu a lista dos seus ttulos literrios. Que
nenhum deles esmorea nestes propsitos;  um servio
que a posteridade lhes agradecer.
Desculpem-nos se h ingenuidade nestas reflexes; nem
nos levem a mal se assumimos por este modo a
promotoria do Parnaso, fazendo um libelo contra a
repblica. Contra, no; mesmo que pregssemos o divrcio
das musas e da poltica, ainda assim no conspirvamos
em desfavor da sociedade; de qualquer modo  servi-la, e
a histria nos mostra que, aps um longo perodo de
sculos,  principalmente a musa de Homero que nos faz
amar a ptria de Aristides.
Dos recentes poetas dramticos a que nos referimos no
comeo deste artigo,  o Sr. Alencar um dos mais fecundos
e laboriosos. Estreou em 1857, com uma comdia em dois
atos, Verso e Reverso. A primeira representao foi
anunciada sem nome de autor, e os aplausos com que foi
recebida a obra animaram-lhe a vocao dramtica; da
para c escreveu o autor uma srie de composies que,
lhe criaram uma reputao verdadeiramente slida. Verso
e Reverso foi o prenncio; no  decerto uma composio
de longo flego;  uma simples miniatura, fina e elegante,
uma coleo de episdios copiados da vida comum, ligados
todos a uma verdadeira idia de poeta. Essa idia 
simples; o efeito do amor no resultado das Impresses do
124
homem. Aos olhos do protagonista, no curto intervalo de
trs meses, o mesmo quadro aparece sob um ponto de
vista diverso; comea por achar no Rio de Janeiro um
inferno, acaba por ver nele um paraso; a influncia da
mulher explica tudo. Dizer isto  contar a comdia; a ao,
de extrema simplicidade, no tem complicados enredos;
mas o interesse mantm-se de princpio a fim, atravs de
alguns episdios interessantes e de um dilogo, vivo e
natural.
Verso e Reverso no se recomenda s por essas
qualidades, mas tambm pela fiel pintura de alguns hbitos
e tipos da poca; alguns deles tendem a desaparecer,
outros desapareceram e arrastariam consigo a obra do
poeta, se ela no contivesse os elementos que guardam a
vida, mesmo atravs das mudanas do tempo. Aquela
comdia que encerra todo o autor d'As Asas de um Anjo,
mas j se deixa ver ali a sua maneira, o seu estilo, o seu
dilogo, tudo quanto representa a sua personalidade
literria, extremamente original, extremamente prpria. H
sobretudo um trao no talento dramtico do Sr. Alencar,
que j ali aparece de uma maneira viva e distinta;  a
observao das coisas, que vai at as menores
minuciosidades da vida, e a virtude do autor resulta dos
esforos que faz por no fazer cair em excesso aquela
qualidade preciosa.  sem dvida necessrio que uma obra
dramtica. para ser do seu tempo e do seu pas, reflita
uma certa parte dos hbitos externos, e das condies e
usos peculiares da sociedade em que nasce; mas alm
disto, quer a lei dramtica que o poeta aplique o valioso
dom da observao a uma ordem de idias mais elevadas e
 isso justamente o que no esqueceu o autor d'O Demnio
Familiar. O quadro do Verso e Reverso era restrito demais
para empregar rigorosamente esta condio da arte; e
todavia a comdia h de merecer a ateno dos
espectadores, ainda quando desapaream completamente
da sociedade fluminense os elementos postos em jogo pelo
autor; e isso graas a trs coisas: ao pensamento capital
da pea, ao desenho feliz de alguns caracteres, e s
excelentes qualidades do dilogo.
Verso e Reverso deveu o bom acolhimento que teve, no
s aos seus merecimentos, seno tambm  novidade da
forma. At ento a comdia brasileira no procurava os
125
modelos mais estimados; as obras do finado Pena, cheias
de talento e de boa veia cmica, prendiam-se intimamente
s tradies da farsa portuguesa, o que no  desmereclas,
mas defini-las; se o autor d'O Novio vivesse, o seu
talento, que era dos mais auspiciosos, teria acompanhado
o tempo, e consorciaria os progressos da arte moderna s
lies da arte clssica.
Verso e Reverso no era ainda a alta comdia, mas era a
comdia elegante; era a sociedade polida que entrava no
teatro, pela mo de um homem que reunia em si a
fidalguia do talento e a fina cortesia do salo.
A alta comdia apareceu logo depois, com O Demnio
Familiar. Essa  uma comdia de maior alento; o autor
abraa a um quadro mais vasto. O demnio da comdia, o
moleque Pedro,  o Fgaro brasileiro, menos as intenes
filosficas e os vestgios polticos do outro. A introduo de
Pedro em cena oferecia graves obstculos; era preciso
escapar-lhes por meios hbeis e seguros. Depois, como
apresentar ao esprito do espectador o carter do intrigante
domstico, mola real da ao, sem faz-lo odioso e
repugnante? At que ponto fazer rir com indulgncia e bom
humor das intrigas do demnio familiar? Esta era a
primeira dificuldade do carter e do assunto. Pelo resultado
j sabem os leitores que o autor venceu a dificuldade,
dando ao moleque Pedro as atenuantes do seu
procedimento, at levant-lo mesmo ante a conscincia do
pblico.
Primeiramente, Pedro  o mimo da famlia, o enfant gt,
como diria a viajante Azevedo; e nisso pode-se ver desde
logo um trao caracterstico da vida brasileira. Colocado em
uma condio intermediria, que no  nem a do filho nem
a do escravo, Pedro volta e abusa de todas as liberdades
que lhe d a sua posio especial; depois, como abusa ele
dessas liberdades? por que serve de portador s cartinhas
amorosas de Alfredo? por que motivo compromete os
amores de Eduardo por Henriqueta, e tenta abrir as
relaes de seu senhor com uma viva rica? Uma simples
aspirao de pajem e cocheiro; e aquilo que noutro
repugnaria  conscincia dos espectadores, acha-se
perfeitamente explicado no carter de Pedro. Com efeito,
no se trata ali de dar um pequeno mvel a uma srie de
126
aes reprovadas; os motivos do procedimento de Pedro
so realmente poderosos se atendermos a que a posio
sonhada pelo moleque, est de perfeito acordo com o
crculo limitado das suas aspies, e da sua condio de
escravo; acrescente-se a isto a ignorncia, a ausncia de
nenhum sentimento do dever, e tem-se a razo da
indulgncia com que recebemos as intrigas do Fgaro
fluminense.
Parece-nos ter compreendido bem a significao do
personagem principal dO Demnio Familiar; esta foi, sem
dvida, a srie de reflexes feitas pelo autor para
transportar ao teatro aquele tipo eminentemente nosso.
Ora, desde que entra em cena at o fim da pea, o carter
de Pedro no se desmente nunca:  a mesma vivacidade, a
mesma ardileza, a mesma ignorncia do alcance dos seus.
atos; se de certo ponto em diante, cedendo s
admoestaes do senhor, emprega as mesmas armas da
primeira intriga em uma nova intriga que desfaa aquela,
esse novo trao  o complemento do tipo. Nem  s isso:
delatando os clculos de Vasconcelos a respeito do
pretendente de Henriqueta, Pedro usa do seu esprito
enredador, sem grande conscincia nem do bem nem do
mal que pratica; mas a circunstncia de desfazer um
casamento que servia aos interesses de dois especuladores
d aos olhos do espectador uma lio verdadeiramente de
comdia.
O Demnio Familiar apresenta um quadro de famlia, com o
verdadeiro cunho da famlia brasileira; reina ali um ar de
convivncia e de paz domstica, que encanta desde logo;
s as intrigas de Pedro transtornam aquela superfcie:
corre a ao ligeira, interessante, comovente mesmo,
atravs de quatro atos, bem deduzidos e bem terminados.
No desfecho da pea, Eduardo d a liberdade ao escravo,
fazendo-lhe ver a grave responsabilidade que desse dia em
diante deve pesar sobre ele, a quem s a sociedade pedir
contas. O trao  novo, a lio profunda. No supomos que
o Sr. Alencar d s suas comedias um carter de
demonstrao; outro  o destino da arte; mas a verdade 
que as concluses dO Demnio Familiar, como as
concluses de Me, tm um carter social que consolam a
conscincia ambas, as peas, sem sarem das condies da
127
arte, mas pela prpria pintura dos sentimentos e dos fatos,
so um protesto contra a instituio do cativeiro.
Em Me  a escrava que se sacrifica  sociedade, por amor
do filho; n'O Demnio Familiar,  a sociedade que se v
obrigada a restituir a liberdade ao escravo delinqente.
A pea acaba, sem abalos nem grandes peripcias, com a
volta da a paz da famlia e da felicidade geral. All is well
that ends well, como na comdia de Shakespeare.
No entramos nas mincias da pea; apenas atendemos
para o que ela apresenta de mais geral e mais belo; e
contudo no falta ainda que apreciar n'O Demnio Familiar,
como, por exemplo, os tipos de Azevedo e de Vasconcelos,
as duas amigas Henriqueta e Carlotinha, to brasileiras no
esprito e na linguagem, e o carter de Eduardo, nobre,
generoso, amante. Eduardo sonha a famlia, a mulher, os
hbitos domsticos, pelo padro da famlia dele e dos
costumes puros de sua casa. Mais de uma vez enuncia ele
os seus desejos e aspiraes, e  para agradecer a
insistncia com que o autor faz voltar, o esprito do
personagem para esse assunto.
"A sociedade, diz Eduardo, isto , a vida exterior, ameaa destruir a
famlia, isto , a vida interior."
A esta frase acrescentaremos este perodo:
A mulher moderna, diz Madama d'Agout, vive em um centro, que no 
nem o ar grave da matrona romana, nem a morada aberta e festiva da
cortes grega, mas uma coisa intermediria que se chama sociedade,
isto , a reunio sem objeto de espritos ociosos, sujeitos s
prescries de uma moral que pretende em vo conciliar as diverses
de galanteria com os deveres da famlia.
H, sem dvida, mais coisas a dizer sobre a excelente
comdia do Sr. Jos de Alencar; no nos falta disposio,
mas espao; nesta tarefa de apreciao literria h
momentos de verdadeiro prazer;  quando se trata de um
talento brilhante e de uma obra de gosto. Quando podemos
achar uma dessas ocasies  s com extremo pesar que
no a aproveitamos toda.
128
Guardamos para outro artigo a apreciao das demais
obras do distinto autor d'O Demnio Familiar.
II
A reabilitao da mulher perdida, tal foi durante muito
tempo a questo formulada e debatida no romance e no
teatro. Negavam uns afirmavam outros, dividiam-se os
nimos, traavam-se campos Opostos; e durante uma
larga poro de tempo a herona do dia oscilou entre as
gemnias e o Capitlio.
No tem conta a soma de talento empregado nesse
debate, e realmente de invejar o esplendor de muitos
nomes que figuraram nele. Mas, quaisquer que fossem os
prodgios de inveno da parte dos poetas, no era
possvel fugir ao menor dos inconvenientes do assunto,
que era a monotonia.
Era o menor, porque a maior estava na coisa em si, na
prpria escolha do assunto, na pintura da sociedade que se
trasladava para a cena. Que a concluso fosse afirmativa
ou negativa, pouco importa em matria de arte. O certo 
que muitos espritos delicados no Puderam fugir 
tentao; e para atestar que a tentao era grande, basta
lembrar dois nomes, um nosso, outro estranho: o autor do
Casamento de Olmpia, e o autor d'As Asas de um Anjo.
Nenhum deles concluiu pela afirmativa; as suas intenes
morais eram boas, as suas idias ss; mas os costumes e
os caracteres escolhidos como elementos das suas peas
eram os mesmos que estavam em voga, e de qualquer
modo, aplaudindo ou condenando, eram sempre os
mesmos heris que figuravam na cena. S havia de mais o
lustre de dois nomes estimados.
Depois de escrever O Demnio Familiar, comdia
excelente, como estudo de costumes e de caracteres, quis
o Sr. Conselheiro Jos de Alencar dizer a sua palavra no
debate do dia. Nisto, o autor d'As Asas de um Anjo no
cedia somente  seduo do momento, formulava tambm
uma opinio;  arriscado estar em desacordo com uma
inteligncia to esclarecida, porque  arriscar-se a estar
em erro; no foi, porm, sem detido exame que adotamos
uma opinio contrria  do ilustre escritor. A nossa
129
divergncia  de ponto de vista; pode a verdade no estar
da parte dele; mas, qualquer que seja a maneira por que
encaremos a arte, h uma de encarar o talento do autor.
 evidente que a comdia As Asas de um Anjo no conclui
pela afirmativa de tese to celebrada; e foi o que muita
gente no quis ver. A idia da pea est contida em
algumas palavras do personagem Meneses; Carolina
exprime a punio dos pais, que descuraram a sua
educao moral; do sedutor que a arrancou do seio da
famlia, do segundo amante que a acabou de perder.
O eplogo da pea  o casamento de Carolina; mas quem
v a sua reabilitao moral? Casamento quase clandestino,
celebrado para proteger uma menina, filha dos erros de
uma unio sem as douras de amor nem a dignidade de
famlia,  isto acaso um ato de regenerao? No, o autor
d'As Asas de um Anjo no quis restituir a Carolina os
direitos morais que ela perdera. Mas isto, que  o
desenlace de uma situao dada, no nos parece que
justifique essa mesma situao. O que achamos reparvel
na comdia As Asas de um Anjo no  o desenlace, que
nos parece lgico,  a situao de que nasce o desenlace; 
o assunto em si.
O que nos parece menos aceitvel  o que constitui o fundo
e o quadro da comdia; no h dvida alguma de que a
pea e cheia de interesses e de lances dramticos; a
Inveno  original, apesar do cansao do assunto; mas o
que sentimos  precisamente isso;  uma soma to
avultada de talento e de percia empregada em um
assunto, que, segundo a nossa opinio, devia ser excludo,
da cena.
A teoria aceita e que presidiu antes de tudo ao gnero de
peas de que tratamos  que, pintando os costumes de
uma classe parasita e especial, conseguir-se-ia melhor-la
e influir-lhe o sentimento do dever. Pondo de parte esta
questo da correo dos costumes por meio do teatro.
coisa duvidosa para muita gente, perguntaremos
simplesmente se h quem acredite que as Mulheres de
Mrmore, o Mundo do Equvoco, o Casamento de Olmpia e
As Asas de um Anjo chegassem a corrigir uma das Marias e
das Paulinas da atualidade. A nossa resposta  negativa; e
130
se as obras no serviam ao fim proposto, serviriam acaso
de aviso  sociedade honesta? Tambm no pela razo
simples de que a pintura do vcio nessas peas (exceo
feita d'As Asas de um Anjo)  feita com todas as cores
brilhantes, que seduzem, que atenuam, que fazem quase
do vcio um resvalamento reparvel. Isto, no ponto de
vista dos chefes da escola, se h escola; mas que diremos
ns, prevalecendo a doutrina contrria, a doutrina da arte
pura, que isola o domnio da imaginao, e tira do poeta o
carter de tribuno?
Vindo depois d'O Demnio Familiar, As Asas de um Anjo
encerram muitas das qualidades do autor, revelando
sobretudo as tendncias dramticas, to pronunciadas
como as tendncias cmicas dO Demnio Familiar e do
Verso e Reverso. No empenho de no poupar nenhuma das
angstias que devem acometer a mulher perdida da sua
peca, o autor no hesitou em produzir a ltima cena do 4
ato. O efeito  terrvel, o contraste medonho; mas,
consinta-nos o ilustre poeta uma declarao franca: a cena
 demasiado violenta sem satisfazer os seus intuitos;
aquele encontro do pai e da filha no altera em nada a
situao desta, no lhe aumenta o horror, no lhe cava
maior abismo; e contudo o corao do espectador sente-se
abalado no pelo efeito que o autor teve em vista, mas por
outro que resulta da inconvenincia do lance, e dos
sentimentos que ele inspira.
Faremos ainda um reparo, e ser o ltimo. Carolina que,
segundo a frase de Meneses exprime a punio dos pais e
dos seus corruptores, se pune a estes com justia, aplica
aos pais uma punio demasiado severa. Diz Meneses que
eles no cuidaram da educao moral da filha; mas desta
circunstncia no existe vestgio algum na pea a no ser a
assero de Meneses; o primeiro ato apresenta um aspecto
de paz domstica, de felicidade, de pureza, que contrasta
vivamente com a fuga da moa, sem que aparea o menor
indcio dessa
atenuante, se pode haver atenuante para o ato de
Carolina.
O Sr. Conselheiro Jos de Alencar, logo depois dos
acontecimento que ocorreram por ocasio d'As Asas de um
Anjo, declarou que quebrava a pena e fazia dos pedaos
131
uma cruz. Declarao de poeta que um carinho da musa
fez esquecer mais tarde. s As Asas de um Anjo sucedeu
um drama, a que o autor intitulou Me. O contraste no
podia ser maior; saamos de uma comdia que contrariava
o nossos sentimentos e as nossas idias, e assistamos ao
melhor de todos os dramas nacionais at hoje
representados; estvamos diante de uma obra
verdadeiramente dramtica, profundamente humana bem
concebida, bem executada, bem concluda. Para quem
estava acostumado a ver no Sr. Jos de Alencar o chefe da
nossa literatura dramtica, a nova pea resgatava todas as
divergncias anteriores.
Se ainda fosse preciso inspirar ao povo o horror pela
instituio do cativeiro, cremos que a representao do
novo drama do Sr. Jos de Alencar faria mais do que todos
os discursos que se pudesse proferir no recinto do corpo
legislativo, e isso sem que Me seja um drama
demonstrativo e argumentador, mas pela simples
impresso que produz no esprito do espectador, como
convm a uma obra de arte. A maternidade na mulher
escrava, a me cativa do prprio filho, eis a situao da
pea. Achada a situao, era preciso saber apresent-la,
conclu-la; tornava-se preciso tirar dela todos os efeitos,
todas as conseqncias, todos os lances possveis; do
contrrio, seria desvirgin-la sem fecund-la. O autor no
s o compreendeu, como o executou com uma conscincia
e uma inspirao que no nos cansamos de louvar.
Vejamos o que  essa me. Joana, estando ainda com o
seu primeiro senhor, teve um filho que foi perfilhado por
um homem que a comprou, apenas nascido o menino.
Morreu esse, instituindo o rapaz como seu herdeiro; nada
mais fcil a Joana do que descobrir ao moo Jorge o
mistrio do seu nascimento. Mas ento onde estava a
herona? Joana guarda religiosamente o segredo e encerrase
toda na obscuridade da sua abnegao, com receio de
que Jorge venha desmerecer diante da sociedade, quando
se conhecer a condio a raa de sua me. Ela no indaga,
nem discute a justia de semelhante preconceito; aceita-o
calada e resignada, mais do que isso, feliz; porque o
silncio assegura-lhe, mais que tudo, a estima e a ventura
de Jorge. At aqui j o sacrifcio era grande; mas cumpria
que fosse imenso. Quando Jorge. para salvar o pai da
132
noiva, precisa de uma certa soma de dinheiro Joana rasga
a carta de liberdade dada anteriormente por Jorge e
oferece-se em holocausto a necessidade do moo; 
hipotecada. Mas os acontecimentos precipitam-se; o Dr.
Lima, nico que sabia do nascimento de Jorge, sabe da
hipoteca de Joana, feita por um ttulo de venda simulada, e
profere essa frase tremenda, que faz estremecer de
espectadores: "Desgraado, tu vendeste tua me!"
Descoberto o segredo, Joana no hesita sobre o que deve
fazer; teme pelo filho, e no quer lanar a menor sombra
na sua felicidade: escrpulo tocante, de que resulta o
suicdio. Tal  a peripcia deste drama, onde o pattico
nasce de uma situao pungente e verdadeira.
No diremos, uma por uma, todas as belas cenas deste
drama to superior; demais, seria intil, pois que ele anda
nas mos de todos. Uma dessas cenas  aquela em que
Joana, para salvar o futuro sogro do filho, e portanto a
felicidade dele, procura convencer ao usurrio Peixoto de
que deve socorrer o moo, sobre a sua hipoteca pessoal.
Nada mais pungente; sob aquele dilogo familiar, palpita o
drama, aperta-se o corao, arrasam-se os olhos de
lgrimas. Se Joana e a personagem mais importante da
pea, nem por isso as outras deixam de inspirar verdadeiro
interesse, sobretudo Jorge e Elisa, criatura frgil, e
delicada, que produz inocentemente uma situao, como
causa indireta do holocausto a que se oferece Joana.
No pode haver dvida de que  esta a pea capital do Sr.
Jos de Alencar: paixo, interesse, originalidade, um
estudo profundo do corao humano, mais do que isso, do
corao materno, tudo se rene nesses quatro atos, tudo
faz desta pea uma verdadeira criao. Desde ento os
louros de poeta dramtico floresceram na fronte do autor
entrelaados aos louros de poeta cmico. Villemain observa
que a reunio dessas duas faces da arte teatral nos
mesmos indivduos  um sintoma das pocas decadentes;
se esta regra  verda-deira, no pode deixar de ser
confirmada pela exceo; e a exceo  decerto nossa
poca, no Brasil, poca que mal comea, mas j se ilustra
com algumas obras de mrito e de futuro.
133
Resta-nos pouco para completar o estudo das obras
teatrais do Sr. Jos de Alencar, cujo lugar nas letras
dramticas estaria definido, mesmo que no houvesse
dado O Demnio Familiar, isto , a alta expresso dos
costumes domsticos, e Me, isto , a imagem augusta da
maternidade.
III
A extinta companhia do Ateneu Dramtico representou
durante algumas noites uma pea annima, intitulada O
que  o Casamento? O autor, apesar de ser a obra bem
recebida, no apareceu, nem ento, nem depois; mas o
pblico, que  dotado de uma admirvel perspiccia,
atribui a pea ao Sr. J. de Alencar, e a coisa passou em
julgado. Ser temeridade da nossa parte repetir o juzo do
pblico? O que  o Casamento? rene todos os caracteres
do estilo e do sistema dramtico do autor d'As Asas de um
Anjo; entre aquela pea e as outras do mesmo autor h
uma semelhana fisionmica que no pode passar
despercebida aos olhos da crtica. E atribuindo ao Sr. J. de
Alencar a comdia em questo, no fazemos s um ato de
justia, resolvemos naturalmente uma questo, que seria
insolvel no caso de ser outro o autor da comdia, porque
ento onde iramos buscar um Drmio de Atenas para opor
a este Drmio de feso? Quem seria esse gmeo literrio
to gmeo que pareceria, no outro homem, mas a metade
deste, a sua parte complementar? O meio simples de
resolver a dvida  dar a uma rf to bela um pai to
distinto.
O que  o casamento? pergunta o autor, e a pea  a
resposta desta interrogao. Para compreender bem o
ttulo e cas-lo  peca,  preciso ter em vista que nem a
pergunta nem a resposta podem ter carter absoluto. O
casamento  a confiana recproca, tal  a concluso de
Miranda, em dilogo com Alves; e uma situao
inesperada, uma situao fatal, que envolve a honra da
esposa, embora inocente e pura, faz apagar no esprito do
marido o mesmo sentimento em que, segundo ele, deve
repousar a paz domstica. No  isto bastante para indicar
que o autor no quis tirar concluses gerais? O autor
imaginou uma situao dramtica: desenvolveu-a,
concluiu-a. H a uma parte que pertence  ao dos
134
sentimentos, e outra que pertence um pouco  ao do
acaso, mas desse acaso que , por assim dizer, o resultado
de um grupo de circunstncias. A pea rola sobre um caso
de adultrio suposto, adultrio que seria igualmente um
fratricdio, Pois que  o prprio irmo de Miranda quem
levanta os olhos para a esposa dele. A pea convida desde
princpio toda a ateno do espectador; Henrique vem
despedir-se de Isabel, pedindo-lhe perdo do sentimento
que alimentou, e que ainda o domina; intervm o marido,
Henrique foge; o marido ouve as palavras de Isabel assaz
ambguas para destruir todo o sentimento de conversa.
Uma flor, que pouco antes estivera no peito de Sales, 
encontrada pelo marido no cho; faz-lhe crer que  aquele
gamenho ridculo o assassino da sua desonra. Miranda
torna uma deciso extrema; quer matar a esposa. O grito
da filha evita aquele crime.
Tal  o ponto de partida desta pea. Colocada entre o
interesse da sua honra e o interesse do irmo do marido.
Isabel sacrifica-se e aceita a situao criada por um erro
que no  seu. Esta abnegao, que faz de Isabel uma
verdadeira herona. aumenta de muito o interesse da peca,
torna mais profunda a comoo dramtica. A cada passo
espera-se ouvir da esposa infeliz a narrao fiel dos fatos,
mas ela mantm-se na sua sublime reserva. Demais, a
situao agravou-se depois da entrevista fatal; Henrique,
amado j por Clarinha, irm de Isabel, aparece casado. no
2 ato, e esse casamento foi menos por corresponder s
aspiraes da moa, do que por achar um refgio ao
prprio sofrimento. Mas estes dois casais vivem em
perfeita separao de cnjuges; Isabel e Miranda so dois
estranhos em casa, ligados apenas pelo vnculo de uma
inocente menina; Henrique e Clarinha vivem igualmente
separados, e se a mocidade, a alegria, a leviandade
mesmo de Clarinha, consegue dar  sua situao um
aspecto menos sombrio, nem por isso Henrique escapa aos
remorsos que o pungiam, e o trazem sempre longe da
esposa.
Precipitam-se os acontecimentos; Miranda, depois de
ultimar os negcios de restituir os bens de Isabel, anuncialhe
que vai partir para a Europa; lembra-lhe que ela
precisa da sua reputao, se no para si, nem para o
marido, ao menos para -a filha, que no tem culpa no
135
crime que ele lhe supe. Entretanto, como esta cena tem
lugar em Petrpolis, Miranda anuncia que vem  corte;
despede-se;  nesse intervalo que Henrique pode
conversar algum tempo a ss com Isabel, a quem interroga
sobre a frieza que nota h muito entre ela e o marido.
Henrique faz ainda novos protestos de modo a salvar a
honra de Isabel, que ele to desastradamente
comprometera. Miranda, que tem voltado para vir buscar
uma carta, ouve o dilogo. Perdoa a Henrique, e pede
perdo  mulher.
Neste resumo, em que suprimimos muita coisa, alis
incontveis belezas, pode ver-se a altura dramtica da
ltima pea do Sr. J. de Alencar.  certo que o desenlace,
que um acaso precipita, seria talvez melhor se nascesse do
prprio remorso de Henrique. uma vez sabida por ele a
situao domstica de Isabel. O perdo de Miranda
arrancado pela confisso sincera e ingnua do irmo,
levantaria muito mais o carter do moo, alis simptico e
humano. Mas fora deste reparo, que a estima pelo autor
arranca  nossa pena, a pea do Sr. J. de Alencar  das
mais dramticas e das mais bem concebidas do nosso
teatro. O talento do autor, valente de si, robustecido pelo
estudo, conseguiu conservar o mesmo interesse, a mesma
vida, no meio de urna situao sempre igual, de uma crise
domstica, abafada e oculta.
A cor local  uma das preocupaes do autor d'O Demnio
Familiar e a habilidade dele est em distribuir as suas
tintas de acordo com o resto do quadro evitando o
sobrecarregado, o intil, o descabido. H nesta pea dois
escravos, Joaquim e Rita; rompido os vnculos morais entre
Miranda e Isabel, os dois escravos, educados na confiana
e na intimidade de famlia, tornam-se os naturais
confidentes de ambos, mas confidentes nulos, inspirando
apenas uma meia confiana.  por eles que aquelas duas
criaturas procuram saber das necessidades uma da outra,
minorar quanto possam a desolao comum.
Bem estudado, isto  ainda um resto de amor da parte do
marido, um sinal de estima da parte da mulher.
Henrique, entregue a punio do seu prprio
arrependimento, acha-se mais tarde em situao igual  do
136
irmo, o que acrescenta  pea um episdio interessante,
intimamente ligado  pea, sendo mesmo um complemento
dela. Clarinha, cortejada por Sales, aproveita um pedido de
entrevista do gamenho, para reanimar a afeio de
Henrique; este estratagema leviano produz uma cena
violenta e uma situao trgica. A perspiccia do drama
salva tudo.
Tanto quanto rios permite a estreiteza do espao, eis em
resumo o drama do Sr. J. de Alencar, drama interessante,
bem desenvolvido e lgico.  igualmente uma pintura da
famlia, feita com aquela observao que o Sr. Alencar
aplica sempre aos costumes privados. Caracteres
sustentados, dilogo natural e vivo, estudo aplicado de
sentimentos.
Alm das peas do autor, que temos apreciado at hoje,
uma h, que subiu  cena no Ginsio, O Crdito. No
tivemos ocasio de v-la, nem a comdia est impressa. O
assunto, como indica o ttulo,  da mais alta importncia
social; e o autor, pela reminiscncia que nos ficou dos
artigos do tempo, soube tirar dele to-somente aquilo que
entrava na esfera de uma comdia. Folgaramos de ver
impressa a obra do ilustre autor d'As Asas de um Anjo.
Limitamo-nos, porm, a mencion-la, e bem assim duas
peas mais que nos consta existir na pasta, sempre cheia,
do autor: O Jesuta e A Expiao.
Como dissemos.  o Sr. J. Alencar um dos mais fecundos e
brilhantes talentos da mocidade atual; possui sobretudo
duas qualidades to raras quanto preciosas; o gosto e o
discernimento, duas qualidades que completavam o gnio
de Garrett. Nem sempre estamos de acordo com o distinto
escritor: j manifestamos as nossas divergncias pelo que
diz respeito a As Asas de um Anjo; do mesmo modo
dizemos que algumas vezes a fidelidade do autor na
pintura dos costumes vai alm do limite que, em nossa
opinio, deve estar sempre presente aos olhos do poeta;
nisso segue o autor uma opinio diversa da nossa; mas,
fora dessa divergncia de ponto de vista, os nossos
aplausos ao autor da Me e d'O Demnio Familiar so
completos e sem reserva. A posio que alcanou, como
poeta dramtico, impe-lhe a obrigao de enriquecer com
outras obras a literatura nacional.
137
Estamos certos de que o far; qualquer que seja a situao
da cena brasileira; para os talentos conscienciosos, o
trabalho  um dever; e quando a realidade do presente
desanima, voltam-se os olhos para as esperanas do
futuro. No autor d'O Demnio Familiar estas esperanas
so legtimas.
[15] O TEATRO DE JOAQUIM MANUEL DE MACEDO
I
O Cego e O Cob, do Sr. Dr. Macedo, apesar das belezas
que lhe reconhecemos, no tiveram grande aplauso
pblico. Mas Lusbela e Luxo e Vaidade compensaram
largamente o poeta; representados por longo espao no
Ginsio desta corte, foram levados  cena em alguns
teatros de provncia, onde o vate fluminense encontrou um
eco simptico e unnime. Se mencionamos este fato  para
lembrar ao autor, que o bom caminho no  o da Lusbela e
Luxo e Vaidade, mas o d'O Cego e d'O Cob. Estas duas
peas, apesar dos reparos que lhes fizemos e dos graves
defeitos que contm, exprimem um talento dramtico de
certo vigor e originalidade; no assim as outras que caem
inteiramente fora do caminho encetado pelo autor; essas
no se recomendam, nem pela originalidade da concepo,
nem pela correo dos caracteres, nem pela novidade das
situaes. Quando parecia que os anos tinham dado ao
talento dramtico do autor aqueles dotes que se no
alcanam sem o tempo e o estudo, apareceram as duas
peas do Sr. Dr. Macedo, manifestando, em vez do
progresso esperado, um regresso imprevisto. Para os que
amam as letras, esse regresso foi uma triste decepo.
No nos pesa diz-lo ao autor d'A Nebulosa, pesar-nos-ia
afirmar o contrrio, porque seria esconder-lhe a nossa
convico profunda; e longe de servi-lo, contribuiramos
para estas reincidncias fatais  boa fama do seu nome. O
poeta Terncio faz uma observao exata quando lembra
que a mentira faz amigos e a verdade adversrios;
respeitamos a convico dos amigos do poeta, mas no
temos a mesma convico; e  por no t-la que nos
vemos obrigados a contrariar idias recebidas, mesmo com
138
risco de sermos inscritos entre os adversrios do distinto
escritor.
Luxo e Vaidade  anterior a Lusbela; como se v do ttulo,
a pea tem por fim estigmatizar a vaidade e o luxo. O luxo
tem sido constante objeto da indignao dos filsofos; e j
nas cmaras francesas, no h muito, o Senador Dupin e o
Deputado Pelletan fizeram ouvir as suas vozes contra essa
chaga da sociedade; se aludimos a dois discursos tratando
da pea do Sr. Dr. Macedo,  no s pela identidade do
assunto, mas at pela semelhana da forma, entre os
discursos e a pea. Luxo e Vaidade, se no tem movimento
dramtico, tem movimento oratrio; o personagem
Anastcio, como ele prprio confessa, adquiriu desde moo
o gosto de fazer sermes, e se excetuarmos alguns mais
familiares, o velho mineiro atravessa o drama em perptua
preleo. Este carter cicernico da pea  a expresso de
uma teoria dramtica do Sr. Dr. Macedo dissemos que o
autor dO Cego no professa escola alguma, e  verdade; 
realista ou romntico sem preferncia, conforme se lhe
oferece a ocasio; mas, independentemente deste
ecletismo literrio, v-se que o autor tem uma teoria
dramtica de que usa geralmente. Estamos convencido de
que o teatro corrige os costumes, entende o autor, e no
se acha isolado neste conceito, que a correo deve
operar-se pelos meios oratrios e no pelos meios
dramticos ou cmicos. A moral do teatro, mesmo
admitindo a teoria da correo dos costumes, no  isso:
os deveres e as paixes na poesia dramtica no se
traduzem por demonstrao, mas por impresso. Quando o
Sr. Jos de Alencar trouxe para a cena o grave assunto da
escravido, no fez inserir na sua pea largos e folgados
raciocnios contra essa fatalidade social; imaginou uma
situao, fazendo atuar nela os elementos poticos que a
natureza humana e o estado social lhe ofereciam; e
concluiu esse drama comovente que toda a gente de gosto
aplaudiu. Este e outros exemplos no devia esquec-los o
autor de Luxo e Vaidade.
As duas peas de que tratamos, Luxo e Vaidade e Lusbela
idnticas neste ponto, assemelham-se em tudo mais. Em
ambas  uma inveno pobre, situaes gastas, lances
forados, caracteres ilgicos e incorretos. Acrescentemos
que a ao em ambas as peas  laboriosamente
139
complicada, desenvolvendo-se com dificuldade no meio de
cenas mal ligadas entre si. Finalmente, a qualidade to
louvada no Sr. Dr. Macedo de saber pintar as paixes, se
podia ser confirmada, com reservas, nos seus primeiros
dois dramas, no pode s-lo nos ltimos; provavelmente
os que assim julgam confundem, como dissemos, o
sentimento e o vocabulrio; a reunio de algumas palavras
enrgicas e sonoras, em perodos mais ou menos cheios,
no supe um estudo das paixes humanas. O rudo no 
a eloqncia.
Todos conhecem o Luxo e Vaidade;  intil referirmos a
marcha da pea. A primeira coisa que lhe falta  a
inveno; o assunto, j explorado em teatro, podia talvez
oferecer efeitos e estudos novos, e s com esta condio
que o poeta devia tratar dele. Que estudos, que efeitos,
que combinaes achou no assunto? A novidade  s
aquela que repugna  lgica dos caracteres; por exemplo,
o dio de Fabiana, alimentado por vinte e cinco anos,
antes, durante e depois do casamento, contra a pessoa de
um primeiro namorado que a desprezou; Maurcio (o
namorado) casou-se com Hortnsia, da qual tem uma filha;
Fabiana, que tambm casou com um oficial do exrcito,
tem igualmente uma filha; a pea comea quando as duas
filhas j esto moas feitas; tudo est mudado, menos o
dio de Fabiana, que, para vingar-se de Maurcio e de
Hortnsia, escolhe a filha de ambos, e planeia um rapto,
com o fim de infam-la e desvi-la de um casamento rico.
Nesta conspirao entra o raptor e a prpria filha de
Fabiana. Tal  o lado original da pea; supe-se um dio de
vinte e cinco anos, impetuoso e feroz, como o amor de
Media, numa criatura vulgar, sem expresso, mais
cobiosa de dinheiro que de vingana.
Em geral os caracteres destas duas peas so carregados e
exagerados a tal ponto, que deixam longe de si o padro
humano. Parece que o autor preocupa-se sobretudo com
os efeitos, sem atender para a natureza. Uma prova, entre
muitas,  a cena entre Anastcio, Maurcio e Hortnsia, no
terceiro ato; Maurcio  um homem bom, honesto, mas
fraco; o seu crime  ceder  mulher em tudo; mas a
situao torna-se grave; esto arruinados; aparece
Anastcio, pinta-lhes o presente e o futuro, clama e
declama, chama-os  razo; os dois reconhecem a verdade
140
das palavras do irmo, e curvam-se aterrados. anuncia-se,
porm, um baro, e eis que os dois, fazendo ao pblico
uma despedida cmica, correm a receber as visitas. Estas
transies bruscas, estes contrastes forados, produzem
sempre efeito seguro; mas para quem olha a arte um
pouco acima das luzes da rampa. so violncias estas que
contrariam a verdade de um carter e condenam o futuro
de uma obra.
A complicada intriga do Luxo e Vaidade desenvolve-se com
auxlio de um personagem, que no vem citado na pea, o
Acaso. Com efeito, o rapto de Leonina seria efetuado, se
Henrique no estivesse escondido por trs de uns bambus,
no Jardim Botnico, donde ouve a conversa dos
conspiradores. Este meio de sair de uma dificuldade,
escondendo um personagem,  usado tambm no 5. ato,
quando Maurcio quer beber um copo de veneno;
Anastcio, que se esconde alguns minutos antes, evita o
crime. Voltemos ao rapto; Filipa, sua me Fabiana e o
raptor Frederico tramam no jardim o rapto de Leonina;
Fabiana e Frederico saem, e fica s em cena Filipa, que,
em um breve monlogo, resolve frustrar o projeto de
rapto, porque ele teria em resultado o casamento de
Leonina com um rapaz bonito e elegante. Para isso precisa
de um homem. . . "Esse homem sou eu"' exclama
Henrique, aparecendo de um lado com grande estranheza
da moa e do espectador; porquanto, se nos lembrarmos
que a moa estava em monlogo, veremos logo que a
apario de Henrique e absurda. Mas o abismo atrai o
abismo, o absurdo chama o absurdo;  simples declarao
que lhe faz Henrique de que entra na vingana, por
despeito contra Leonina, a moa, que no tem maior
intimidade com ele, confia-lhe logo, sem exame, os seus
projetos e aceita a sua cumplicidade.
Mas qual a inteno de Filipa? Ser salvar a Leonina contra
os projetos de Fabiana? No; o que Filipa no quer  o
casamento provvel de Leonina e do raptor; mas a desonra
aparente da moa e o escndalo, isso pouco lhe importa.
"Um rapto que se malogra no momento de executar-se 
de sobra para desacreditar a mulher que se encontra nos
braos do raptor." Quem pronuncia estas palavras?  uma
donzela?  uma hetaira? Ao menos, que motivo poderoso
lana no esprito dessa moa a perverso e o mal? Uma
141
inveja mesquinha: no quer ver a outra casada com um
moo bonito e elegante! Com franqueza, leitor imparcial,
achais que isto seja a cincia dos caracteres? Uma me,
sem um trao nobre. uma filha sem um trao virgem,
conspirando friamente contra a honra de uma donzela, tal
 a expresso da sociedade brasileira, tal  a intriga
principal deste drama. Destas violncias morais,
encontram-se a cada passo na Lusbela como no Luxo e
Vaidade. Qual  a inteno do autor imaginando estas
figuras repugnantes, estas cenas impossveis? No
sabemos, mas cumpre observar uma coisa, que agrava
mais ainda a situao da pea: a cena em que Filipa aceita
a cumplicidade de Henrique, tem contra si, alm do mais, a
circunstncia de ser absolutamente desnecessria; parece,
ao ver aquela cena, que realmente a moa chega a
substituir o seu plano ao da me, vendo naturalmente
depois substituir o seu pelo de Henrique. que a ilude; nada
disso : o rapto efetua-se at o ponto em que aparecem
Henrique e Anastcio para impedir que Leonina seja levada
para fora; v-se que era preciso para impedir a realizao
do rapto, que Henrique soubesse dele e avisasse
Anastcio; da vem a colocao do rapaz na moita dos
bambus; mas a necessidade do contrato com Filipa, a
necessidade do monlogo da moa, essa  que nunca se
v. Cortada a cena, a pea continua sem alterao.
A cena do rapto, que no produz efeito algum, toma quase
propores trgicas: Frederico, que  o raptor, vem
armado de punhal e quer assassinar Anastcio, que busca
impedir o rapto da moa. No se compreende bem que
interesse possa ter Frederico, personagem insignificante,
sem grandes impulsos, em cometer um assassinato, que
agravaria a sua situao. Felizmente, aparece Henrique; o
brao de Henrique e uma perorao de Anastcio pem em
fuga o raptor e a cmplice. Este ato, que  o 4., passa-se
em um baile de mascaras, dado por Maurcio, na vspera
do dia em que deve se a sua honra em conseqncia das
loucuras do luxo. Supe-se naturalmente que Henrique e
Anastcio, depois de libertarem Leonina. levam-na aos
pais; estes reconheceriam no moo o salvador da filha, e
no hesitariam em dar-lha por esposa. Longe disso, o tio e
o sobrinho levam a moa para a casa de uma parenta, e o
5. ato abre-se no meio da desolao dos pais, que de um
lado esto arruinados, e do outro choram a perda da filha
142
que no podem encontrar. Mas a filha aparece depois
trazida por Henrique. Felisberto, o irmo de Maurcio,
desprezado por ele, aparece tambm, por inspirao
tocante, e vem socorrer com as suas economias o irmo
arruinado. Anastcio, porm, j tem prevenido o caso, tudo
fica salvo e volta a paz domstica.
Mas o decoro da famlia fica salvo? Dissemos que era
natural, uma vez salva a moa, ser levada pelos salvadores
para dentro de casa e entregue aos pais. Realizando, ainda
que sob outras vistas, o rapto projetado. Henrique e
Anastcio, to austeros como so e to penetrantes como
supomos que devem ser, no viram uma coisa simples, a
saber: que a ausncia de Leonina de casa dos pais,
durante uma noite e um dia, era bastante para dar 
malignidade despeita de Fabiana e Frederico, campo vasto
s conjeturas, as insinuaes e as calnias?
Deste modo no ficava a menina sujeita aos caprichos da
opinio? Qual era a maneira digna e nobre que convinha a
Henrique para conquistar Leonina? Desprezado por pobre,
a sua vitria devia assinalar-se de modo que pusesse em
relevo a sua nobreza moral; era uma conquista e no uma
emboscada; que faria Maurcio, vendo entrar a filha
raptada. de brao com Henrique? Qualquer que fosse o
aborrecimento que lhe inspirasse o rapaz, o decoro
impunha-lhe o dever de ceder ao casamento. Realmente.
se a virtude no tem outros recursos para triunfar, no
vale a pena sofrer-lhe as privaes. O mesmo argumento
serve para Anastcio, autor e cmplice na histria do
rapto; o desde que ele tem prvio conhecimento da
tentativa de Fabiana, corre-lhe o dever de prevenir os pais
de Leonina; mesmo corri a certeza de salvar a moa
(salv-la!), a simples tentativa bastava para atrair a
ateno pblica, e devassar o lar domstico. Francamente,
se Anastcia previne os pais e impede a tentativa, teria
praticado um ato que valeria por todos os seus discursos.
O seu silncio produziu um resultado funesto, a saber: que
os personagens honestos da pea utilizam-se dos meios
empregados pelos personagens viciosos, inclusive a
circunstncia do narctico, para praticar aquilo mesmo que
lhes cumpria condenar.  aceitvel esta concluso?
143
Se a inveno  pobre, se os caracteres so violentos,
contraditrios c incorretos, h ao menos nesta pea a
habilidade dos meios cnicos e a beleza do estilo? Os meios
cnicos j vimos quais eles so; movem-se as personagens
e produzem-se as situaes. sem nenhuma razo de ser,
sem nenhum motivo alegado; h uma cena no baile de
mscaras que produziu muito efeito no teatro;  aquela em
que Anastcio, mascarado, quando todos esto sem
mascaras, obtm o triunfo oratrio, definindo em termos
indignados os personagens presentes; apesar de falar em
voz natural ningum o conhece; Maurcio, como lhe impe
o dever de dono da casa, quer arrancar-lhe a mscara;
Anastcio lembra-lhe a hora em que, no dia seguinte, tem
de achar-se diante da justia; Maurcio acalma-se e a nica
satisfao que d aos convivas  obrigar Hortnsia a dar o
brao a Anastcio. Temos acaso necessidade de lembrar
tambm a cena do jardim, na noite do baile, em que os
pais arrancam  filha o consentimento para casar com o
Comendador Pereira? Tais so os meios cnicos do Luxo e
Vaidade. Quanto ao estilo, no  o d'O Cob; a pressa com
que o autor escreveu o drama revela-se at nisso;  um
estilo sem inspirao nem graa, nem movimento. O autor,
que poderia ao menos salvar a pea com uma boa prosa,
descurou essa parte importante da composio.
A anlise de Luxo e Vaidade abrevia-nos a de Lusbela;
como dissemos, os defeitos da primeira so comuns 
segunda pea. Lusbela  um quadro do mundo equvoco;
subsiste aqui a mesma objeo que fizemos a respeito do
Luxo e Vaidade.- entrando tambm no caminho encetado
por outros poetas, que novos elementos pretendeu tirar o
Sr. Macedo de um assunto j gasto? Lemos a pea, e no -
achamos resposta. A pea no oferece nada de novo, a no
ser uns tons carregados e falsos, umas situaes violentas,
nenhum conhecimento da lei imoral dos caracteres; e alm
de tudo um estilo que requinta nos defeitos o estilo do
Luxo e Vaidade. Quem estudar desprevenido a pea do Sr.
Dr. Macedo ver que exprimimos a verdade; e quanto 
convenincia de exprimi-la, o prprio poeta h de
reconhec-lo quando quiser meditar sobre as suas obras, e
compar-las com as exigncias da posteridade. A
posteridade s recebe e aplaude aquilo que traz em si o
cunho de belo; ao ler as peas do Sr. Dr. Macedo d
vontade de perguntar se ele no tem em conta alguma as
144
leis da arte e os modelos conhecidos, se observa com
ateno a natureza e os seus caracteres, finalmente, se
no est disposto a ser positivamente um artista e um
poeta. Em matria dramtica, se fizermos uma Pequena
exceo, a resposta  negativa.
Dispensamo-nos igualmente de narrar o enredo de
Lusbela, que todos conhecem. Sofre-se este drama. como
um pesadelo. e chega-se ao fim, no comovido. mas
aturdido; parece incrvel que o delicado autor d'A
Nebulosa, achando-se no terreno spero em que entro no
houvesse, graas  vara mgica da poesia, produzido uma
obra de artista, em vez do drama que nos deu. Nesta,
como no Luxo e Vaidade v-se um certo modo de pintar as
personagem, que lhes tira todas as condies humanas.
Produzir efeito parece ser a preocupao constante do
autor de Lusbela; o nosso intuito deixa de parte aquilo que
poderia conduzi-lo aos efeitos de arte, e no aos eleitos de
cena, no sentido vulgar da frase. Deste princpio sente-se
logo em que terreno se coloca o autor; uma moa pobre, a
filha do jardineiro Pedro Nunes,  desonrada por um
homem rico, o amo do pai. As simpatias gerais ficam
seguras deste modo; a pea tem logo por si todos quantos
abraam a fraqueza da vtima de um potentado; mas o
resto? como sai o autor da situao em que se coloca?
Damiana, de a por Lencio,  lanada fora da casa paterna,
e depois desonrada algumas peripcias narradas mais
tarde, a moa aparece no 1. ato com o nome de Rosa
Lusbela. Lusbela vem de Lusbel, o personagem dos
Milagres de Santo Antnio, que ela aplaudiu um dia no
teatro de S. Pedro de Alcntara. Rosa Lusbela  um tipo de
mulher desenvolta libertina; a sociedade, que  sempre o
bode emissrio destas desgraas, recebe de Lusbela
algumas afrontas e apstrofes; no diremos que o tipo no
seja em parte real, o que afirmamos  que naqueles
abismos j se no encontram prolas; o amor puro de
Lusbela por Leonel  simplesmente impossvel; argumentase
com Margarida Gautier; no entramos agora no exame
da pea de Dumas, apenas lembramos que entre Margarida
Gautier e Lusbela a diferena e grande; Margarida Gautier
pertence ao mundo de Lusbela, mas parece que h nesse
mundo distines geogrficas, pois que o pas de uma no
 o da outra. Margarida est longe da virtude, mas no
est prxima de Lusbela; finalmente, lutando com a
145
audcia da concepo, Dumas Filho procurou dar  sua
herona umas cores poticas que no existem de modo
algum na herona do drama brasileiro.
Lusbela pretende amar Leonel, e isto at certo ponto
supe-lhe um pouco de sensibilidade; mas pode aceitar-se
esta hiptese ? Lusbela sabendo que Leonel ama uma
menina, e vai casar-se, atrai a pobre noiva  sua casa, sob
pretexto de dar-lhe costura, mas na inteno firme de
pervert-la; arrepende-se em certa ocasio, mas a certeza
de que no  amada volta-lhe o esprito para esse primeiro
plano.
Por uma circunstncia imprevista, Cristina  sua prpria
irm; essa, e no outra razo, salva a pobre menina de um
abismo. Suprima-se esta circunstncia, qual seria a marcha
da pea? No  difcil prev-la, Lusbela praticaria um ato
de monstruosidade.
Todos se lembram que Leonel  primo de Lencio; esse,
autor da desonra de Damiana, procura impedir o
casamento do primo com Cristina, irm de Lusbela. Daqui
vem a luta entre e Lencio, que faz uma parte da ao da
pea. No tentaremos descrever essa luta, entremeada do
episdio das notas falsas, e de algumas situaes mal
preparadas para efeito.
O episdio das notas  mais uma prova do modo fcil com
que o autor resolve as dificuldades um moedeiro falso
prope a Lusbela entrar na associao a que ele pertence e
ajud-lo na distribuio dos bilhetes. Lusbela resiste, mas a
idia de fazer feliz a irm resolve-a a aceitar; Graciano (o
moedeiro) leva-lhe uma caixinha com bilhetes; nesse ato,
que  o 3., j moram com Lusbela a irm e o pai. Quem
compara a castidade de Cristina e a perversidade de
Lusbela, ressente-se deste contacto odioso. Lusbela no
quer receber a caixa, mas Graciano acha meio de deix-la
sobre a mesa. No  possvel haver um moedeiro falso
mais estouvado; comea por fazer uma proposta, 
queima-roupa, e acaba deixando a caixa fatal cri casa de
uma mulher que lhe no pode merecer confiana absoluta.
A caixa das notas, que deve servir mais tarde de corpo de
delito, tem uma chave; como fazer desaparecer as notas e
a chave, e trazer suspenso o espectador at o fim da pea?
146
Mediante um delrio de Pedro Nunes, que sai do quarto,
abre automaticamente a caixa, queima os bilhetes e perde
a chave, aparecendo depois a caixa fechada. Vai-se ao
teatro buscar uma comoo, no se vai procurar uma
surpresa; o poeta deve interessar o corao, no a
curiosidade; condio indispensvel para ser poeta
dramtico.
Falta-nos tempo e espao para maior anlise; limitamo-nos
a estas consideraes; cremos que ningum haver que,
depois de ler atenta e desprevenidamente as peas de que
tratamos, no se convena de que exprimimos a verdade,
com a franqueza digna do poeta e da crtica. Em outra
ocasio veremos as comdias do Sr. Dr. Macedo e
procuraremos usar da mesma imparcialidade e dos
mesmos conselhos. Sentimos que a publicao destes
escritos seja contempornea da dissidncia poltica que
separa o Dirio do Rio do deputado fluminense; talvez haja
quem veja na franqueza literria uma espcie de oposio
poltica; tudo  possvel num pas onde h mais talento que
modstia, mas. nesta humilde posio, s duas coisas nos
preocupam: o voto dos homens sinceros e a tranqilidade
da nossa conscincia; nicas preocupaes de quem
professa o culto da verdade.
II
O Sr. Dr. Macedo goza hoje da reputao de poeta cmico;
 uma das mais belas ambies literrias. Mas at que
ponto  legtima essa reputao? Sem contestar no Sr. Dr.
Macedo o talento da comdia,  nosso dever defini-lo, e, se
a palavra no  imodesta aconselha-lo. O autor da Torre
em Concurso, arrastado por uma predileo do esprito,
pode no atender para todas as condies que exige a
Poesia cmica;  fora de dvida que lhe so familiares os
grandes modelos da comdia; mas a verdade  que,
possuindo valiosos recursos, .O autor no os emprega em
obras de superior quilate. At hoje no penetrou no
domnio da alta comdia, da comdia do carter; r obras
que tem escrito, atendeu sempre para um gnero menos
estimado: e, se lhe no faltam aplausos a essas obras,
147
nem por isso assentou ele em bases seguras a reputao
de verdadeiro poeta cmico.
Evitemos os circunlquios: o Sr. Dr.. Macedo emprega nas
suas comdias dois elementos que explicam os aplausos
das platias: a stira e o burlesco. Nem uma nem outra
exprimem a comdia.
A Torre em Concurso define e resume perfeitamente as
tendncias cmicas do Sr. Dr. Macedo; demais, o prprio
autor limitou as suas aspiraes definindo essa pea como
comdia burlesca. O Fantasma Branco, se no confessa as
mesmas intenes, nem por isso exclui de si o carter da
Torre em Concurso. Finalmente, o Novo Otelo vem em
apoio da nossa apreciao. No Luxo e Vaidade houve um
tentmen cmico: mas a mesmo, Logo ao abrir do
primeiro ato, entra em cena o burlesco debaixo da figura
de um criado e de uma professora. Somos justos; o autor
no pretende dar as suas peas como verdadeiras
comdias; o burlesco  to franco, a stira to positiva,
que bem se v a inteno do autor em reconhecer-lhes
apenas o carter de satricas e burlescas. Ora, 
exatamente essa inteno que nos parece condenvel.
Dotado de talento estimado do pblico, o Sr. Dr. Macedo
tem o dever de educar o gosto, mediante obras de estudo
e de observao. Se no vssemos no autor do Fantasma
Branco elementos prprios para cometimento desses, outra
seria a nossa lngua mas o Sr. Dr. Macedo possui o talento
cmico; no est patente nas suas obras, mas adivinha-se;
pode, pois, se quiser, renunciar s fceis vitrias da stira
e do burlesco, e entrar na larga vereda da comdia de
costumes e de carter. Em relao aos costumes e aos
vcios, que podem significar a Torre em Concurso e o
Fantasma Branco? A primeira destas comdias foi
representada h pouco tempo e est fresca na memria de
todos;  um quadro burlesco, uma caricatura animada de
costumes polticos. Confessando no frontispcio a natureza
da composio, o autor abre  sua musa um caminho fcil
aos triunfos do dia, mas impossvel s glrias durveis. Se
o burlesco pudesse competir com o cmico, o Jodelet de
Scarron estaria ao p Mulheres Letradas de Molire. Mas
no acontece assim; a comdia  muito boa fidalga;
repugnam-lhe estas alianas; pode transformar-se com os
tempos, desnaturar-se  que no. Isto que todos
148
reconhecem e o prprio Sr. Dr. Macedo compreende, devia
produzir no nimo do autor da Torre em Concurso um
efeito salutar.  certo que, nesse caso, o autor tinha de
pedir ao tempo, ao estudo,  observao e  poesia, os
materiais das suas obras; mas os resultados desse esforo
no haviam de compens-lo?
O burlesco, embora suponha da parte de um autor certo
esforo e certo talento,  todavia um meio fcil de fazer rir
as platias. A prpria Torre em Concurso fornece-nos uma
prova, desde que se levanta o pano, os espectadores riem
logo s gargalhadas; assiste-se  leitura de um grande
edital. Que haver de cmico em um edital? Nada que no
seja esforo da imaginao do autor;  um edital burlesco,
dirigido na inteno de produzir efeito nos espectadores; a
fantasia do autor tinha campo vasto para redigi-lo como
quisesse, para acumular as expresses mais curiosas, as
clusulas mais burlescas. Se o autor quisesse cingir-se 
verdade, levaria em conta que o escrivo Bonifcio,
homem de bom senso e at certo ponto esclarecido, como
se v no correr da comdia, no podia escrever aquele
documento. Mas  intil apelar para a verdade tratando-se
de uma obra que se confessa puramente burlesca.
Assentado isto, o resto da pea desenvolve-se sob a ao
da mesma lei; o autor declara-se e mantm-se nos vastos
limites de uma perfeita inverossimilhana. Como exigir que
as pretenses amorosas da velha Ana, os seus cimes e os
seus furores, apaream ao pblico, no como uma
caricatura, mas como um ridculo? Se pretendssemos isto,
se exigssemos a naturalidade das situaes, a verdade das
fisionomias, a observao dos costumes, o autor
responder-nos-ia vitoriosamente que no pretendeu
escrever uma comdia, mas uma pea burlesca.
Duvidarmos, porm, que possa responder com igual
vantagem quando lhe perguntarmos por que motivo, poeta
de talento e futuro, escreveu uma obra que no  de
poeta. nem acrescenta o menor lustre ao seu nome.
Aceitando a pea, como ela , no h negar que as
intenes polticas da Torre em Concurso so de boa stira.
Stira burlesca,  verdade. Nada menos cmico que aquela
sucesso de cenas grotescas; mas, atravs de todas elas,
no se perde a inteno satrica do autor; a luta dos
partidos, a eleio, a fraude poltica, a interveno de Ana,
149
tudo isso forma um quadro, onde,  mngua de cunho
potico, sobram as tintas carregadas, acumuladas no
intuito de criticar os costumes polticos. No  portanto a
idia da pea que nos parece condenvel,  a forma. A
mesma idia vazada em uma forma cmica produziria uma
composio de merecimento. O juiz de paz Joo
Fernandes, sem fora nem carter, levado
alternativamente ora pela irm, ora pelas influncias
eleitorais, tem um qu de cmico; mas, reduzido a estas
propores, saa fora do crculo que o autor se traou, e
no produziria o desejado efeito nas platias. Que fez pois
o autor? Deu-lhe propores burlescas, e as cenas do edital
escrito nas costas, do pleito dos partidos para possu-lo, da
clusula do casamento, tudo isso retirou  figura do juiz de
paz o cunho original e cmico. Esta comparao pode ser
reproduzida em relao a uma parte dos personagens; Mas
basta uma para definir o nosso pensamento. No fazemos
anlise, apreciamos em sua generalidade as comdias do
Sr. Dr. Macedo. O Fantasma Branco no se confessa
comdia burlesca, como a Torre em Concurso, mas a
mesmo o bur lesco  o elemento principal. Entretanto, sem
que se prestasse a uma alta comdia, o Fantasma Branco
podia fornecer tela para uma obra de mais alcance; o
defeito e o mal est em que o autor cede geralmente 
tentao do burlesco, desnaturando e comprometendo
situaes e caracteres. A covardia e a fanfarronice do
Capito Tibrio, as rusgas de Galatia e Baslio, a
rivalidade dos dois rapazes, as entre vistas furtivas de
Maria e Jos, podiam dar observaes cmicas e cenas
interessantes. Para fazer rir no precisa empregar o
burlesco; o burlesco  o elemento menos culto do riso.
Se fosse preciso resumir por meio de uma comparao a
profunda diferena que h entre o trao cmico e o trao
burlesco, bastava aproximar um lance de mestre de um
lance da Torre em Concurso. H nesta pea uma cena de
boa observao poltica;  quando Batista, em virtude de
uma descortesia de Pascoal, que  a bandeira do partido
amarelo, passa para as fileiras do partido vermelho.
"Insolente, diz Batista, no respeita um dos chefes do seu
partido!" Este dito e esta passagem tinham completo o
trao; havia alguma coisa de cmico; mas Batista no s
abandona as suas fileiras, seno que moraliza o ato: "Fao
o que muitos tm feito, arranjo a vida; estou passado".
150
Esta maneira de repisar a observao cmica tira-lhe a
energia e o efeito; cai na stira; j no  o personagem, 
o autor quem exprime por boca dele um juzo poltico. Ora,
quando se encontra em uma comdia um desses traos
felizes, o cuidado do poeta deve aplicar-se em no
desnatur-lo. Vejamos como o
grande mestre procedia em casos idnticos; Harpago
acha-se um dia roubado; o cofre dos seus haveres
desapareceu do lugar em que o avarento costumava
guard-lo; todos sabem que cenas de desespero seguem a
este sucesso; Harpago chama a justia; trata-se de saber
onde pra o cofre; no  um cofre,  a alma de Harpago,
que se perdeu; o infeliz corre de um lado para outro, e,
nessa labutao, repara que h na sala duas velas acesas;
apaga maquinalmente uma delas. Movimento involuntrio,
natural, cmico; mas feito isto, Harpago no diz palavra,
porque a sua idia fixa  a perda da fortuna. Pelo sistema
do autor do Fantasma Branco, Harpago no deixaria de
dizer  parte: "Duas velas! que estrago!  demais!"
Citando o exemplo de Molire, no  nossa inteno exigir
do Sr. Dr. Macedo arrojos impossveis; apenas apontamos
ao distinto autor d'O Cego as lies da boa comdia, a
maneira artstica de reproduzir as observaes cmicas,
evitando anul-las por meio de torneios de frases e
consideraes ociosas; procurando enfim excluir-se da
cena, onde s devem ficar os personagens e a situao.
O autor do Fantasma Branco, como fica dito, sacrifica
muitas vezes a verdade de um carter para produzir um
efeito e uma situao; isto no drama, isto na comdia.
Exemplo: os dois filhos do Capito Tibrio so rivais, de
amor; pretendem ambos a mo da prima Mariquinhas.
Daqui origina-se um duelo; mas ambos so to covardes
como o pai; o provocador arrepende-se, o outro chega-se
como para um patbulo; o duelo  marcado para a noite, na
montanha do fantasma; ambos tm a idia simtrica de
esconder-se no vo da escada.
 uma cena de apartes em que cada um deles mostra o
receio de ser morto pelo outro; esbarram-se, caem, pedem
desculpas mutuamente, e os espectadores riem s
gargalhadas; mas o que torna esta cena forada,
151
impossvel, sem cmico algum,  que ela destri
inteiramente o carter dos rapazes. Se eram covardes,
embora fossem obrigados a aceitar a idia do duelo, em
vez de virem para o terreiro, era natural deixarem-se ficar
em casa, at pela considerao de que a noite no  hora
dos duelos. Um deles faz esta reflexo: "Se ele no subir a
montanha, nem eu; e amanh digo que o estive esperando
toda a noite". Ora, estas palavras so exatamente a crtica
da cena. Para dar aquela desculpa, Francisco nem
precisava sair de casa: um quarto era lugar mais seguro
que o vo da escada. "Estive quase no quase, diz Antnio,
deixando-me ficar deitado; pois o malvado fratricida no
podia matar-me sem me dar o incmodo de subir a
montanha?"
No somente a cena  forada, seno que os prprios
interlocutores incumbem-se de fazer-lhe a crtica.
A rivalidade de Galatia e Baslio, que podia fornecer
algumas cenas cmicas, e alguns traos de costumes,
degenera em uma troca de palavras grotescas, de
apstrofes singulares, sem resultado algum. Do mesmo
gnero  a cena em que, os dois rapazes fazem a
declarao a Mariquinhas; o amor de Francisco reduzido a
libelo acusatrio  uma idia que prima pelo burlesco, mas
no pertence ao domnio da comdia. E, todavia,
insistimos, o Sr. Dr. Macedo podia fazer daquela pea uma
coisa melhor, mais sria, de mais digno alcance. Dizem-nos
que o Fantasma Branco foi escrito sem a inteno da cena;
isto poderia ser uma atenuante, se o autor no houvesse
mostrado em outras peas quais so as suas predilees
em teatro. A leitura refletida do Fantasma Branco e da
Torre em Concurso basta para deixar ver que essas
predilees merecem o justo reparo da crtica. Nada
diremos do Novo Otelo que rene, em pequeno quadro, o
gnero da comdia do Sr. Dr. Macedo, e bem assim a
imitao do francs, denominado OPrimo da Califrnia.
Amor e Ptria  um ligeiro drama num ato; e quanto ao
Sacrifcio de Isaac, quadro bblico, compe-se de alguns
versos harmoniosos, sobre a lenda hebraica.
Tal  o teatro do Sr. Dr. Macedo, talento dramtico, que
podendo encher a biblioteca nacional com obras de pulso e
originalidade, abandonou a via dos primeiros instantes, em
152
busca dos efeitos e dos aplausos do dia; talento cmico,
no penetrou na esfera da comdia, e deixou-se levar pela
seduo do burlesco e da stira teatral. A boa comdia, a
nica que pode dar-lhe um nome, talvez menos ruidoso,
mas com certeza mais seguro, essa no quis pratic-la o
autor da Torre em Concurso. Foi o seu erro. Acompanhar
as alternativas caprichosas da opinio, sacrificar a lei do
gosto e a lio da arte,  esquecer a nobre misso das
musas. Da parte de um intruso, seria coisa sem
conseqncia; da parte de um poeta,  condenvel.
Atender o Sr. Dr. Macedo para estas reflexes que nos
inspira o amor da arte e o sincero desejo de v-lo ocupar
no teatro um lugar distinto? No lhe perdemos a
esperana; o autor do Fantasma Branco chegou  idade de
cultivar a comdia; o estudo da vida e o estudo dos
padres que o passado nos legou, lev-lo- sem dvida
aos srios cometimentos; o drama, de que nos deu alguns
lampejos, pode tambm receber das suas mos formas
puras e corretas. Mas para atingir a tais resultados
cumpre-lhe abandonar o antigo caminho e os meios usados
at hoje. Se j escreveu pginas que realmente o honram,
no fez ainda tudo quanto a nossa bela ptria tem direito
de exigir-lhe. Nunca  tarde para produzir belas obras; foi
aos cinqenta anos que o autor da Metromania comps
esse livro admirvel, e o Sr. Dr. Macedo ainda est muito
longe da idade de Piron. A Metromania salvoua reputao
dramtica do poeta francs de um esquecimento
inevitvel; exemplo histrico que deve estar presente 
memria de todos os poetas.
Fomos francos e sinceros na anlise das obras do Sr. Dr.
Macedo; assim como condenamos as suas comdias e uma
parte dos seus dramas, assim aplaudiremos, em tempo
conveniente, as obras realmente meritrias do autor d'A
Moreninha; se em ambos os casos estamos em erro, 
dever dos componentes guiar-nos  verdade.
Terminaremos hoje com duas notcias literrias. A primeira
foi publicada no Correio Mercantil, em correspondncia de
Florena: traduziu-se para o italiano o belo romance O
guarani do Sr. J. de Alencar. O correspondente acrescenta
que a obra do nosso compatriota teve grande aceitao no
mundo literrio. Um escritor do pas, o Dr. Antnio Scalvini,
153
tirou desse romance um poema para pera, que vai ser
posto em msica pelo compositor brasileiro Carlos Gomes.
A segunda notcia  que chegaram de Bruxelas as duas
obras anunciadas nesta folha, Romances Histricos e
Viagens a Venezuela, Nova Granada e Equador.  autor
delas o Sr. Conselheiro Miguel Maria Lisboa, embaixador de
Sua Majestade em Bruxelas. Ocupar-nos-emos dos dois
livros em ocasio oportuna.
[16] PORTO ALEGRE: COLOMBO
O ASSUNTO poltico  a preocupao do momento. Hoje
todos os olhos esto voltados para a casa dos legisladores.
Que viria fazer a poesia, a poesia que no vota nem
discute, no dia em que o congresso da nao est reunido
para discutir e votar? No estranhem, pois, os leitores
destas revistas, se no fazemos hoje nenhuma apreciao
literria. Apenas mencionaremos a prxima chegada do
poema pico do Sr. Porto Alegre, Colombo, impresso em
Berlim, onde se acha o ilustre poeta. Os que cultivam as
letras, e os que as apreciam, j conhecem por terem lido e
relido, alguns belos fragmentos do poema agora publicado.
Muitos dos principais episdios tm vindo  luz em revistas
literrias.
O talento do Sr. Porto Alegre acomoda-se perfeitamente ao
assunto do poema; tem as energias, os arrojos, os
movimentos que requer a histria de Cristvo Colombo, e
o feito grandioso da descoberta de um continente. Nenhum
assunto oferece mais vasto campo  inveno potica.
Tudo conspirou para levantar a figura de Colombo, at
mesmo a perseguio, que  a coroa dos Galileus da
navegao, como dos Galileus da cincia. Descobrindo um
continente virgem  atividade dos povos da Europa,
atirando-se  realizao de uma idia atravs da fria dos
elementos e dos obstculos do desconhecido, Colombo
abriu uma nova porta ao domnio da civilizao. Quando
Vtor Hugo, procurando a mo que h de empunhar neste
sculo o archote do progresso, aponta aos olhos da Europa
a mo da eterna nao yankee, como dizem os
americanos, presta indiretamente uma homenagem 
154
memria do grande homem que dotou o XV sculo com um
dos feitos mais assombrosos da histria. Tal  o heri, tal 
a histria, que o Sr. Porto Alegre escolheu para assunto do
poema pico com que acaba de brindar as letras ptrias.
O assunto de Colombo devia ser tratado por um
americano; folgamos de ver que esse americano  filho
deste pas. No  somente o seu nome que fica ligado a
uma idia grandiosa, mas tambm o nome brasileiro.
Como se houve o Sr. Porto Alegre na concepo do poema?
J conhecemos alguns fragmentos, que, embora formosos,
no nos podem dar todo o conjunto da obra. Mas o nome
do Sr. Porto Alegre  uma fiana. O autor das Brasilianas 
um esprito educado nas boas doutrinas literrias,
robustecido por fortes estudos, afeito  contemplao dos
modelos clssicos. Junte-se a isto um grande talento, de
que tantas provas possui a literatura nacional. Estamos
certos de que as nossas esperanas sero magnificamente
realizadas. Os fragmentos conhecidos so primorosos; por
que o no ser o resto?
Um poema pico, no meio desta prosa atual em que
vivemos, e uma fortuna miraculosa. Pretendem alguns que
o poema pico no e do nosso tempo, e h quem j
cavasse uma vasta sepultura para a epopia e para a
tragdia, as duas belas formas da arte antiga. No fazemos
parte do cortejo fnebre de Eurpedes e Homero. As formas
poticas podem modificar-se com o tempo, e  essa a
natureza das manifestaes da arte; o tempo, a religio e
a ndole influem no desenvolvimento das formas poticas,
mas no as aniquilam completamente; a tragdia francesa
no  a tragdia grega, nem a tragdia shakespeariana, e
todas so a mesma tragdia. Este acordo do moderno com
o antigo era o pensamento de Chnier, que muitos sculos
depois de Ovdio e Catulo ressuscitava o idlio e a alegria
da antiguidade.
Findou a idade herica, mas os heris no foram todos na
voragem do tempo. Como fachos esparsos no vasto oceano
da histria atraem os olhos da humanidade, e inspiram os
arrojos da musa moderna. Casar a lio antiga ao carter
do tempo, eis a misso do poeta pico. Os estudos e o
talento do Sr. Porto Alegre revelam uma ndole apropriada
para uma obra semelhante.
155
Apreciaremos o novo poema nacional com a conscincia e
imparcialidade que costumamos usar nestes escritos, o que
no exclui a admirao e a simpatia pelo autor. A nossa
mxima literria  simples: aprender investigando. Um
livro do Sr. Porto Alegre d sempre que investigar e que
aprender.
Temos o dever de ser breve. Como dissemos acima, a
preocupao do momento  o assunto poltico. A ateno
pblica est voltada para a reunio das duas casas do
parlamento. As musas, num dia destes recolhem-se 
colina sagrada.
[17] LVARES DE AZEVEDO: LIRA DOS VINTE ANOS
QUANDO, h cerca de dois ou trs meses, tratamos das
Vozes da Amrica do Sr. Fagundes Varela, aludimos de
passagem s obras de outro acadmico, morto aos vinte
anos, o Sr. lvares de Azevedo. Ento, referindo os efeitos
do mal byrnico que lavrou durante algum tempo na
mocidade brasileira, escrevemos isto:
Um poeta houve, que, apesar da sua extrema originalidade, no deixou
de receber esta influncia a que aludimos; foi lvares de Azevedo.
Nele, porm, havia uma certa razo de consanginidade com o poeta
ingls, e uma ntima convivncia com os poetas do norte da Europa.
Era provvel que os anos lhe trouxessem uma tal ou qual
transformao, de maneira a afirmar-se mais a sua individualidade, e a
desenvolver-se o seu robustssimo talento.
A estas palavras acrescentvamos que o autor da Lira dos
Vinte Anos exercera uma parte de influncia nas
imaginaes juvenis. Com efeito, se Lord Byron no era
ento desconhecido s inteligncias educadas, se Otaviano
e Pinheiro Guimares j tinham trasladado para o
portugus alguns cantos do autor de Giaour, uma grande
parte de poetas, ainda nascentes e por nascer, comearam
a conhecer o gnio ingls atravs das fantasias de lvares
de Azevedo, e apresentaram, no sem desgosto para os
que apreciam a sinceridade potica, um triste cepticismo
de segunda edio. Cremos que este mal j est atenuado,
se no extinto.
156
lvares de Azevedo era realmente um grande talento: s
lhe faltou o tempo, como disse um dos seus necrlogos.
Aquela imaginao vivaz, ambiciosa, inquieta, receberia
com o tempo as modificaes necessrias; discernindo no
seu fundo intelectual aquilo que era prprio de si, e aquilo
que era apenas reflexo alheio, impresso da juventude,
Alvares de Azevedo, acabaria por afirmar a sua
individualidade potica. Era daqueles que o bero vota 
imortalidade. Compare-se a idade com que morreu aos
trabalhos que deixou, e ver-se- que seiva poderosa no
existia, naquela organizao rara. Tinha os defeitos, as
incertezas, os desvios, prprios de um talento novo, que
no podia conter-se, nem buscava definir-se. A isto
acrescente-se que a ntima convivncia de alguns grandes
poetas da Alemanha e da Inglaterra produziu, como
dissemos, uma poderosa impresso naquele esprito, alis
to original. No tiramos disso nenhuma censura; essa
convivncia, que no poderia destruir o carter da sua
individualidade potica, ser-lhe-ia de muito proveito, e no
pouco contribuiria para a formao definitiva de um talento
to real.
Cita-se sempre, a propsito do autor da Lira dos Vinte
Anos, o nome de Lord Byron, como para indicar as
predilees poticas de Azevedo.  justo, mas no basta. O
poeta fazia uma freqente leitura de Shakespeare, e podese
afirmar que a cena de Hamlet e Horrio, diante da
caveira de Yorick, inspirou-lhe mais de unia pgina de
versos. Amava Shakespeare, e da vem que nunca perdoou
a tosquia que lhe fez Ducis. Em torno desses dois gnios,
Shakespeare e Byron, juntavam-se outros, sem esquecer
Musset, com quem Azevedo tinha mais de um ponto de
contacto. De cada um desses caram reflexos e raios nas
obras de Azevedo. Os "Bomios" e "O Poema de Frade",
um fragmento acabado, e um borro, por emendar,
explicaro melhor este Pensamento.
Mas esta predileo, por mais definida que seja, no
traava para ele um limite literrio, o que nos confirma na
certeza de que, alguns anos mais, aquela viva imaginao,
impressvel a todos os contactos, acabaria por definir-se
positivamente.
157
Nesses arroubos da fantasia, nessas correrias da
imaginao, no se revelava somente um verdadeiro
talento; sentia-se uma verdadeira sensibilidade. A
melancolia de Azevedo era sincera. Se excetuarmos as
poesias e os poemas humorsticos, o autor da Lira dos
Vinte Anos raras vezes escreve uma pgina que no
denuncie a inspirao melanclica. uma saudade
indefinida, uma vaga aspirao. Os belos versos que
deixou impressionam profundamente; "Virgem Morta", "
Minha Me", "Saudades", so completas neste gnero.
Qualquer que fosse a situao daquele esprito, no h
dvida nenhuma que a expresso desses versos  sincera e
real. O pressentimento da morte, que Azevedo exprimiu
em uma poesia extremamente popularizada, aparecia de
quando em quando em todos os seus cantos, como um eco
interior, menos um desejo que uma profecia. Que poesia e
que sentimento nessas melanclicas estrofes!
No  difcil ver que o tom dominante de uma grande parte
dos versos ligava-se a circunstncias de que ele conhecia a
vida pelos livros que mais apreciava. Ambicionava uma
existncia potica, inteiramente conforme  ndole dos
seus poetas queridos. Este af dolorido, expresso dele,
completava-se com esse pressentimento de morte
prxima, e enublava-lhe o esprito, para bem da poesia que
lhe deve mais de uma elegia comovente.
Como poeta humorstico, Azevedo ocupa um lugar muito
distinto.
A viveza, a originalidade, o chiste, o humour dos versos
deste gnero so notveis. Nos "Bomios", se pusermos de
parte o assunto e a forma, acha-se em Azevedo um Pouco
daquela versificao de Dinis, no na admirvel cantata de
Dido, mas no gracioso poema do Hissope. Azevedo
metrificava s vezes mal, tem versos incorretos, que havia
de emendar sem dvida; mas em geral tinha um verso
cheio de harmonia, e naturalidade, muitas vezes
numeroso, muitssimas eloqente.
Ensaiou-se na prosa, e escreveu muito; mas a sua prosa
no  igual ao seu verso. Era freqentemente difuso e
confuso; faltava-lhe preciso e conciso. Tinha os defeitos
prprios das estrias, mesmo brilhantes como eram as
158
dele. Procurava a abundncia e caa no excesso. A idia
lutava-lhe com a pena, e a erudio dominava a reflexo.
Mas se no era to prosador como poeta, pode-se afirmar,
pelo que deixou ver e entrever, quanto se devia esperar
dele, alguns anos mais.
O que deixamos dito de Azevedo podia ser
desenvolvimento em muitas pginas, mas resume
completamente o nosso pensamento. Em to curta idade, o
poeta da Lira dos Vinte Anos deixou documentos
valiosssimos de um talento robusto e de uma imaginao
vigorosa. Avalie-se por a o que viria a ser quando tivesse
desenvolvido todos os seus recursos. Diz-nos ele que
sonhava, para o teatro, uma reunio de Shakespeare,
Calderon e Eurpedes, como necessria  reforma do gosto
da arte. Um consrcio de elementos diversos, revestindo a
prpria individualidade, tal era a expresso de seu talento.
[18] CASTRO ALVES
[RJ, 29 fev. 1868.]
EXMO. SR. -  boa e grande fortuna conhecer um poeta;
melhor e maior fortuna  receb-lo das mos de V. Ex,
com uma carta que vale um diploma, com uma
recomendao que  uma sagrao. A musa do Sr. Castro
Alves no podia ter mais feliz intrito na vida literria. Abre
os olhos em pleno Capitlio. Os seus primeiros cantos
obtm o aplauso de um mestre.
Mas se isto me entusiasma, outra coisa h que me comove
e confunde,  a extrema confiana, que  ao mesmo tempo
um motivo de orgulho para mim. De orgulho, repito, e to
intil fora dissimular esta impresso, quo arrojado seria
ver nas palavras de V. Ex., mais do que uma animao
generosa.
A tarefa da crtica precisa destes parabns;  to rdua de
praticar, j pelos estudos que exige, j pelas lutas que
impe, que a palavra eloqente de um chefe  muitas
159
vezes necessria para reavivar as foras exaustas e
reerguer o nimo abatido.
Confesso francamente, que, encetando os meus ensaios de
crtica fui movido pela idia de contribuir com alguma coisa
para a reforma do gosto que se ia perdendo, e
efetivamente se perde. Meus limitadssimos esforos no
podiam impedir o tremendo desastre. Como impedi-lo, se,
por influncia irresistvel, o mal vinha de fora, e se
impunha ao esprito literrio do pas, ainda mal formado e
quase sem conscincia de si? Era difcil plantar as leis do
gosto, onde se havia estabelecido uma sombra de
literatura, sem alento nem ideal, falseada e frvola, mal
imitada e mal copiada. Nem os esforos dos que, como V.
Ex., sabem exprimir sentimentos e idias na lngua que
nos legaram os mestres clssicos, nem esses puderam
opor um dique  torrente invasora. Se a sabedoria popular
no mente, a universalidade da doena podia dar-nos
alguma consolao quando no se antolha remdio ao mal.
Se a magnitude da tarefa era de assombrar espritos mais
robustos, outro risco havia: e a este j no era a
inteligncia que se expunha, era o carter. Compreende
V.Ex. que, onde a crtica no  instituio formada e
assentada, a anlise literria tem de lutar contra esse
entranhado amor paternal que faz dos nossos filhos as
mais belas crianas do mundo. No raro se originam dios
onde era natural travarem-se afetos. Desfiguram-se os
intentos da crtica, atribui-se  inveja o que vem da
imparcialidade; chama-se antipatia o que  conscincia.
Fosse esse, porm, o nico obstculo, estou convencido
que ele no pesaria no nimo de quem pe acima do
interesse pessoal o interesse perptuo da sociedade,
porque a boa fama das musas o  tambm.
Cansados de ouvir chamar bela  poesia, os novos
atenienses resolveram bani-la da repblica.
O elemento potico  hoje um tropeo ao sucesso de uma
obra. Aposentaram a imaginao. As musas, que j
estavam apeadas dos templos, foram tambm apeadas dos
livros. A poesia dos sentidos veio sentar-se no santurio e
assim generalizou-se uma crise funesta s letras. Que
160
enorme Alfeu no seria preciso desviar do seu curso para
limpar este presepe de Augias?
Eu bem sei que no Brasil, como fora dele, severos espritos
protestam com o trabalho e a lio contra esse estado de
coisas; tal , porem, a feio geral da situao, ao comear
a tarde do sculo. Mas sempre h de triunfar a vida
inteligente. Basta que se trabalhe sem trgua. Pela minha
parte, estava e est acima das minhas posses semelhante
papel; contudo, entendia e entendo - adotando a bela
definio do poeta que V. Ex.. d em sua carta - que h
para o cidado da arte e do belo deveres imprescritveis, e
que, quando uma tendncia do esprito o impele para certa
ordem de atividade,  sua obrigao prestar esse servio
s letras.
Em todo o caso no tive imitadores. Tive um antecessor
ilustre. apto para este rduo mister, erudito e profundo,
que teria prosseguido no caminho das suas estrias, se a
imaginao possante e vivaz no lhe estivesse exigindo as
criaes que depois nos deu. Ser preciso acrescentar que
aludo a V. Ex.?
Escolhendo-me para Virglio do jovem Dante que nos vem
da ptria de Moema, impe-me um dever. cuja
responsabilidade seria grande se a prpria carta de V. Ex.
no houvesse aberto ao nefito as portas da mais vasta
publicidade. A anlise pode agora esmerilhar nos escritos
do poeta belezas e descuidos. O principal trabalho est
feito.
Procurei o poeta cujo nome havia sido ligado ao meu, e,
com a natural ansiedade que nos produz a notcia de um
talento robusto, pedi-lhe que me lesse o seu drama e os
seus versos. No tive, como V. Ex., a fortuna de os ouvir
diante de um magnfico panorama. No se rasgavam
horizontes diante de mim: no tinha os ps nessa formosa
Tijuca, que V. Ex.. chama de um escabelo entre a nuvem
e o pntano. Eu estava no pntano. Em torno de ns
agitava-se a vida tumultuosa da cidade. No era o rudo
das paixes nem dos interesses; os interesses e as paixes
tinham passado a vara  loucura: estvamos no carnaval.
No meio desse tumulto abrimos um osis de solido.
161
Ouvi o Gonzaga e algumas poesias.
V. Ex.. j sabe o que  o drama e o que so os versos, j
os apreciou consigo, j resumiu a sua opinio. Esta carta,
destinada a ser lida pelo pblico, conter as impresses
que recebi com a leitura dos escritos do poeta.
No podiam ser melhores as impresses. Achei uma
vocao literria, cheia de vida e robustez, deixando
antever nas magnificncias do presente as promessas do
futuro. Achei um poeta original. O mal da nossa poesia
contempornea  ser copista - no dizer, nas idias e nas
imagens. Copi-las  anular-se. A musa do Sr. Castro Alves
tem feio prpria. Se se adivinha que a sua escola  a de
Vtor Hugo, no  porque o copie servilmente, mas porque
uma ndole irm levou-o a preferir o poeta das Orientais ao
poeta das Meditaes. No lhe aprazem certamente as
tintas brancas e desmaiadas da elegia; quer antes as cores
vivas e os traos vigorosos da ode.
Como o poeta que tomou por mestre, o Sr. Castro Alves
canta simultaneamente o que  grande e o que  delicado,
mas com igual inspirao e mtodo idntico; a pompa das
figuras, a sonoridade do vocbulo, uma forma esculpida
com arte, sentindo-se por baixo desses lavores o estro, a
espontaneidade, o mpeto. No  raro andarem separadas
estas duas qualidades da poesia: a forma e o estro. Os
verdadeiros poetas so os que as tm ambas. V-se que o
Sr. Castro Alves as possui; veste as suas idias com roupas
finas e trabalhadas. O receio de cair em um defeito no o
levar a cair no defeito contrrio? No me parece que lhe
haja acontecido isso; mas indico-lhe o mal, para que fuja
dele.  possvel que uma segunda leitura dos seus versos
me mostrasse alguns senes fceis de remediar; confesso
que os no percebi no meio de tantas belezas.
O drama, esse li-o atentamente; depois de ouvi-lo, li-o, e
reli-o, e no sei bem se era a necessidade de o apreciar, se
o encanto da obra. que me demorava os olhos em cada
pgina do volume.
O poeta explica o dramaturgo. Reaparecem no drama as
qualidades do verso; as metforas enchem o perodo;
sente-se de quando em quando o arrojo da ode. Sfocles
162
pede as asas a Pindaro. Parece ao poeta que o tablado 
pequeno; rompe o cu de lona e arroja-se ao espao livre e
azul.
Esta exuberncia, que V. Ex.. com justa razo atribui 
idade, concordo que o poeta h de reprimi-la com os anos.
Ento conseguir separar completamente lngua lrica da
lngua dramtica; e do muito que devemos esperar temos
prova e fiana no que nos d hoje.
Estreando no teatro com um assunto histrico, e assunto
de uma revoluo infeliz. o Sr. Castro Alves consultou a
ndole do seu gnio potico. Precisava de figuras que o
tempo houvesse consagrado; as da Inconfidncia tinham
alm disso a aurola do martrio. Que melhor assunto para
excitar a piedade? A tentativa abortada de uma revoluo,
que tinha por fim consagrar a nossa independncia,
merece e do Brasil de hoje aquela venerao que as raas
livres devem aos seus Espartanos. O insucesso f-los
criminosos; a vitria t-los-ia feito Washington. Condenouos
a justia legal; reabilita-os a justia histrica.
Condensar estas idias em uma obra dramtica,
transportar para a cena a tragdia poltica dos
Inconfidentes, tal foi o objeto do Sr. Castro Alves, e no
pode esquecer que, se o intuito era nobre, o cometimento
era grave. O talento do poeta superou a dificuldade; com
uma sagacidade , que eu admiro em to verdes anos,
tratou a histria e a arte por modo que, nem aquela o pode
acusar de infiel, nem esta de copista. Os que, como V.
Ex.a, conhecem esta aliana. ho de avaliar esse primeiro
merecimento do drama do Sr. Castro Alves.
A escolha de Gonzaga para protagonista foi certamente
inspirada ao poeta pela circunstncia dos seus legendrio
amores, de que  histria aquela famosa Marlia de Dirceu.
Mas no creio que fosse s essa circunstncia. Do processo
resulta que o cantor de Marlia era tido por chefe da
conspirao, em ateno aos seus talentos e letras. A
prudncia com que se houve desviou da sua cabea a Pena
capital. Tiradentes, esse era o agitador; serviu 
conspirao com uma atividade rara; era mais um
conspirador do dia que da noite. A justia o escolheu para
163
a forca. Por tudo isso ficou o nome ligado ao da tentativa
de Minas.
Os amores de Gonzaga traziam naturalmente ao teatro o
elemento feminino, e de um lance casavam-se em cena a
tradio poltica e a tradio potica, o corao do homem
e a alma do cidado. A circunstncia foi bem aproveitada
pelo autor; o protagonista atravessa o drama sem
desmentir a sua dupla qualidade de amante e de patriota;
casa no mesmo ideal os seus dois sentimentos. Quando
Maria lhe prope a fuga, no terceiro ato, o poeta no hesita
em repelir esse recurso, apesar de ser iminente a sua
perda. J ento a revoluo expira; para as ambies, se
ele as houvesse, a esperana era nenhuma; mas ainda era
tempo de cumprir o dever. Gonzaga preferiu seguir a lio
do velho Horrio corneiliano; entre o corao e o dever a
alternativa  dolorosa. Gonzaga satisfaz o dever e consola
o corao. Nem a ptria nem a amante podem lanar-lhe
nada em rosto.
O Sr. Castro Alves houve-se com a mesma arte em relao
aos outros conjurados. Para avaliar um drama histrico,
no se pode deixar de recorrer  histria; suprimir esta
condio  expor-se a crtica a no entender o poeta.
Quem v o Tiradentes do drama no reconhece logo aquele
conjurado impaciente e ativo, nobremente estouvado, que
tudo arrisca e empreende, que confia mais que todos no
sucesso da causa, e paga enfim as demasias do seu carter
com a morte na forca e a profanao do cadver? E
Cludio, o doce poeta, no o vemos todo ali, galhofeiro e
generoso, fazendo da conspirao uma festa e da liberdade
uma dama, gamenho no perigo, caminhando para a morte
com o riso nos lbios, como aqueles emigrados do Terror?
No lhe rola j na cabea a idia do suicdio, que praticou
mais tarde, quando a expectativa do patbulo lhe despertou
a fibra de Cato, casando-se com a morte, j que se no
podia casar com a liberdades? No  aquele o denunciante
Silvrio, aquele o Alvarenga, aquele o Padre Carlos? Em
tudo isso  de louvar a conscincia literria do autor. A
histria nas suas mos no foi um pretexto; no quis
profanar as figuras do passado, dando-lhes feies
caprichosas. Apenas empregou aquela exagerao artstica,
necessria ao teatro, onde os caracteres precisam de
164
relevo, onde  mister concentrar em pequeno espao todos
os traos de uma individualidade, todos os caracteres
essenciais de uma poca ou de um acontecimento.
Concordo que a ao parece as vezes desenvolver-se pelo
acidente material. Mas esses rarssimos casos so
compensados pela influncia do princpio contrrio em toda
a pea.
O vigor dos caracteres pedia o vigor da ao; ela 
vigorosa e interessante em todo o livro; pattica no ltimo
ato. Os derradeiros adeuses de Gonzaga e Maria excitam
naturalmente a piedade, e uns belos versos fecham este
drama, que pode conter as incertezas de um talento
Juvenil, mas que  com certeza uma invejvel estria.
Nesta rpida exposio das minhas impresses, v V. Ex.
que alguma coisa me escapou. Eu no podia, por exemplo,
deixar de mencionar aqui a figura do preto Lus. Em uma
conspirao para a liberdade, era justo aventar a idia da
abolio. Lus representa o elemento escravo. Contudo o
Sr. Castro Alves no lhe deu exclusivamente a paixo da
liberdade. Achou mais dramtico pr naquele corao os
desesperos do amor paterno. Quis tomar mais odiosa a
situao do escravo pela luta entre a natureza e o fato
social, entre a lei e o corao. Lus espera da revoluo,
antes da liberdade, a restituio da filha  a primeira
afirmao da personalidade humana; o cidado vir depois.
Por isso, quando no terceiro ato Lus encontra a filha j
cadver, e prorrompe em exclamaes e soluos, o corao
chora com ele, e a memria, se a memria pode dominar
tais comoes, nos traz aos olhos a bela cena do rei Lear,
carregando nos braos Cordlia morta. Quem os compara
no v nem o rei nem o escravo: v o homem.
Cumpre mencionar outras situaes igualmente belas.
Entra nesse nmero a cena da priso dos conjurados no
terceiro ato. As cenas entre Maria e o governador tambm
so dignas de meno, posto que prevalece no esprito o
reparo a que V. Ex. aludiu na sua carta. O corao exigira
menos valor e astcia da parte de Maria; mas, no 
verdade que o amor vence as repugnncia para vencer os
obstculos? Em todo o caso uma ligeira sombra no
empana o fulgor da figura.
165
As cenas amorosas so escritas com paixo; as palavras
saem naturalmente de uma alma para outra, prorrompem
de um para outro corao. E que contraste melanclico no
 aquele idlio s portas do desterro, quando j a justia
est prestes a vir separar os dois amantes!
Dir-se- que eu s recomendo belezas e no encontro
senes? J apontei os que cuidei ver. Acho mais duas ou
trs imagens que me no parecem felizes; e uma ou outra
locuo susceptvel de emenda. Mas que  isto no meio das
louanias da forma? Que as demasias do estilo, a
exuberncia das metforas, o excesso das figuras devem
obter a ateno do autor,  coisa to segura que eu me
limito a mencion-las; mas como no aceitar esta
prodigalidade de hoje, que pode ser a sbia economia de
amanh?
Resta-me dizer que, pintando nos seus personagens a
exaltao patritica, o poeta no foi s  lio do fato,
misturou talvez com essa exaltao um pouco do seu
prprio sentir.  a homenagem do poeta ao cidado. Mas,
consorciando os sentimentos pessoais aos dos seus
personagens,  intil distinguir o carter diverso dos
tempos e das situaes. Os sucessos que em 1822 nos
deram uma ptria e uma dinastia, apagaram antipatias
histricas que a arte deve reproduzir quando evoca o
passado.
Tais foram as impresses que me deixou este drama viril,
estudado e meditado, escrito com calor e com alma. A mo
 inexperiente, mas a sagacidade do autor supre a
inexperincia. Estudou e estuda; e um penhor que nos d.
Quando voltar aos arquivos histricos ou revolver as
paixes contemporneas, estou certo que o far com a no
na conscincia. Est moo, tem um belo futuro diante de
si. Venha desde j alistar-se nas fileiras dos que devem
trabalhar para restaurar o imprio das musas.
O fim  nobre, a necessidade  evidente. Mas o sucesso
coroar a obra?  um ponto de interrogao que h de ter
surgido no esprito de V. Ex.. Contra estes intuitos, to
santos quanto indispensveis, eu sei que h um obstculo,
e V. Ex. o sabe tambm:  a conspirao da indiferena.
Mas a perseverana no pode venc-la? Devemos esperar
166
que sim. Quanto a V. Ex., respirando nos degraus da
nossa Tijuca o hausto puro e vivificante da natureza, vai
meditando, sem dvida, em outras obras-primas com que
nos h de vir surpreender c embaixo. Deve faz-lo sem
temor. Contra a conspirao da indiferena, tem V. Ex.
um aliado invencvel:  a conspirao da posteridade.
[19] LCIO DE MENDONA: NVOAS MATUTINAS
[ RJ, 24 jan. 1872.]
MEU CARO POETA. - Estou que quer fazer destas linhas o
intrito de seu livro. Cumpre-me ser breve para no tomar
tempo ao leitor. O louvor, a censura, fazem-se com poucas
palavras. E todavia o ensejo era bom para uma longa
dissertao que comeasse nas origens da poesia helnica
e acabasse nos destinos provveis da humanidade. Ao
poeta daria de corao um away, com duas ou trs
citaes mais, que um estilista deve trazer sempre na
algibeira, como o mdico o seu estojo, para estes casos de
fora maior.
O ensejo era bom, porque um livro de versos, e versos de
amores, todo cheio de confidncias ntimas e pessoais,
quando todos vivemos e sentimos em prosa,  caso para
reflexes de largo flego.
Eu sou mais razovel. Aperto-lhe primeiramente a mo.
Conhecia j h tempo o seu nome ainda agora nascente, e
duas ou trs composies avulsas; nada mais. Este seu
livro, que daqui a pouco ser do pblico, vem mostrar-me
mais amplamente o seu talento, que o tem, bem como os
seus defeitos, que no podia deixar de os ter. Defeitos no
fazem mal, quando h vontade e poder de os corrigir. A
sua idade os explica, e no at se os pede; so por assim
dizer estranhezas de menina, quase moa: a compostura
de mulher vir com o tempo.
E para liquidar de uma vez este ponto dos senes, permitame
dizer-lhe que o principal deles  realizar o livro a idia
do ttulo. Chamou-lhe acertadamente Nvoas Matutinas.
Mas por que Nvoas? No as tem a sua idade, que  antes
167
de cu limpo e azul, de entusiasmo e arrebatamento e de
f.  isso geralmente o que se espera ver num livro de
rapaz. Imagina o leitor e com razo, que de envolta com
algumas perptuas, viro muitas rosas de boa cor, e acha
que estas so raras. H aqui mais saudades que
esperanas, e ainda mais desesperanas que saudades.
 plena primavera diz o senhor na dedicatria dos seus
livros, e contudo o que  que envia  dileta de sua alma?
Ide, plidas flores peregrinas, exclama logo adiante com
suavidade e graa. No o diz por necessidade de compor o
verso, mas porque efetivamente  assim; porque nesta sua
primavera h mais folhas plidas que verdes.
A razo, meu caro poeta, no a procure tanto em si, como
no tempo;  do tempo esta poesia prematuramente
melanclica. No lhe negarei que h na sua lira uma corda
sensivelmente elegaca, e desde que a h. Cumpria tangla.
O defeito est em torn-la exclusiva. Nisto cede a
tendncia comum, e quem sabe tambm se a alguma
intimidade intelectual? O estudo constante de alguns
poetas talvez influsse na feio geral do seu livro.
Quando o senhor suspira estes belos versos:
 terra morta num inverno inteiro
Voltam a primavera e as andorinhas...
E nunca mais vireis,  crenas minhas,
Nunca mais voltars, amor primeiro!
nenhuma objeo lhes fao, creio na dor que eles
exprimem, acho que so um eco sincero do corao. Mas
quando o senhor chama a sua alma uma runa, j me
achar mais incrdulo. Isto lhe digo eu com conhecimento
de causa, porque tambm eu cedi em minhas estrias a
esse pendor do tempo.
Sentimento, versos cadentes e naturais, idias poticas,
ainda que pouco variadas, so qualidades que a crtica lhe
achar neste livro. Se ela disser, e deve dizer-lho, que a
forma nem sempre  correta, e que a linguagem no tem
ainda o conveniente alinho, pode responder-lhe que tais
senes o estudo se incumbir de os apagar.
168
O pblico vai examinar por si mesmo o livro. Reconhecera
o talento do poeta, a brandura do seu verso (que por isso
mesmo se no adapta aos assuntos polticos, de que h
algumas estncias neste livro), e saber escolher entre
estas flores as mais bela, das quais algumas mencionarei,
como sejam: "Tu", "Campesina", "A Volta", "Galope
Infernal".
Se, como eu suponho, for o seu livro recebido com as
simpatias e animaes que merece, no durma sobre os
louros. No se contente com uma ruidosa nomeada; reaja
contra as sugestes complacentes do seu prprio esprito;
aplique o seu talento a um estudo continuado e severo;
seja enfim o mais austero crtico de si mesmo.
Deste modo conquistar certamente o lugar a que tem
pleno direito. Assim o deseja e espera o seu colega.
[20] FAGUNDES VARELA
[RJ., 19 ( ? ) ago. 1875.]
MEU PREZADO COLEGA.  Ainda no  tarde para falar de
Varela. No o  nunca para as homenagens pstumas, se
aquele a quem so feitas as merece por seus talentos e
aes. Varela no  desses mortos comuns cuja memria
est sujeita  condio da oportunidade; no passou pela
vida, como a ave no ar, sem deixar vestgio; talhou para si
uma larga pgina nos anais literrios do Brasil.
 vulgar a queixa de que a plena justia s comea depois
da morte; de que haja muita vez um abismo entre o
desdm dos contemporneos e a admirao da
posteridade. A enxerga de Cames  cedia na prosa e no
verso do nosso tempo; e por via de regra a gerao
presente condena as injrias do passado para com os
talentos, que ela admira e lastima. A condenao  justa, a
lstima  descabida porquanto, digno de inveja  aquele
que, transpondo o limite da vida, deixa alguma coisa de si
na memria e no corao dos homens, fugindo assim ao
comum olvido das geraes humanas.
169
Varela  desses bem-aventurados pstumos. Sua vida foi
atribulada; seus dias no correram serenos, retos e felizes.
Mas a morte, que lhe levou a forma perecvel, no apagou
dos livros a parte substancial do seu ser; e esta admirao
que lhe votamos  certamente prmio, e do melhor.
Poeta de larga inspirao, original e viosa, modulando
seus versos pela toada do sentimento nacional, foi ele o
querido da mocidade do seu tempo. Conheci-o em 1860,
quando a sua reputao, feita nos bancos acadmicos, ia
passando dali aos outros crculos literrios do pas. Seus
companheiros de estudo pareciam ador-lo; tinham-lhe de
cor os magnficos versos com que ele traduzia os sonhos
de sua imaginao vivaz e fecunda. Havia mais fervor
naquele tempo, ou eu falo com as impresses de uma
idade que passou?
Parece-me que a primeira hiptese  a verdadeira. Vivia-se
de imaginao e poesia; cada produo literria era um
acontecimento. Ningum mais do que Varela gozou essa
exuberncia juvenil; o que ele cantava imprimia-se no
corao dos moos.
Se fizesse agora a anlise dos escritos que nos deixou o
poeta das Vozes da Amrica, mostraria as belezas de que
esto cheios, apontaria os senes que porventura lhe
escaparam. Mas que adiantaria isto  compreenso
pblica? A crtica seria um intermedirio suprfluo. O
"Cntico do Calvrio", por exemplo, e a "Mimosa", no
precisam comentrios, nem anlises; lem-se, sentem-se,
admiram-se, independente de observaes crticas.
"Mimosa" que acabo de citar, traz o cunho e revela
perfeitamente as tendncias da inspirao do nosso poeta.
 um conto da roa, cuja vida ele estudou sem esforo
nem preparao, porque a viveu e amou. A natureza e a
vida do interior eram em geral, as melhores fontes da
inspirao de Varela, ele sabia pint-los com fidelidade e
viveza raras, com uma ingenuidade de expresso toda sua.
Tinha para esse efeito a poesia de primeira mo, a
genuna, tirada de si mesmo e diretamente aplicada s
cenas que o cercavam e  vida que vivia.
170
Adiantando-se o tempo, e dadas as primeiras flores do
talento em livros que todos conhecemos, planeou o poeta
uni poema, que deixou pronto, embora sem as ntimas
correes, segundo se diz.
Ouvi um canto do Evangelho nas Selvas, e imagino por ele
o que sero os outros. O assunto era vasto, elevado,
potico; tinha muito por onde seduzir a imaginao do
autor das Vozes da Amrica. A figura de Anchieta, a Paixo
de Jesus, a vida selvagem e a natureza brasileiras, tais
eram os elementos com que ele tinha de lutar e que devia
forosamente vencer, porque iam todos com a feio do
seu talento, com a potica ternura de seu corao. Ele
soube escolher o assunto, ou antes o assunto imps-se-lhe
com todos os seus atrativos.
O Evangelho nas Selvas ser certamente a obra capital de
Varela; vir colocar-se entre outros filhos da mesma
famlia, o Uruguai e Os Timbiras, iras, entre os Tamois e o
Caramuru.
A literatura brasileira  uma realidade e os talentos como o
do nosso poeta o iro mostrando a cada gerao nova,
servindo ao mesmo tempo de estmulo e exemplo. A
mocidade atual, to cheia de talento e legtima ambio,
deve pr os olhos nos modelos que nos vo deixando os
eleitos da glria, como aquele era, da glria e do
infortnio, tanta vez unidos na mesma cabea. A herana
que lhe cabe  grande, e grave a responsabilidade. Acresce
que a poesia brasileira parece dormitar presentemente;
uns mergulharam na noite perptua; outros emudeceram,
ao menos por instantes; outros enfim como Magalhes,
Porto Alegre, prestam  ptria servios de diferente
natureza. A poesia dorme, e  mister acord-la; cumpre
cingi-la das nossas flores rsticas e prprias, qual as
colheram Dias, Azevedo e Varela. para s falar dos mortos.
[21] EA DE QUEIRS: O PRIMO BASILIO
UM DOS BONS e vivazes talentos da atual gerao
portuguesa, o Sr. Ea de Queirs, acaba de publicar o seu
171
segundo romance, o Primo Baslio. O primeiro. O Crime do
Padre Amaro, no foi decerto a sua estria literria. De
ambos os lados do Atlntico, aprecivamos h muito o
estilo vigoroso e brilhante do colaborador do Sr. Ramalho
Ortigo, naquelas agudas Farpas, em que alis os dois
notveis escritores formaram um s. Foi a estria no
romance, e to ruidosa estria, que a crtica e o pblico, de
mos dadas, puseram desde logo o nome do autor na
primeira galeria dos contemporneos. Estava obrigado a
prosseguir na carreira encetada; digamos melhor, a colher
a palma do triunfo. Que , e completo  incontestvel.
Mas esse triunfo  somente devido ao trabalho real do
autor? O Crime do Padre Amaro revelou desde logo as
tendncias literrias do Sr. Ea de Queirs e a escola a que
abertamente se filiava. O Sr. Ea de Queirs  um fiel e
asprrimo discpulo do realismo propagado pelo autor do
assommoir. Se fora simples copista, o dever da crtica era
deix-lo, sem defesa, nas mos do entusiasmo cego, que
acabaria por mat-lo; mas  homem de talento, transps
ainda h pouco as portas da oficina literria; e eu, que lhe
no nego a minha admirao, tomo a peito dizer-lhe
francamente o que penso, j da obra em si, j das
doutrinas e prticas, cujo iniciador , ia Ptria de Alexandre
Herculano e no idioma de Gonalves Dias.
Que o Sr. Ea de Queirs  discpulo do autor do
Assmmoir, ningum h que o no conhea. O prprio O
Crime do Padre Amaro  imitao do romance de Zola, La
Faute de L'Abb Mouret. Situao anloga, iguais
tendncias; diferena do meio; diferena do desenlace;
idntico estilo; reminiscncias, como no captulo da missa,
e outras; enfim, o mesmo ttulo. Quem os leu a ambos,
no contestou decerto a originalidade do Sr. Ea de
Queirs, porque ele tinha, e tem, e a manifesta de modo
afirmativo; creio at que essa mesma originalidade deu
motivo ao maior defeito na concepo d' O Crime do Padre
Amaro. O Sr. Ea de Queirs alterou naturalmente as
circunstncias que rodeavam o Padre Mouret,
administrador espiritual de uma parquia rstica,
flanqueado de um padre austero e rspido; o Padre Amaro
vive numa cidade de provncia no meio de mulheres, ao
lado de outros que do sacerdcio s tm a batina e as
propinas; v-os concupiscentes e maritalmente
172
estabelecidos, sem perderem um s tomo de influncia e
considerao.
Sendo assim, no se compreende o terror do Padre Amaro,
no dia em que do seu erro lhe nasce um filho, e muito
menos se compreende que o mate. Das duas foras que
lutam na alma do Padre Amaro, uma  real e efetiva o
sentimento da paternidade; a outra  quimrica e
impossvel o terror da opinio, que ele tem visto tolerante
e cmplice no desvio dos seus confrades; e no obstante, 
esta a fora que triunfa. Haver a alguma verdade moral?
Ora bem, compreende-se a ruidosa aceitao d' O Crime
do Padre Amaro. Era realismo implacvel, conseqente,
lgico, levado  puerilidade e  obscuridade. Vamos
aparecer na nossa lngua um realista sem rebuo, sem
atenuaes, sem melindres, resoluto a vibrar o camartelo
no mrmore da outra escola, que aos olhos do Sr. Ea de
Queirs parecia uma simples runa, uma tradio acabada.
No se conhecia no nosso idioma aquela reproduo
fotogrfica e servil das coisas mnimas e ignbeis Pela
primeira vez, aparecia um livro em que o escuso e o
digamos o prprio termo, pois tratamos de repelir a
doutrina, no o talento, e menos o homem, em que o
escuso e o torpe eram tratados com um carinho minucioso
e relacionados com uma exao de inventrio. A gente de
gosto leu com prazer alguns quadros, excelentemente
acabados, em que o Sr. Ea de Queirs esquecia por
minutos as preocupaes da escola; e, ainda nos quadros
que lhe destoavam, achou mais de um rasgo feliz, mais de
uma expresso verdadeira; a maioria, porm, atirou-se ao
inventrio. Pois que havia de fazer a maioria, seno
admirar a fidelidade de um autor, que no esquece nada, e
no oculta nada? Porque a nova potica  isto, e s
chegar  perfeio no dia em que nos disser o nmero
exato dos fios de que se compe um leno de cambraia ou
um esfrego de cozinha. Quanto  ao em si, e os
episdios que a esmaltam. foram um dos atrativos d O
Crime do Padre Amaro, e o maior deles; tinham o mrito
do pomo defeso. E tudo isso, saindo das mos de um
homem de talento, produziu o sucesso da obra.
Certo da vitria, o Sr. Ea de Queirs reincidiu no gnero,
trouxe-nos O Primo Baslio, cujo xito  evidentemente
173
maior que o do primeiro romance, sem que, alis, a ao
seja mais intensa, mais interessante ou vivaz nem mais
perfeito o estilo. A que atribuir a maior aceitao deste
livro? Ao prprio fato da reincidncia e, outrossim, ao
requinte de certos lances, que no destoaran paladar
Pblico. Talvez o autor se enganou em um ponto. Uma das
passagens que maior impresso fizeram, n' O Crime do
Padre Amaro, foi a palavra de calculado cinismo, dita pelo
heri. O heri d' O Primo Baslio remata o livro com um
dito anlogo; e, se no primeiro romance  ele caracterstico
e novo, no segundo  j rebuscado, tem um ar de clich;
enfastia. Excludo esse lugar, a. reproduo dos lances e do
estilo  feita com o artificio necessrio, para lhes dar novo
aspecto e igual impresso.
Vejamos o que  O Primo Baslio e comecemos por uma
palavra que h nele. Um dos personagens, Sebastio,
conta a outro o caso de Baslio, que, tendo namorado Lusa
em solteira, estivera para casar com ela; mas falindo o pai,
veio para o Brasil, donde escreveu desfazendo o
casamento. Mas  a Eugnia Grandet! exclama o outro. O
Sr. Ea de Queirs incumbiu-se de nos dar o fio da sua
concepo. Disse talvez consigo: Balzac separa os dois
primos, depois de um beijo (alis. o mais casto dos beijos).
Carlos vai para a Amrica; a outra fica, e fica solteira. Se a
casssemos com outro, qual seria o resultado do encontro
dos dois na Europa? Se tal foi a reflexo do autor, devo
dizer, desde j que de nenhum modo plagiou os
personagens de Balzac. A Eugnia deste, a provinciana
singela e boa, cujo corpo, alis robusto, encerra uma alma
apraixonada e sublime, nada tem com a Lusa do Sr. Ea
de Queirs.
Na Eugnia, h uma personalidade acentuada, uma figura
moral, que por isso mesmo nos interessa e prende; a Lusa
fora  diz-lo a Lusa  um carter negativo, e no meio da
ao ideada pelo autor,  antes um ttere do que uma
pessoa moral.
Repito,  um ttere; no quero dizer que no tenha nervos
e msculos; no tem mesmo outra coisa; no lhe peam
paixes nem remorsos; menos ainda conscincia.
174
Casada com Jorge, faz este uma viagem ao Alentejo,
ficando ela sozinha em Lisboa; aparece-lhe o primo Baslio,
que a amou em solteira. Ela j o no ama; quando leu a
notcia da chegada dele, doze dias antes, ficou muito
"admirada"; depois foi cuidar dos coletes do marido. Agora,
que o v, comea por ficar nervosa; ele lhe fala das
viagens, do patriarca de Jerusalm, do papa, das luvas de
oito botes, de um rosrio e dos namoros de outro tempo;
diz-lhe que estimara ter vindo justamente na ocasio de
estar o marido ausente.
Era uma injria: Lusa fez-se escarlate; mas  despedida
d-lhe a mo a beijar, d-lhe at entender que o espera no
dia seguinte. Ele sai; Lusa sente-se "afogueada, cansadas,
vai despir-se diante de um espelho, "olhando-se muito,
gostando de se ver branca". A tarde e a noite gasta-as a
pensar ora no primo, ora no marido. Tal  o intrito. de
uma queda, que nenhuma razo moral explica, nenhuma
paixo, sublime ou subalterna, nenhum amor, nenhum
despeito, nenhuma perverso sequer. Lusa resvala no
lodo, sem vontade, sem repulsa, sem conscincia; Baslio
no faz mais do que empux-la, como matria inerte, que
. Uma vez rolada ao erro, como nenhuma flama espiritual
a alenta, no acha ali a saciedade das grandes paixes
criminosas: simplesmente.
Assim, essa ligao de algumas semanas, que  o fato
inicial e essencial da ao, no passa de um incidente
ertico, sem relevo, repugnante, vulgar. Que tem o leitor
do livro com essas duas criaturas sem ocupao nem
sentimentos? Positivamente nada.
E aqui chegamos ao defeito capital da concepo do Sr.
Ea de Queirs. A situao tende a acabar, porque o
marido est prestes a voltar do Alentejo, e Baslio comea
a enfastiar-se, e, j por isso j porque o instiga um
companheiro seu, no tardar a trasladar-se a Paris.
Interveio, neste ponto, uma criada. Juliana. o carter mais
completo e verdadeiro do livro; Juliana est enfadada de
servir; espreita um meio de enriquecer depressa; logra
apoderar-se de quatro cartas;  o triunfo,  a opulncia.
Um dia em que a ama lhe ralha com aspereza, Juliana
denuncia as armas que possui. Lusa resolve fugir com o
primo; prepara um saco de viagem, mete dentro alguns
175
objetos, entre eles um retrato do marido. Ignoro
inteiramente a razo fisiolgica ou psicolgica desta
precauo de ternura conjugal: deve haver alguma; em
todo caso, no  aparente. No se efetua a fuga, porque o
primo rejeita essa complicao; limita-se a oferecer o
dinheiro para reaver as cartas, dinheiro que a prima recusa
despede-se e retira-se de Lisboa. Da em diante o cordel
que move a alma inerte de Lusa passa das mos de Baslio
para as da criada. Juliana, com a ameaa nas mos, obtm
de Lusa tudo, que lhe d roupa, que lhe troque a alcova,
que lha forre de palhinha, que a dispense de trabalhar. Faz
mais: obriga-a a varrer, a engomar, a desempenhar outros
misteres imundos. Um dia Lusa no se contm; confia
tudo a um amigo de casa, que ameaa a criada com a
polcia e a priso, e obtm assim as fatais letras. Juliana
sucumbe a um aneurisma; Lusa, que j padecia com a
longa ameaa e perptua humilhao, expira alguns dias
depois.
Um leitor perspicaz ter j visto a incongruncia da
concepo do Sr. Ea de Queirs, e a inanidade do carter
da herona. Suponhamos que tais cartas no eram
descobertas, ou que Juliana no tinha a malcia de as
procurar, ou enfim que no havia semelhante fmula em
casa, nem outra da mesma ndole. Estava acabado o
romance, porque o primo enfastiado seguiria para Frana,
e Jorge regressaria do Alentejo; os dois esposos voltavam
 vida anterior. Para obviar, a esse inconveniente, o autor
inventou a criada e o episdio das cartas, as ameaas, as
humilhaes, as angstias e logo a doena, e a morte da
herona. Como  que um esprito to esclarecido, como o
do autor, no viu que semelhante concepo era a coisa
menos congruente e interessante do mundo? Que temos
ns com essa luta intestina entre a ama e a criada, e em
que nos pode interessar a doena de uma e a morte de
ambas? C fora, uma senhora que sucumbisse s
hostilidades de pessoas de seu servio, em conseqncia
de cartas extraviadas, despertaria certamente grande
interesse, e imensa curiosidade; e, ou a condenssemos,
ou lhe perdossemos, era sempre um caso digno de
lstima. No livro  outra coisa. Para que me atraia e me
prenda,  preciso que as tribulaes que a afligem venham
dela mesma; seja uma rebelde ou uma arrependida; tenha
remorsos ou imprecaes; mas, por Deus! d-me a sua
176
pessoa moral. Gastar o ao da pacincia a fazer tapar a
boca de uma cobia subalterna, a substitu-la nos misteres
nfimos, a defend-la dos ralhos do marido,  cortar todo o
vnculo moral entre ela e ns. J nenhum h, quando Lusa
adoece e morre. Por qu? porque sabemos que a catstrofe
 o resultado de uma circunstncia fortuita, e nada mais; e
conseqentemente por esta razo capital: Lusa no tem
remorsos, tem medo.
Se o autor, visto que o Realismo tambm inculca vocao
social e apostlica, intentou dar no seu romance algum
ensinamento ou demonstrar com ele alguma tese, fora 
confessar que o no conseguiu, a menos de supor que a
tese ou ensinamento seja isto: A boa escolha dos fmulos
 uma condio de paz no adultrio. A um escritor
esclarecido e de boa f, como o Sr. Ea de Queirs, no
seria lcito contestar que, por mais singular que parea a
concluso, no h outra no seu livro. Mas o autor poderia
retorquir: No, no quis formular nenhuma lio social ou
moral; quis somente escrever uma hiptese; adoto o
realismo, porque  a verdadeira forma da arte e a nica
prpria do nosso tempo e adiantamento mental; mas no
me proponho a lecionar ou curar; exero a patologia, no a
teraputica. A isso responderia eu com vantagem: Se
escreveis uma hiptese dai-me a hiptese lgica, humana,
verdadeira. Sabemos todos que  aflitivo o espetculo de
uma grande dor fsica; e, no obstante,  mxima corrente
em arte, que semelhante espetculo, no teatro, no
comove a ningum; ali vale somente a dor moral. Ora
bem; aplicai esta mxima ao vosso realismo, e sobretudo
proporciona o efeito  causa, e no exijais a minha
comoo a troco de um equvoco.
E passemos agora ao mais grave, ao gravssimo.
Parece que o Sr. Ea de Queirs quis dar-nos na herona
um produto da educao frvola e da vida ociosa; no
obstante, ha ai traos que fazem supor,  primeira vista,
uma vocao sensual. A razo disso  a fatalidade das
obras do Sr. Ea de Queirs ou, noutros termos, do seu
realismo sem condescendncia:  a sensao fsica. Os
exemplos acumulam-se de pgina a pgina; apont-los,
seria reuni-los e agravar o que h neles desvendado e cru.
Os que de boa f supem defender o livro, dizendo que
177
podia ser expurgado de algumas cenas, para s ficar o
pensamento moral ou social que o engendrou, esquecem
ou no reparam que isso  justamente a medula da
composio. H episdios mais crus do que outros. Que
importa elimin-los? No poderamos eliminar o tom do
livro. Ora, o tom  o espetculo dos ardores, exigncias e
perverses fsicas. Quando o fato lhe no parece bastante
caracterizado com o termo prprio, o autor acrescenta-lhe
outro imprprio. De uma carvoeira, a Porta da loja, diz ele
que apresentava a "gravidez bestial". Bestial por qu?
Naturalmente, porque o adjetivo avolume o substantivo e o
autor no v ali o sinal da maternidade humana; v um
fenmeno animal, nada mais.
Com tais preocupaes de escola, no admira que a pena
do autor chegue ao extremo de correr o reposteiro
conjugal que nos talhe as suas mulheres pelos aspectos e
trejeitos da concupiscncia; escreva reminiscncias e
aluses de um erotismo, que Proudhon chamaria
onissexual e onmodo; que no meio das tribulaes que
assaltam a herona, no lhe infunda no corao em relao
ao esposo, as esperanas de um sentimento superior, mas
somente os clculos da sensualidade e os "mpetos de
concubina"; que nos d as cenas repugnantes do Paraso;
que no esquea sequer os desenhos torpes de um
corredor de teatro. No admira;  fatal; to fatal como a
outra preocupao correlativa. Ruim molstia  o catarro;
mas por que ho de padecer dela os personagens do Sr.
Ea de Queirs? N'OCrime do Padre Amaro h bastantes
afetados de tal achaque; n'O Primo Baslio fala-se apenas
de um caso: um indivduo que morreu de catarro na
bexiga. Em compensao h infinitos "jactos escuros de
saliva". Quanto  preocupao constante do acessrio,
bastar citar as confidncias de Sebastio a Juliana, feitas
casualmente  porta e dentro de uma confeitaria, para
termos ocasio de ver reproduzidos o mostrador e as suas
pirmides de doces, os bancos, as mesas. um sujeito que
l um jornal e cospe a mido o choque das bolas de bilhar,
uma rixa interior, e outro sujeito que sai a vociferar contra
o parceiro: bastar citar o longo jantar do Conselheiro
Accio (transcrio do personagem de Henri Monier):
finalmente, o captulo do Teatro de S. Carlos, quase no fim
do livro. Quando todo o interesse se concentra em casa de
Lusa, onde Sebastio trata-se reaver as cartas subtradas
178
Dela criada. descreve-nos o autor uma noite inteira de
espetculos, a platia. os camarotes. a cena, uma
altercao de espectadores.
Que os trs quadros esto acabados com muita arte,
sobretudo o primeiro,  coisa que a crtica imparcial deve
reconhecer; mas por que avolumar tais acessrios at o
ponto de abafar o principal?
Talvez estes reparos seriam menos atendeis, desde que o
nosso ponto de vista  diferente. O Sr. Ea de Queirs no
quer ser realista mitigado, mas intenso e completo: e da
vem que o tom carregado das tintas, que nos assusta, para
ele  simplesmente o tom, prprio. Dado, porm, que a
doutrina do Sr. Ea de Queirs fosse verdadeira, ainda
assim cumpria no acumular tanto as cores, nem acentuar
tanto as linhas: e quem o diz  o prprio chefe da escola
,de quem li, h pouco, e no sem pasmo, que o perigo do
momento realista  haver quem suponha que o trao
grosso  o trao, exato. Digo isto no interesse do talento
do Sr. Ea de Queirs na no da doutrina que lhe  adversa;
porque a esta o que mais importante  que o Sr. Ea de
Queirs escreva outros livros como O Primo Baslio. Se tal
suceder, o Realismo na nossa lngua ser estrangulado no
bero: e a arte pura, apropriando-se do que ele contiver
aproveitvel evitvel (porque o h, quando se no
despenha no excessivo, no tedioso, no obsceno, e at no
ridculo), a arte pura, digo eu, voltar a beber aquelas
guas sadia, d'OMongede Cister, d'O Arco de San' A na e
d'O Guarani.
A atual literatura portuguesa  assaz rica de fora e talento
para podermos afianar que este resultado ser certo, e
que a herana de Garrett se transmitir intacta s mos da
gerao vindoura.
H quinze dias, escrevi nestas colunas uma apreciao
crtica do segundo romance do Sr. Ea de Queirs, O Primo
Baslio, e da para c apareceram dois artigos em resposta
ao meu, e porventura algum mais em defesa do romance.
Parece que a certa poro de leitores desagradou a
severidade da crtica. No admira; nem a severidade est
muito nos hbitos da terra, nem a doutrina realista  to
nova que no conte j, entre ns, mais de um frvido
179
religionrio. Criticar o livro, era muito; refutar a doutrina,
era demais. Urgia, portanto, destruir as objees e
aquietar os nimos assustados; foi o que se pretendeu
fazer e foi o que se no fez.
Pela minha parte, podia dispensar-me de voltar ao assunto.
Volto (e pela ltima vez) porque assim o merece a cortesia
dos meus contendores; e, outrossim, porque no fui
entendido em uma das minhas objees.
E antes de ir adiante, convm retificar um ponto. Um dos
meus contendores acusa-me de nada achar bom n'O Primo
Baslio. No advertiu que, alm de proclamar o talento do
autor (seria pueril negar-lho) e de lhe reconhecer o dom da
observao, notei o esmero de algumas pginas e a
perfeio de um dos seus caracteres. No me parece que
isto seja negar tudo a um livro, e a um segundo livro.
Disse comigo: Este homem tem faculdades de artista,
dispe de um estilo de boa tmpera, tem observao; mas
o seu livro traz defeitos que me parecem graves, uns de
concepo, outros da escola em que o autor  aluno, e
onde aspira a tornar-se mestre; digamos-lhe isto mesmo,
com a clareza e franqueza a que tm jus os espritos ritos
de certa esfera. E foi o que fiz, preferindo s generalidades
do diletantismo literrio a anlise sincera e a reflexo
paciente e longo. Censurei e louvei, crendo haver assim
provado duas coisas: a lealdade da minha crtica e a
sinceridade da minha admirao.
Venhamos agora  concepo do Sr. Ea de Queirs, e
tomemos a liberdade de mostrar aos seus defensores como
se deve ler e ene tender uma objeo. Tendo eu dito que,
se no houvesse o extravio das cartas, ou se Juliana fosse
mulher de outra ndole, acabava o romance em meio,
porque Baslio, enfastiado, segue para a Frana, Jorge
volta do Alentejo, e os dois esposos tornariam  vida
antiga, replicam-me os meus contendores de um modo, na
verdade, singular. Um achou a objeo ftil e at cmica;
outro evocou os manes de Judas Macabeu, de Antoco, e do
elefante de Antoco. Sobre o elefante foi construda uma
srie de hipteses destinadas a provar a futilidade do meu
argumento. Por que Herculano fez Eurico um presbtero?
Se Hermengarda tem casado com o gardingo logo no
comeo, haveria romance? Se o Sr. Ea de Queirs no
180
houvesse escrito O Primo Baslio, estaramos agora a
analis-lo? Tais so as hipteses, as perguntas, as
dedues do meu argumento: e foi-me Precisa toda a
confiana que tenho na boa f dos defensores do livro,
para no supor que estavam mofar de mim e do pblico.
Que no entendessem, v; no era um desastre
irreparvel. Mas uma vez que no entendiam, podiam
lanar mo de um destes dois meios: reler-me ou calar.
Preferiram atribuir-me um argumento de simplrio;
involuntariamente, creio; mas, em suma, no me
atriburam outra coisa. Releiam-me; l vero que, depois
de analisar o carter de Lusa, de mostrar que ela cai sem
repulsa nem vontade, que nenhum amor nem dio a abala,
que o adultrio  ali uma simples aventura passageira,
chego  concluso de que, com tais caracteres como Lusa
e Baslio, uma vez separados os dois, e regressando o
marido, no h meio de continuar o romance, porque os
heris e a ao no do mais nada de si, e o erro de Lusa
seria um simples parnteses no perodo conjugal .
Voltariam todos ao primeiro captulo: Lusa tornava a pegar
no Dirio de Notcias, naquela sala de jantar to bem
descrita pelo autor; Jorge ia escrever os seus relatrios, os
freqentadores da casa continuariam a ir ali encher os
seres. Que acontecimento, logicamente deduzido da
situao moral dos personagens, podia vir continuar uma
ao extinta? Evidentemente nenhum. Remorsos? No h
probabilidades deles; porque, ao anunciar-se a volta do
marido, Lusa, no obstante o extravio das cartas, esquece
todas as inquietaes, "sob uma sensao de desejo que a
inunda". Tirai o extravio das cartas, a casa de Jorge passa
a ser uma nesga do paraso; sem essa circunstncia,
inteiramente casual, acabaria o romance. Ora, a
substituio do principal pelo acessrio, a ao
transplantada dos caracteres e dos sentimentos para o
incidente, para o fortuito, eis o que me pareceu
incongruente e contrrio s leis da arte.
Tal foi a minha objeo. Se algum dos meus contendores
chegar a demonstrar que a objeo no  sria, ter
cometido uma ao extraordinria. At l, ser-me- lcito
conservar uma pontazinha de cepticismo.
181
Que o Sr. Ea de Queirs podia lanar mo do extravio das
cartas, no serei eu que o conteste; era seu direito. No
modo de exercer  que a crtica lhe toma contas. O leno
de Desdmona tem larga parte na sua morte; mas a alma
ciosa e ardente de Otelo, a perfdia de Iago e a inocncia
de Desdmona, eis os elementos principais da ao. O
drama existe, porque est nos caracteres, nas paixes, na
situao moral dos personagens: o acessrio no domina o
absoluto;  como a rima de Boileau: il ne doit qu'obir.
Extraviem-se as cartas, faa uso delas Juliana;  um
episdio como qualquer outro. Mas o que, a meu ver,
constitui o defeito da concepo do Sr. Ea de Queirs, 
que a ao, j despida de todo o interesse anedtico,
adquire um interesse de curiosidade. Lusa resgatar
cartas? Eis o problema que o leitor tem diante de si. A
vida, os cuidados, os pensamentos da herona no tm
outro objeto, seno esse. H uma ocasio em que, no
sabendo onde ir buscar o dinheiro necessrio ao resgate,
Lusa compra umas cautelas de loteria; sai branco.
Suponhamos (ainda uma suposio) que o nmero sai
premiado; as cartas eram entregares; e, visto que Lusa
no tem mais do que medo, se lhe restabelecia a paz do
esprito, e com ela a paz domstica. Indicar a possibilidade
desta concluso  patentear o valor da minha crtica.
Nem seria para admirar o desenlace pela loteria, porque a
loteria tem influncia decisiva em certo momento da
aventura. Um dia arrufada com o amante, Lusa fica incerta
se ir v-lo ou no; atira ao ar uma moeda de cinco
tostes; era cunho: devia ir e foi. Esses traos de carter 
que me levaram a dizer, quando a comparei com a
Eugnia, de Balzac, que nenhuma semelhana havia entre
as duas, porque esta tinha uma forte acentuao moral, e
aquela no passava de um ttere. Parece que a designao
destoou no esprito dos meus contendores, e houve esforo
comum para demonstrar que a designao era uma calnia
ou uma superfluidade. Disseram-me que, se Lusa era um
ttere, no podia ter msculos e nervos, como no podia
ter medo, porque os tteres no tm medo.
Supondo que este trocadilho de idias veio somente para
desenfadar o estilo, me abstenho de o considerar mais
tempo; mas no irei adiante sem convidar os defensores a
todo transe a que releiam com pausa, o livro do Sr. Ea de
182
Queirs:  o melhor mtodo quando se procura penetrar a
verdade de uma concepo. No direi, com Buffon, que o
gnio  a pacincia; mas creio poder afirmar que a
pacincia  a metade da sagacidade: ao menos, na crtica.
Nem basta ler;  preciso comparar, deduzir, aferir a
verdade do autor. Assim  que, estando Jorge de regresso
e extinta a aventura do primo, Lusa cerca o marido de
todos os cuidados - "cuidados de me e mpetos de
concubina". Que nos diz o autor nessa pgina? Que Lusa
se envergonhava um pouco da maneira "por que amava o
marido; sentia vagamente que naquela violncia amorosa
havia pouca dignidade conjugal. Parecia-lhe que tinha
apenas um capricho".
Que horror! Um capricho por um marido! Que lhe
importaria, de resto? "Aquilo fazia-a feliz". No h
absolutamente nenhum meio de atribuir a Lusa esse
escrpulo de dignidade conjugal; est ali porque o autor
no-lo diz; mas no basta; toda a composio do carter de
Lusa  antinmica com semelhante sentimento. A mesma
coisa diria dos remorsos que o autor lhe atribui, se ele no
tivesse o cuidado de os definir (p. 440). Os remorsos de
Lusa, permita-me diz-lo, no  a vergonha da
conscincia,  a vergonha dos sentidos; ou, como diz o
autor: "um gosto infeliz em cada beijo". Medo, sim; o que
tem  medo; disse o eu e di-lo ela prpria: "Que feliz seria,
se no fosse a infame!"
Sobre a linguagem, aluses, episdios, e outras partes do
livro, notadas por mim, como menos prprias do decoro
literrio, um dos contendores confessa que os acha
excessivos, e podiam ser eliminados, ao passo que outro os
aceita e justifica, citando em defesa o exemplo de Salomo
na poesia do Cntico do Cnticos:
On ne satendait gure
A voir la Bible en cette-affaire;
e menos ainda se podia esperar o que nos diz do livro
bblico. Ou recebeis o livro como deve fazer um catlico,
isto , em seu sentido mstico e superior, e em tal caso no
podeis chamar-lhe ertico; ou s recebeis no sentido
183
literrio, e ento nem  poesia, nem  de Salomo; 
drama e de autor annimo. Ainda, porm, que o aceiteis
como um simples produto literrio, o exemplo no serve
nada.
Nem era preciso ir  Palestina. Tnheis a Lisstrata; e se a
Lisstrata parecesse obscena demais, podeis argumentar
com algumas frases de Shakespeare e certas locues de
Gil Vicente e Cames. Mas o argumento, se tivesse
diferente origem, no teria diferente valor. Em relao a
Shakespeare, que importam algumas frases obscenas, em
uma ou outra pgina, se a explicao de muitas delas est
no tempo, e se a respeito de todas nada h sistemtico?
Eliminai-as ou modificai-as, nada tirareis ao criador das
mais castas figuras do teatro, ao pai de Imogene, de
Miranda, de Viola. de Oflia. eternas figuras, sobre as quais
ho de repousar eternamente os olhos dos homens.
Demais, seria mal cabido invocar o padro do Romantismo
para defender os excessos do Realismo.
Gil Vicente usa locues que ningum hoje escreveria, e
menos ainda faria repetir no teatro; e no obstante as
comdias desse grande engenho eram representadas na
corte de D. Manuel e D. Joo III. Cames, em suas
comdias, tambm deixou palavras hoje condenadas.
Qualquer dos velhos cronistas portugueses emprega. por
exemplo. o verbo prprio, quando trata do ato, que hoje
designamos com a expresso dar  luz. o verbo era ento
polido, tempo vir em que dar  luz seja substituda por
outra expresso; e nenhum jornal, nenhum teatro a
imprimir ou declamar como fazemos hoje.
A razo disto, se no fosse bvia. podamos apadrinh-la
com Macaulay:  que h termos delicados num sculo e
grosseiros no sculo seguinte. Acrescentarei que noutros
casos a razo pode ser simplesmente tolerncia do gosto.
Que h, pois, comum entre exemplos dessa ordem e a
escola de que tratamos? Em que pode um drama de Israel.
Lima comdia de Atenas, uma locuo de Shakespeare ou
de Gil Vicente justificar a obscenidade sistemtica do
Realismo? Diferente coisa  a indecncia relativa de uma
locuo, e a constncia de um sistema que, usando alis de
relativa decncia nas palavras, acumula e mescla toda a
184
solte de idias e sensaes lascivas; que, no desenho e
colorido de uma mulher, por exemplo, vai direito s
indicaes sensuais.
No peo, decerto, os estafados retratos do Romantismo
decadente, te; pelo contrrio, alguma coisa h no Realismo
que pode ser colhido, em proveito da imaginao e da arte.
Mas sair de uni excesso para cair em outro, no 
regenerar nada;  trocar o agente da corrupo.
Um dos meus contendores persuade-se que o livro podia
ser expurgado de alguns traos mais grossos; persuaso,
que no primeiro artigo disse eu que era ilusria, e por qu.
H quem v adiante e creia que, no obstante as partes
condenadas, o livro tem um grande efeito moral. Essa
persuaso no  menos ilusria que a primeira impresso
moral de um livro no se faz por silogismo, e se assim
fosse. j ficou dito tambm no outro artigo qual a
concluso deste. Se eu tivesse de julgar o livro pelo lado
da influncia moral, diria que, qualquer que seja o
ensinamento, se algum tem, qualquer que seja a extenso
da catstrofe, uma e outra coisa so inteiramente
destrudas pela viva pintura dos fatos viciosos: essa
pintura, esse aroma de alcova, essa descrio minuciosa,
quase tcnica, das relaes adlteras, eis o mal. A
castidade inadvertida que ler o livro chegar  ltima
pagina sem fech-lo, e tornar atrs para reler outras.
Mas no trato disso agora; no posso sequer tratar mais
nada; foge-me o espao. Resta-me concluir, e concluir
aconselhando aos jovens talentos de ambas as terras da
nossa lngua, que no se deixem seduzir por uma doutrina
caduca, embora no verdor dos anos. Este messianismo
literrio no tem a tora da universalidade nem da
vitalidade; traz consigo a decrepitude. Influi, decerto, em
bom sentido e at certo ponto, no para substituir as
doutrinas aceitas, mas corrigir o excesso de sua aplicao.
Nada mais. Voltemos os olhos para a realidade, mas
excluamos o Realismo, assim no sacrificaremos a verdade
esttica.
Um dos meus contendores louva o livro do Sr. Ea de
Queirs, por dizer a verdade, e atribui a algum hipcrita a
mxima de que nem todas as verdades se dizem. Vejo que
185
confunde a arte com a moral; vejo mais que se combate a
si prprio. Se todas as verdades se dizem, por que excluir
algumas ?
Ora, o realismo dos Srs. Zola e Ea de Queirs, apesar de
tudo, ainda no esgotou todos os aspectos da realidade. Ha
atos ntimos e nfimos, vcios ocultos, secrees sociais que
no podem ser preteridas nessa exposio de todas as
coisas. Se so naturais para que escond-los? Ocorre-me
que Voltaire, cuja eterna mofa  a consolao de bom
senso (quando no) transcende o humano limite), a
Voltaire se atribui uma resposta, da qual apenas citarei
metade: Trs naturel aussi, mais je porte des culottes.
Quanto ao Sr. Ea de Queirs e aos seus amigos deste lado
do Atlntico, repetirei que o autor dO Primo Baslio tem em
mim um admirador de seus talentos, adversrio de suas
doutrinas, desejoso de o ver aplicar, por modo diferente,
as fortes qualidades que possui; que, se admiro tambm
muitos dotes do seu estilo, fao restries  linguagem;
que o seu dom de observao, alis pujante, 
complacente em demasia; sobretudo,  exterior, 
superficial. O fervor dos amigos pode estranhar este modo
de sentir e a franqueza de o dizer. Mas ento o que seria a
crtica?
[22] FRANCISCO DE CASTRO: HARMONIAS
ERRANTES
[RJ.,4 ago. 1878.]
MEU CARO POETA, - Pede-me a mais fcil e a mais intil
das tarefas literrias: apresentar um poeta ao Pblico.
Custa pouco dizer em algumas linhas ou em algumas
pginas, de um modo simptico e benvolo, porque a
benevolncia necessria aos talentos sinceros, como o seu,
custa pouco dizer que impresses nos deixaram os
primeiros produtos de uma vocao juvenil.
Mas no , ao mesmo tempo, uma tarefa intil? Um livro 
um livro; vale o que efetivamente . O leitor quer julg-lo
por si mesmo; e, se no acha no escrito que o precede, -
ou a autoridade do nome, - ou a perfeio do estilo e a
186
justeza das idias, - mal se pode furtar a um tal ou qual
sentimento de enfado. O estilo e as idias dar-lhe-iam a ler
uma boa pgina, - um regalo de sobra; a autoridade do
nome ench-lo-ia de orgulho; se a impresso da crtica
coincidira com a dele. Suponho ter idias justas: mas onde
esto as outras duas vantagens? Seu livro vai ter uma
pgina intil.
Sei que o senhor supe o contrrio; iluso de poeta e de
moo, filha de uma afeio antes instintiva que
experimentada, e, em todo caso, recente e generosa; seu
corao de poeta leu talvez, atravs de algumas estrofes
que a me ficaram no caminho, este amor da poesia , esta
f viva em alguma coisa superior s nossas labutaes sem
fruto, primeiro sonho da mocidade e ltima saudade da
vida. Leu isso; compreendeu que h dolos que se no
quebram e cultos que no morrem, e veio ter comigo, de
seu prprio movimento, cheio daquela cndida confiana
de sacerdote novo, resoluto e pio. Veio bem e mal; bem
para a minha simpatia, mal para o seu interesse; mas,
segundo j disse, nem bem nem mal para o publico, diante
de quem esta pgina  demais.
E contudo, meu caro poeta,  difcil esquivar-se um homem
que ama as musas a no falar de um poeta novo, em um
tempo que precisa deles, quando h necessidade de
animar todas as vocaes, as mais arrojadas e as mais
modestas, para que se no quebre a cadeia da nossa
poesia nacional.
Creio que o senhor pertence a essa juventude laboriosa e
ambiciosa, que hesita entre o ideal de ontem e uma nova
aspirao, que busca sinceramente uma forma substitutiva
do que lhe deixou a gerao passada. Nesse tatear, nesse
hesitar entre duas coisas, - uma bela, mas porventura
fatigada, outra confusa, mas nova, - no h ainda o que se
possa chamar movimento definido. Basta, porm, que haja
talento, boa vontade e disciplina; o movimento se far por
si, e a poesia brasileira no perder o verdor nativo, nem
desmentir a tradio que nos deixaram o autor do Uruguai
e o autor d' Os Timbiras.
Citei dois mestres; poderia citar mais de um talento
original e cedo extinto, a fim de lembrar  recente gerao,
187
que qualquer que seja o caminho da nova poesia, convm
no perder de vista o que h essencial e eterno nessa
expresso da alma humana. Que a evoluo natural das
coisas modifique as feies, a parte externa, ningum
jamais o negar; mas h alguma coisa que liga, atravs
dos sculos, Homero e Lord Byron, alguma coisa
inaltervel, universal e comum, que fala a todos os homens
e a todos os tempos. Ningum o desconhece, decerto,
entre as novas vocaes; o esforo empregado em achar e
aperfeioar a forma no prejudica, nem poderia alterar a
parte substancial da poesia, - ou esta no seria o que  e
deve ser!
Venhamos depressa ao seu livro, que o leitor tem nsia de
folhear e conhecer. Estou que se o ler com nimo
repousado, corri vista simptica, justa, reconhecer que 
um livro de estria, incerto em partes, com as imperfeies
naturais de uma primeira produo. No se envergonhe de
imperfeies, nem se vexe de as ver apontadas; agradeao
antes. A modstia  um merecimento. Poderia lastimarse
se no sentisse em si a fora necessria para emendar
os senes inerentes aos trabalhos de primeira mo. Mas
ser esse o seu caso? H nos seus versos__ uma
espontaneidade de bom agouro, uma natural simpleza, que
a arte guiar melhor e a ao do tempo aperfeioar.
Alguns pediro  sua poesia maior originalidade; tambm
eu lha peo. Este seu primeiro livro no pode dar ainda
todos os traos de sua fisionomia potica. A poesia
pessoal, cultivada nele, est, para assim dizer, exausta; e
da vem a dificuldade de cantar coisas novas. H pginas
que no provm dela; e, visto que a o seu verso 
espontneo, cuido que deve buscar uma fonte de
inspirao fora de um gnero, em que houve tanto triunfo
a par de tanta queda. Para que a poesia pessoal renasa
um dia,  preciso que lhe dem outra roupagem e
diferentes cores;  precisa outra evoluo literria.
O perigo destes prefcios, meu caro poeta,  dizer demais;
 ocupar maior espao do que o leitor pode razoavelmente
conceder a uma lauda intil. Eu creio haver dito o bastante
para um homem sem autoridade. Viu que no o louvei com
excesso, nem o censurei com insistncia; aponto-lhe o
melhor dos mestres, o estudo; e a melhor das disciplinas, o
188
trabalho. Estudo, trabalho e talento so a trplice arma com
que se conquista o triunfo.
[23] RAIMUNDO CORREIA: SINFONIAS
[Jul. 1882.]
SUPONHO que o leitor, antes de folhear o livro, deixa cair
um olhar curioso nesta primeira pgina. Sabe que no vem
achar aqui uma crtica severa, tal no  o ofcio dos
prefcios; - vem apenas lobrigar, atravs da frase
atenuada ou calculada, os impulsos de simpatia ou de
fervor; e, na medida da confiana que o prefacista lhe
merecer, assim ler ou no a obra. Mas para os leitores
maliciosos  que se fizeram os prefcios astutos, desses
que trocam todas as voltas, e vo aguardar o leitor onde
este no espera por eles.  o nosso caso. Em vez de lhe
dizer, desde logo, o que penso do poeta, com palavras que
a incredulidade pode converter em puro obsquio literrio,
antecipo uma pgina do livro; e, com essa outra malcia,
dou-lhe a melhor das opinies, porque  impossvel que o
leitor no sinta a beleza destes versos do Dr. Raimundo
Correia:
MAL SECRETO
Se a clera que espuma, a dor que mora
N' alma, e destroi cada iluso que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O corao, no rosto se estampasse;
Se se pudesse o esprito que chora,
Ver atravs da mscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, ento piedade nos causasse!
Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recndito inimigo,
Como invisvel chaga cancerosa!
Quanta gente que ri talvez existe,
Cuja ventura nica consiste
Em parecer aos outros venturosa!
A est o poeta, com a sua sensibilidade, o seu verso
natural e correntio, o seu amor  arte de dizer as cousas,
189
fugindo  vulgaridade, sem cair na afetao. Ele pode no
ser sempre a mesma cousa, no conceito e no estilo, mas 
poeta, e fio que esta seja a opinio dos leitores, para quem
o nome do Dr. Raimundo Correia for inteira novidade. Para
outros, naturalmente a maioria, o nome do Dr. Raimundo
Correia est apenso a um livro, sado dos prelos de S.
Paulo, em 1879, quando o poeta tinha apenas 19 anos.
Esse livro, Primeiros sonhos,  uma coleo de ensaios
poticos, alguns datados de 1877, versos de adolescncia,
em que, no Hrcules menino, mas Baco infante, agita no
ar os pmpanos,  espera de crescer para invadir a ndia.
No posso dizer longamente o que  esse livro; confesso
que h nele o cheiro romntico da decadncia, e um certo
aspecto flcido; mas, tais defeitos, a mesma afetao de
algumas pginas, a vulgaridade de outras, no suprimem a
individualidade do poeta, nem excluem movimento e a
melodia da estrofe. Creio mesmo que algumas
composies daquele livro podiam figurar neste sem
desdizer do tom nem quebrar-lhe a unidade.
No foram esses os primeiros versos que li do Dr.
Raimundo Correia. Li os primeiros neste mesmo ano de
1882, uns versos satricos, triolets sonoros, modelados
com apuro, que no me pareceram versos de qualquer.
Semanas depois, conheci pessoalmente o poeta, e confesso
uma desiluso. Tinha deduzido dos versos lindos um
mancebo expansivo, alegre e vibrante, aguado como as
suas rimas, coruscante como os seus esdrxulos, e achei
uma figura concentrada, pensativa, que sorri s vezes, ou
faz crer que sorri, e no se se riu nunca. Mas a desiluso
no foi uma queda. A figura trazia a nota simptica; o
acanho das maneiras vestia a modstia sincera, de boa
raa, lastro do engenho, necessrio ao equilbrio. Achei o
poeta deste livro, ou de uma parte deste livro: - um
contemplativo e um artista, corao mordido daquele amor
misterioso e cruel que  a um tempo a dor e o feitio das
vtimas.
Mas, enfim, Baco conquistou a ndia? No digo tanto,
porque preciso ser sincero, ainda mesmo nos prefcios.
Trocou os pmpanos da puercia, jungiu ao carro as
panteras que o levaro  terra indiana, e no a vencer, se
no quiser. Em termos chos, o Raimundo Correia no d
ainda neste livro tudo o que se pode esperar do seu
190
talento, mas d muito mais do que dera antes; afirma-se,
toma lugar entre os primeiros da nova gerao. Estuda e
trabalha. Dizem-me que compe com grande facilidade, e,
todavia, o livro no  sobejo, ao passo que os versos
manifestam o labor de artista sincero e paciente, que no
pensa no pblico se no para respeit-lo. No quero
transcrever mais nada; o leitor sentir que h no Dr.
Raimundo Correia a massa de um artista, lendo, entre
outras pginas, "No Banho", o "Anoitecer", "No Circo", e os
sonetos sob o ttulo de "Perfis Romnticos", galeria de
mulheres,  maneira de Banville. No  sempre puro o
estilo, nem a linguagem escoimada de descuidos, e a
direo do esprito podia s vezes ser outra; mas as boas
qualidades dominam, e isto j  um saldo a favor.
Uma parte desta coleo  militante, no contemplativa,
porque o Dr. Raimundo Correia, em poltica, tem opinies
radicais:  republicano e revolucionrio. Creio que o artista
a  menor e as idias menos originais; as apstrofes
parecem-me mais violentas do que espontneas, e o poeta
mais agressivo do que apaixonado. Note o leitor que no
ponho em dvida a sinceridade dos sentimentos do Dr.
Raimundo Correia; limito-me a citar a forma lrica e a
expresso potica; do mesmo modo que no desrespeito
as suas convices polticas, dizendo que uma parte, ao
menos, do atual excesso ir-se- com o tempo.
E agora, passe o leitor aos versos, leia-os como se devem
ler moos, com simpatia. Onde achar que falta a comoo,
advirta que a forma  esmerada, e, se as tradues, que
tambm as h, lhe parecerem numerosas, reconhea ao
menos que ele as perfez com o amor dos originais, e, em
muitos casos, com habilidade de primeira ordem.  um
poeta; e, no momento em que os velhos cantores
brasileiros vo desaparecendo na morte, outros no silncio,
deixa que estes venham a ti; anima-os, que eles trabalham
para todos.
[24] CARLOS JANSEN: CONTOS SELETOS DAS MIL E
UMA NOITES
[out. 1882.]
O SR. CARLOS JANSEN tomou a si dar  mocidade
brasileira uma escolha daqueles famosos contos rabes das
191
Mil e Uma Noites, adotando o plano do educacionista
alemo Franz Hoffmann. Esta escolha  conveniente; a
mocidade ter assim uma amostra interessante e apurada
das fantasias tascas daquele livro, alguns dos seus
melhores contos, que esto aqui, no como nas noites de
Sheherazade, ligados por uma fbula prpria do Oriente,
mas em forma de um repositrio de cousas alegres e ss.
Para os nossos jovens patrcios creio que  isto novidade
completa. Outrora conhecia-se, entre ns, esse
maravilhoso livro, to peculiar e variado, to cintilante de
pedrarias, de olhos belos, to opulentos de sequins, to
povoado de vizires e sultanas, de idias morais e lies
graciosas. Era popular; e, conquanto no se lesse ento
muito, liam-se e reliam-se as Mil e Uma Noites. A outra
gerao tinha,  verdade, a boa f precisa, uma certa
ingenuidade, no para crer tudo, porque a mesma princesa
narradora avisava a gente das suas invenes, mas para
achar nestas um recreio, um gozo, um embevecimento,
que ia de par com as lgrimas, que ento arrancavam
algumas obras romanescas, hoje inspidas. E nisto se
mostra o valor das Mil e Uma Noites: porque os anos
passaram, o gosto mudou, poder voltar e perder-se outra
vez, como  prprio das correntes pblicas, mas o mrito
do livro  o mesmo. Essa galeria de contos, que Macaulay
citava algumas vezes, com prazer,  ainda interessante e
bela, ao passo que outras histrias do Ocidente, que
encantavam a gerao passada, com ela desapareceram.
Os melhores daqueles, ou alguns dos melhores, esto
encerrados, esto encerados neste livro do Sr. Carlos
Jansen. As figuras de Sindbad, Ali-Bab, Harum al Raschid,
o Aladim da lmpada misteriosa, passam aqui, ao fundo
azul do Oriente, a que a linha curva do camelo e a fachada
rabe dos palcios do o tom pitoresco e mgico daqueles
outros contos de fadas da nossa infncia. Algumas dessas
figuras andam at vulgarizadas em peas mgicas de
teatro, pois aconteceu s Mil e Uma Noites o que se deu
com muitas outras invenes: foram exploradas e
saqueadas para a cena. Era inevitvel, como por outro lado
era inevitvel que os compositores pegassem das criaes
mais pessoais e sublimes dos poetas para amold-las  sua
inspirao, que  por certo fecunda, elevada e grande, mas
no deixa de ser parasita. Nem Shakespeare escapou, o
192
divino Shakespeare, como se Macbeth precisasse do
comentrio de nenhuma outra arte, ou fosse em presa fcil
traduzir musicalmente a alma de Hamlet. No obstante, a
vulgarizao pela mgica de algumas daquelas figuras
rabes, elas a esto com o cunho primitivo, esse que d o
silncio do livro, ajudado da imaginao do leitor.
Este, se ao cabo de poucas pginas vier a espantar-se de
que o Sr. Carlos Jansen, brasileiro de adoo, seja alemo
de nascimento, e escreva de um modo to correntio a
nossa lngua, no provar outra cousa mais do que
negligncia da sua parte. A imprensa tem recebido muitas
confidncias literrias do Sr. Carlos Jansen; a Revista
Brasileira (para citar somente esta minha saudade) tem
nas sua pginas um romance do nosso autor. E conhecer e
escrever uma lngua, como a nossa, no  tarefa de pouca
monta, ainda para um homem de talento e aplicao. O Sr.
Carlos Jansen maneja-a com muita preciso e facilidade, e
dispe de um vocabulrio numeroso. Esse livro  uma
prova disso, embora a crtica lhe possa notar uma ou outra
locuo substituvel, uma ou outra frase melhorvel. So
mincias que no diminuem o valor do todo.
Esquecia-me que o livro  para adolescentes, e que estes
pedem-lhe, antes de tudo, interesse e novidades. Digo-lhes
que os acharo aqui. Um descendente de teutes contalhes
pela lngua de Alencar e Garrett umas histrias
mouriscas: com aquele operrio, esse instrumento e esta
matria, d-lhes o Sr. Laemmert, velho editor incansvel,
um brinquedo graciosssimo, com que podem entreter
algumas horas dos seus anos em flor. Sobra-lhes para isso
a ingenuidade necessria; e a ingenuidade no  mais do
que a primeira poro do ungento misterioso, cuja
histria  contada nestas mesmas pginas. Esfregado na
plpebra esquerda de Abdallah, deu-lhe o espetculo de
todas as riquezas da terra; mas o pobre - diabo era
ambicioso, e, para possuir o que via, pediu ao derviche que
lhe ungisse tambm a plpebra direita, com o que cegou
de todo. Creio que esta outra poro do ungento  a
experincia. Depressa, moos, enquanto o derviche no
unge a outra plpebra!
193
[25] ALBERTO DE OLIVEIRA: MERIDIONAIS
[14 jan. 1884.]
QUANDO EM 1879, na Revista Brasileira, tratei da nova
gerao de poetas, falei naturalmente do Sr. Alberto de
Oliveira. Vinha de ler o seu primeiro livro, Canes
Romnticas, de lhe dizer que havia ali inspirao e forma,
embora acanhadas pela ao de influncias exteriores.
Achava-lhe no estilo coisa flutuante e indecisa; e quanto 
matria dos versos, como o poeta dissesse a outros, que
tambm sabia folhear a lenda dos gigantes, dei-lhe este
conselho: "Que lhe importa o guerreiro que l vai 
Palestina? Deixe-se fixar no castelo com a filha dele... No
 diminuir-se o poeta;  ser o que lhe pede a natureza,
Homero ou Mosco". Conclua dizendo-lhe que se afirmasse.
No trago essa reminiscncia crtica (e deixo de
transcrever as expresses de merecido louvor), seno para
explicar, em primeiro lugar, a escolha que o poeta fez da
minha pessoa para abrir este outro livro; e, em segundo
lugar, para dizer que a exortao final da minha crtica tem
aqui uma brilhante resposta, e que o conselho no foi
desprezado, porque o poeta deixou-se estar efetivamente
no castelo, no com a filha, mas com as filhas do castelo,
o que  ainda mais do que eu lhe pedia naquele tempo.
Que h de ele fazer no castelo, seno amar as castels?
Ama-as, contempla-as, sai a caar com elas, fita bem os
olhos de uma para ver o que h dentro dos olhos azuis, vai
com a outra contar as estrelas do cu, ou ento pega do
leque de uma terceira para descrev-lo minuciosamente.
Esse Leque, que  uma das pginas caractersticas do livro,
chega a coincidir com o meu conselho de 1879, como se o
poeta, abrindo mo dos heris, quisesse dar s
reminiscncias picas uma transcrio moderna e de
camarim: esse Leque  uma reduo do escudo de Aquiles.
Homero, pela mo de Vulcano, ps naquele escudo uma
profuso de coisas: a terra, o cu, o mar, o sol, a lua e as
estrelas, cidades e bodas, prticos e debates, exrcitos e
rebanhos. O nosso poeta aplicou o mesmo processo a um
simples leque de senhora, com tanta opulncia de
imaginao no estilo, e to grego no prprio assunto dos
quadros pintados, que fez daquilo uma parelha do broquel
homrico. Mas no  isso que me d o caracterstico da
194
pgina;  o resumo que ali acho, no de todo, mas de
quase todo o poeta; imaginoso, vibrante, musical,
despreocupado dos problemas da alma humana, fino cultor
das formas belas, amando porventura as lgrimas,
contanto que elas caiam de uns olhos bonitos.
Conclua o leitor, e concluir bem, que a emoo deste
poeta est sempre sujeita ao influxo das graas externas.
No achar aqui o desespero, nem o fastio, nem a ironia
do sculo. Se h alguma gota amarga no fundo da taa de
ouro em que ele bebe a poesia,  a saudade do passado ou
do futuro, alguma coisa remota no tempo ou no espao,
que no seja a vulgaridade presente. Da essa volta
freqente das reminiscncias helnicas ou medievais, os
belos sonetos em que nos conta o nascimento de Vnus, e
tantos outros quadros antigos, ou aluses espalhadas por
versos e estrofes. Da tambm uma feio peculiar do
poeta, o amor da natureza. No quero fazer extratos,
porque o leitor vai ler o livro inteiro; mas o soneto "Magia
Selvagem" lhe dar uma expresso enrgica dessa paixo
dos espetculos naturais, ante os quais o poeta exclama:
Tudo, ajoelhado e trmulo, me abisma
Cego de assombro e exttico de gozo.
Cegueira e xtase: o limite da adorao. Assim tambm o
"Conselho", pgina em que ele receita para uma dor moral
o contato da floresta; e ainda mais a anterior, "Falando ao
Sol", em que caracteriza a intensidade de um grande
pesar, que ento o oprime, afirmando que para esse, nem
mesmo a natureza  "a grande natureza"  pode servir de
remdio.
A maior parte das composies so quadros feitos sem
outra inteno mais do que fixar um momento ou um
aspecto. Geralmente so curtos, em grande parte sonetos,
forma que os modernos restauraram, e luzidamente
cultivam, pode ser at que com excessiva assiduidade. Os
versos do nosso poeta so trabalhados com perfeio. Os
defeitos, que os h, no so obra do descuido; ele
pertence a uma gerao que no peca por esse lado.
Nascem,  ora de um momento no propcio,  ora do
requinte mesmo do lavor; coisa esta que j um velho poeta
da nossa lngua denunciava, e no era o primeiro, com esta
195
comparao: " o muito mimo empece a planta". Mas, em
todo caso, se isto  culpa, felix culpa; a troco de algumas
partes laboriosas, acabadas demais, ficam as que o foram
a ponto, e fica principalmente o costume, o respeito da
arte, o culto do estilo.
"Manh de Caa", "A Volta da Galera", "Contraste", "Em
Caminho" , "A Janela de Julieta", e no cito mais para no
parecer que excluo as restantes, daro ao leitor essa feio
do nosso poeta, o amor voluptuoso da forma.
No lhe pergunteis, por exemplo, na "Manh de Caa",
onde  que esto as aves que ele matou. O poeta saiu
principalmente  caa de belos versos, e trouxe-os,
argentinos e sonoros, um trofu de sonetos. Assim
tambm noutras partes. Nada obsta que os versos bonitos
tragam felizes pensamentos, como pintam quadros
graciosos. Uns e outros a esto. Se alguma vez, e rara, a
ao descrita parecer que desmente da estrita verdade, ou
no trouxer toda a nitidez precisa, podeis descontar essa
lacuna na impresso geral do livro, que ainda vos fica
muito:  fica-vos um largo saldo de artista e de poeta, 
poeta e artista dos melhores da atual gerao.
[26] ENIAS GALVO: MIRAGENS
[RJ, 30 jul. 1885.]
MEU CARO POETA,  este seu livro, com as lacunas
prprias de um livro de estria, tem as qualidades
correspondentes, aquelas que so, a certo respeito, as
melhores de toda a obra de um escritor. Com os anos
adquire-se a firmeza, domina-se a arte, multiplicam-se os
recursos, busca-se a perfeio que  a ambio e o dever
de todos os que tomam da pena para traduzir no papel as
suas idias e sensaes. Mas h um aroma primitivo que se
perde; h uma expanso ingnua, quase infantil, que o
tempo limita e retrai. Compreend-lo- mais tarde, meu
caro poeta, quando essa hora bendita houver passado, e
com ela uma multido de coisas que no voltam, posto
desse lugar a outras que as compensam.
196
Por enquanto fiquemos na hora presente.  a das
confidncias pessoais, dos quadros ntimos,  a deste livro.
Aos que lho argirem, pode responder que sempre haver
tempo de alargar a vista a outros horizontes. Pode tambm
advertir que  um pequeno livro, escolhido que no cansa,
e eu acrescentarei, por minha conta, que se pode ler com
prazer, e fechar com louvor.
Que h nele alguns leves descuidos, uma ou outra
impropriedade,  certo; contudo v-se que a composio
do verso acha da sua parte a ateno que  hoje
indispensvel na poesia, e uma vez que enriquea o
vocabulrio, ele lhe sair perfeito. V-se tambm que 
sincero, que exprime os sentimentos prprios, que estes
so bons, que h no poeta um homem, e no homem um
corao.
Ou eu me engano, ou tem a com que tentar outros livros.
No restrinja ento a matria, lance os olhos alm de si
mesmo, sem prejuzo, contudo, do talento. Constrang-lo 
o maior pecado em arte. Anacreonte, se quisesse trocar a
flauta pela tuba, ficaria sem tuba nem flauta; assim
tambm Homero, se tentasse fazer de Anacreonte, no
chegaria a dar-nos, a troco das suas imortais batalhas,
uma das cantigas do poeta de Teos.
Desculpe a vulgaridade do conceito; ele  indispensvel
nos que comeam. Outro que tambm me parece cabido 
que, no esmero do verso no v ao ponto de cercear a
inspirao. Esta  a alma da poesia, e como toda a alma
precisa de um corpo, fora  dar-lho, e quanto mais belo,
melhor; mas nem tudo deve ser corpo. A perfeio, neste
caso,  a harmonia das partes.
Adeus, meu caro Poeta. Crer nas musas  ainda uma das
coisas melhores da vida. Creia nelas e ame-as.
[27] L. L. FERNANDES PINHEIRO JNIOR: TIPOS E
QUADROS
SE TO TARDE lhe dou a resposta prometida  que no
queria imitar o descoco do crtico, objeto de um dos
sonetos, que leu a primeira pgina de dois livros, e louvou
197
justamente o mau, e censurou o bom. Da a demora, da e
de mil outras circunstncias, que no aponto aqui para no
demorar a carta.
Li o seu livro todo, de princpio a fim, e digo-lhe que
absolutamente descabido no livro s acho o ltimo soneto,
em que declara no poder acreditar que seja poeta. Outros
h que poderiam ser emendados aqui e ali, a matria de
alguns parece menos apropriada; mas, em geral,
reconheo com muito prazer que domina o verso, que ele
lhe sai expressivo e flexvel.
Tambm notei, em muitas composies, um como que
desencanto que me admira nos seus verdes anos. H
nessas uma inteno formal de desfazer nas aes
humanas, dando-lhes ou apontando a causa secreta e
pessoal, ou ento pondo-lhes ao lado a ao ou o fato
contrrio. Deus me livre de lhe dizer que no tenha razo
em muitos pontos, e ainda menos de lhe aconselhar que
faa outra cousa. Noto apenas a minha impresso, diante
dos versos de um moo, que eu supunha inteiramente
moo.
E aqui observo que um dos mais bonitos sonetos  aquele
que tem por ttulo "Aparncias", em que se trata de um
amigo do poeta, festivo e divertido, mas que leva na alma
o espinho da agonia. Vendo a alegria do livro, e a tristeza
fundamental de algumas pginas, era capaz de jurar que o
amigo do poeta era o prprio poeta.
No me diga nada em prosa, continue a diz-lo em verso.
Aperta-lhe a mo o  Amigo  MACHADO DE ASSIS.
[28] JOS DE ALENCAR: O GUARANI
UM DIA, respondendo a Alencar em carta pblica, dizia-lhe
eu, com referncia a um tpico da sua,  que ele tinha por
si, contra a
198
conspirao do silncio, a conspirao da posteridade. Era
fcil antev-lo: O Guarani e Iracema estavam publicados;
muitos outros livros davam ao nosso autor o primeiro lugar
na literatura brasileira. H dez anos apenas que morreu;
ei-lo que renasce para as edies monumentais, com a
primeira daquelas obras, to fresca e to nova, como
quando viu a luz, h trinta anos, nas colunas do Dirio do
Rio.  a conspirao que comea.
O Guarani foi a sua grande estria. Os primeiros ensaios
f-los no Correio Mercantil, em 1853, onde substituiu
Francisco Otaviano na crnica. Curto era o espao, pouca a
matria; mas a imaginao de Alencar supria ou alargava
as coisas, e com o seu p de ouro borrifava as
vulgaridades da semana. A vida fluminense era ento
outra, mais concentrada, menos ruidosa. O mundo ainda
no nos falava todos os dias pelo telgrafo, nem a Europa
nos mandava duas e trs vezes por semana, s braadas,
os seus jornais. A chcara de 1853 no estava, como a de
hoje, contgua  Rua do Ouvidor por muitas linhas de
tramways, mas em arrabaldes verdadeiramente remotos,
ligados ao centro por tardos nibus e carruagens
particulares ou pblicas.
Naturalmente, a nossa principal rua era muito menos
percorrida. Poucos eram os teatros, casas fechadas, onde
os espectadores iam tranqilamente assistir a dramas e
comdias, que perderam o vio com o tempo. A animao
da cidade era menor e de diferente carter. A de hoje  o
fruto natural do progresso dos tempos e da populao;
mas  claro que nem o progresso nem a vida so dons
gratuitos. A facilidade e a celeridade do movimento
desenvolvem a curiosidade mltipla e de curto flego e
muitas coisas perderam o interesse cordial e duradouro, ao
passo que vieram outras novas e inumerveis. A fantasia
de Alencar, porm, fazia render a matria que tinha, e no
tardou que se visse no jovem estreante um mestre futuro,
como Otaviano, que lhe entregara a pena.
Efetivamente, da a trs anos aparecia O Guarani. Entre a
crnica e este romance, medearam, alm da direo do
Dirio do Rio, a famosa crtica da Confederao dos
Tamoios, e duas narrativas, Cinco Minutos e A Viuvinha. A
199
crtica ocupou a ateno da cidade durante longos dias,
objetos de rplicas, debates, conversaes.
Em verdade, Alencar no vinha conquistar uma ilha
deserta. Quando se aparelhava para o combate e a
produo literria, mais de um engenho vivia e dominava,
alm do prprio autor da Confederao, como Gonalves
Dias, Varnhagen, Macedo, Porto Alegre, Bernardo
Guimares; e entre esses, posto que j ento finado,
aquele cujo livro acabava de revelar ao Brasil um poeta
genial: lvares de Azevedo. No importa; ele chegou,
impaciente e ousado, criticou, inventou, comps. As duas
primeiras narrativas trouxeram logo a nota pessoal e nova;
foram lidas como uma revelao. Era o bater das asas do
esprito, que iria pouco depois arrojar vo at s margens
do Paquequer.
Aqui esto as margens do Paquequer; aqui vem este livro,
que foi o primeiro alicerce da reputao de romancista do
nosso autor.  a obra pujante da mocidade. Escreve-a 
medida da publicao, ajustando-se a matria ao espao
da folha, condies adversas  arte, excelentes para
granjear a ateno pblica. Vencer estas condies no que
elas eram opostas, e utiliz-las no que eram propcias, foi a
grande vitria de Alencar, como tinha sido a do autor d'Os
Trs Mosqueteiros.
No venho criticar O Guarani. L ficou, em pginas idas, o
meu juzo sobre ele. Quaisquer que sejam as influncias
estranhas a que obedecer, este livro  essencialmente
nacional. A natureza brasileira, com as exuberncias que
Burke ope  nossa carreira de civilizao, aqui a tendes,
vista por vrios aspectos; e a sua vida interior no comeo
do sculo XVII devia ser a que o autor nos descreve, salvo
o colorido literrio e os toques de imaginao, que, ainda
quando abusa, delicia. Aqui se encontrar a nota maviosa,
to caracterstica do autor, ao lado do rasgo msculo,
como lho pedia o contato e o contraste da vida selvagem e
da vida civil. Desde a entrada estamos em puro e largo
Romantismo. A maneira grave e aparatosa com que D.
Antnio de Mariz toma conta de suas terras, lembra os
velhos fidalgos portugueses, vistos atravs da solenidade
de Herculano; mas j depois intervm a luta do goitac
com a ona, e entramos no corao da Amrica. A
200
imaginao d  realidade os mais opulentos atavios. Que
importa que s vezes a cubram demais? Que importam os
reparos que possam fazer na psicologia do indgena? Ficanos
neste o exemplar da dedicao, como em Ceclia o da
candura e faceirice; ao todo, uma obra em que palpita o
melhor da alma brasileira.
Outros livros vieram depois. Veio a deliciosa Iracema;
vieram as Minas de Prata, mais vastos que ambos, superior
a outros do mesmo autor, e menos lidos que eles; vieram
aqueles dois estudos de mulher,  Diva e Lucola, que
foram dos mais famosos. Nenhum produziu o mesmo efeito
d' O Guarani. O processo no era novo; a originalidade do
autor estava na imaginao fecunda,  ridente ou
possante,  e na magia do estilo. Os nossos raros ensaios
de narrativa careciam, em geral, desses dois predicados,
embora tivessem outros que lhes davam justa nomeada e
estima. Alencar trazia-os, com alguma coisa mais que
despertava a ateno: o poder descritivo e a arte de
interessar. Curava antes dos sentimentos gerais; fazia-o,
porm, com largueza e felicidade; as fisionomias
particulares eram-lhes menos aceitas. A lngua, j
numerosa, fez-se rica pelo tempo adiante. Censurado por
deturp-la,  certo que a estudava nos grandes mestres;
mas persistiu em algumas formas e construes, a ttulo de
nacionalidade.
No pude reler este livro, sem recordar e comparar a
primeira fase da vida do autor com a secunda. 1856 e
1876 so duas almas da mesma pessoa. A primeira data 
a do perodo inicial da produo quando a alma paga o
esforo, e a imaginao no cuida mais que de florir, sem
curar dos frutos nem de quem lhos apanhe. Na segunda,
estava desenganado. Descontada a vida ntima, os seus
ltimos tempos foram de misantropo. Era o que
ressumbrava dos escritos e do aspecto do homem.
Lembram-me ainda algumas manhs, quando ia ach-lo
nas alamedas solitrias do Passeio Pblico, andando e
meditando, e punha-me a andar com ele, e a escutar-lhe a
palavra doente, sem vibrao de esperanas, nem j de
saudades. Sentia o pior que pode sentir o orgulho de um
grande engenho: a indiferena pblica, depois da
aclamao pblica. Comeara como Voltaire para acabar
como Rousseau. E baste um s cotejo. A primeira de suas
201
comdias, Verso e Reverso, obrazinha em dois atos,
representada no antigo Ginsio, em 1857, excitou a
curiosidade do Rio de Janeiro, a literria e a elegante; era
uma simples estria. Dezoito anos depois, em 1875, foram
pedir-lhe um drama, escrito desde muito, e guardado
indito. Chamava-se O Jesuta, e ajustava-se
fortuitamente, pelo ttulo, s preocupaes manicoeclesisticas
da ocasio, nem creio que lho fossem pedir
por outro motivo. Pois nem o nome do autor, se faltasse
outra excitao, conseguiu encher o teatro, na primeira, e
creio que nica, representao da peca.
Esses e outros sinais dos tempos tinham-lhe azedado a
alma. O eco da quadra ruidosa vinha contrastar com o
atual silncio; no achava a fidelidade da admirao.
Acrescia a poltica, em que to rpido se elevou como caiu,
e donde trouxe a primeira gota de amargor. Quando um
ministro de Estado, interpelado por ele, retorquiu-lhe com
palavras que traziam, mais ou menos, este sentido  que
a vida partidria exige a graduao dos postos e a
submisso aos chefes,  usou de uma linguagem exata e
clara para toda a Cmara, mas ininteligvel para Alencar,
cujo sentimento no se acomodava s disciplinas menores
dos partidos.
Entretanto,  certo que a poltica foi uma de suas
ambies, se no por si mesma, ao menos pelo relevo que
do as altas funes do Estado. A poltica tomou-o em sua
nave de ouro; f-lo polemista ardente e brilhante, e
levantou-o logo ao leme do governo. No faltava a Alencar
mais que uma qualidade parlamentar,  a eloquncia. No
possua a eloqncia, antes parecia ter em si todas as
qualidades que lhe eram contrrias; mas, fez-se orador
parlamentar, com esforo, desde que viu que era preciso.
Compreendera que sem a oratria, tinha de ficar na meia
obscuridade. Se o talento da palavra  a primeira condio
do parlamento, no dizer de Macaulay,  que escreveu essa
espcie de trusmo, suponho, para acrescentar
sarcasticamente que a oratria tem a vantagem de
dispensar qualquer outra faculdade, e pode muita vez
cobrir a ignorncia, a fraqueza, a temeridade e os mais
graves e fatais erros,  sabemos que para o nosso
Alencar, como para os melhores, era um talento
complementar, no substitutivo. Deu com ele algumas
202
batalhas duras contra adversrios de primeira ordem. Mas
tudo isso foi rpido. Teve os gozos intensos da poltica, no
os teve duradouros. As letras, posto que mais gratas que
ela, apenas o consolaram; j lhes no achou o sabor
primitivo. Voltou a elas inteiramente, mas solitrio e
desenganado. A morte veio tom-lo depressa. Jamais me
esqueceu a impresso que recebi quando dei com o
cadver de Alencar no alto da essa, prestes a ser
transferido para o cemitrio. O homem estava ligado aos
anos das minhas estrias. Tinha-lhe afeto, conhecia-o
desde o tempo em que ele ria, no me podia acostumar 
idia de que a trivialidade da morte houvesse desfeito esse
artista fadado para distribuir a vida.
A posteridade dar a este livro o lugar que definitivamente
lhe competir. Nem todos chegam intactos aos olhos dela;
casos h, em que um s resume tudo o que o escritor
deixou neste mundo. Manon Lescaut, por exemplo,  a
imortal novela daquele padre que escreveu tantas outras,
agora esquecidas. O autor de Iracema e d' OGuarani pode
esperar confiado. H aqui mesmo uma inconsciente
alegoria. Quando o Paraba alaga tudo, Peri, para salvar
Ceclia, arranca uma palmeira, a poder de grandes
esforos. Ningum ainda esqueceu essa pgina magnfica.
A palmeira tomba. Ceclia  depositada nela. Peri murmura
ao ouvido da moa: Tu vivers, e vo ambos por ali
abaixo, entre gua e cu, at que se somem no horizonte.
Ceclia  a alma do grande escritor, a rvore  a Ptria que
a leva na grande torrente dos tempos. Tu vivers!
[29] NA ACADEMIA BRASILEIRA
I / [DISCURSO INAUGURAL]
[20 jul. 1897]
SENHORES:
Investindo-me no cargo de presidente, quisestes comear
a Academia Brasileira de Letras pela consagrao da idade.
Se no sou o mais velho dos nossos colegas, estou entre
os mais velhos.  simblico da parte de uma instituio que
conta viver, confiar da idade funes que mais de um
esprito eminente exerceria melhor. Agora que vos
203
agradeo a escolha, digo-vos que buscarei na medida do
possvel corresponder  vossa confiana.
No  preciso definir esta instituio. Iniciada por um
moo, aceita e completada por moos, a Academia nasce
com a alma nova e naturalmente ambiciosa. O vosso
desejo  conservar, no meio da federao poltica, a
unidade literria. Tal obra exige no s a compreenso
pblica, mas ainda e principalmente a vossa constncia. A
Academia Francesa, pela qual esta se modelou, sobrevive
aos acontecimentos de toda a casta, s escolas literrias e
s transformaes civis. A vossa h de querer ter as
mesmas feies de estabilidade e progresso. J o batismo
das suas cadeiras com os nomes preclaros e saudosos da
fico, da lrica, da crtica e da eloqncia nacionais 
i__ndcio de que a tradio  o seu primeiro voto. Cabe-vos
fazer com que ele perdure. Passai aos vossos sucessores o
pensamento e a vontade iniciais, para que eles os
transmitam tambm aos seus, e a vossa obra seja contada
entre as slidas e brilhantes pginas da nossa vida
brasileira. Est aberta a sesso.
[30] NA ACADEMIA BRASILEIRA
II / SESSO DE ENCERRAMENTO
[7 dez. 1897.]
UM ARTIGO do nosso regimento interno impe-nos a
obrigao de adotar no fim de cada ano o programa dos
trabalhos do ano vindouro. Outro artigo atribui ao
presidente a exposio justificativa deste programa.
Como a nossa ambio, nestes meses de incio, 
moderada e simples convm que as promessas no sejam
largas. Tudo ir devagar e com tempo. No faltaram
simpatias s nossas estrias. A lngua francesa, que vai a
toda parte, j deu as boas-vindas a esta instituio.
Primeiro sorriu; era natural, a dois passos da Academia
Francesa; depois louvou, e, a dois passos da Academia
Francesa, um louvor vale por dois. Em poucos meses de
vida  muito. Dentro do pas achamos boa vontade e
animao, a imprensa tem-nos agasalhado com palavras
amigas. Apesar de tudo, a vida desta primeira hora foi
204
modesta, quase obscura. Nascida entre graves cuidados de
ordem pblica, a Academia Brasileira de Letras tem de ser
o que so as associaes anlogas: uma torre de marfim,
onde se espritos literrios, com a nica preocupao
literria, e de onde, estendendo os olhos para todos os
lados, vejam claro e quieto. Homens daqui podem escrever
pginas de histria, mas a histria faz-se l fora. H
justamente cem anos o maior homem de ao dos nossos
tempos, agradecendo a eleio de membro do Instituto de
Frana, respondia que, antes de ser igual aos seus colegas,
seria por muito tempo seu discpulo. No era ainda uma
faceirice de grande capito, posto que esse rapaz de vinte
e oito anos meditasse j sair  conquista do mundo. A
Academia Brasileira de Letras no pede tanto aos homens
pblicos deste pas; no inculca ser igual nem mestra
deles. Contenta-se em fazer na medida de suas foras
individuais e coletivas, aquilo que esse mesmo acadmico
de 1797 disse ento ser a ocupao mais honrosa e til dos
homens: trabalhar pela extenso das idias humanas.
No prximo ano no temos mais que dar andamento ao
anurio bibliogrfico, coligir os dados biogrficos e
literrios, como subsdio para um dicionrio bibliogrfico
nacional, e, se for possvel, alguns elementos do
vocabulrio crtico dos brasileirismos entrados na lngua
portuguesa e das diferenas no modo de falar e escrever
dos dois povos, como nos obrigamos por um artigo do
regimento interno.
So obras de flego cuja importncia no  preciso
encarecer a vossos olhos. Pedem diuturnidade paciente. A
constncia, se alguma faltou a homens nossos de outra
esfera,  virtude que no pode morar longe desta casa
literria.
O ltimo daqueles trabalhos pode ser feito ainda com
maior pausa; ele exige no s pesquisa grande e
compassada ateno, mas muito crtica tambm. As formas
novas da lngua, ou pela composio de vocbulos, filhos
de usos e de costumes americanos, ou pela modificao de
sentido original, ou ainda por alteraes grficas, sero
matrias de til e porfiado estudo. Com os elementos que
existem esparsos e os que se organizarem, far-se-
qualquer coisa que no prximo sculo se ir emendando e
205
completando. No temamos falar no prximo sculo,  o
mesmo que dizer daqui a trs anos, que ele no espera
mais; e h tal sociedade de dana que no conta viver
menos. No  vaidade da Academia Brasileira de Letras
lanar os olhos to longe.
A Academia, trabalhando pelo conhecimento desses
fenmenos buscar ser, com o tempo, a guarda da nossa
lngua. Caber-lhe- ento defend-la daquilo que no
venha das fontes legtimas - o povo e os escritores - no
confundindo a moda, que perece, com o moderno, que
vivifica. Guardar no  impor; nenhum de vs tem para si
que a Academia decrete frmulas. E depois para guardar
uma lngua,  preciso que ela se guarde tambm a si
mesma, e o melhor dos processos e ainda a composio e
a conservao de obras clssicas. A autoridade dos mortos
no aflige, e  definitiva. Garrett ps na boca de Cames
aquela clebre exortao em que transfere ao "Generoso
Amazonas" o legado do casal paterno. Sejamos um brao
do Amazonas; guardemos em guas tranqilas e sadias o
que ele acarretar na marcha do tempo.
No h justificar o que de si mesmo se justifica; limito-me
a esta breve indicao de programa. As investigaes a
que nos vamos propor, esse recolher de leitura ou de
outiva, no ser um ofcio brilhante ou ruidoso, mas  til,
e a utilidade  um ttulo ainda nas academias.
[31] MAGALHES DE AZEREDO: PROCELRIAS
EIS AQUI um livro feito de verdade e poesia, para dar-lhe o
ttulo das memrias de Goethe. No so memrias; a
verdade entra aqui pela sinceridade do homem, e a poesia
pelos lavores do artista. Nem se diga que tais so as
condies, essenciais de um livro de versos. No
contradigo a assero, peo s que concordem no ser
comum nem de todos os dias este balano igual e cabal de
emoo e de arte.
Magalhes de Azeredo no  um nome recente. H oito
para nove anos que trabalha com afinco e apuro. Prosa e
206
verso, descrio e critica, idias e sensaes, a vrias
formas e assuntos tem dado o seu esprito. Pouco a pouco
veio andando, at fazer-se um dos mais brilhantes nomes
da gerao nova, e ao mesmo tempo um dos seus mais
sisudos caracteres. Quem escreve estas linhas sente-se
bastante livre para julg-lo, por mais ntima e direta que
seja a afeio que o liga ao poeta das Procelrias. Um dos
primeiros confidentes dos seus tentmens literrios.
estimou v-lo caminhar sempre, juntamente modesto e
ambicioso, daquela ambio paciente que cogita primeiro
da perfeio que do rumor pblico. J nesta mesma
Revista, j em folhas quotidianas, deu composies suas,
de vria espcie, e no h muito publicou em folheto a ode
A Portugal, por ocasio do centenrio dos ndias,
acompanhada da carta a Ea de Queirs, a primeira das
quais foi impressa na Revista Brasileira.
Este livro das Procelrias mostra o valor do artista. Desde
muito anunciado entre poucos, s agora aparece, quando o
poeta julgou no lhe faltar mais nada, e vem apresent-lo
simplesmente ao pblico. Desde as primeiras pginas,
vem-se bem juntas a poesia e a verdade: so as duas
composies votivas,  me e  esposa. A primeira resume
bem a influncia que a me do poeta teve na formao
moral do filho. Este verso:
No me disseste: Vai! disseste: Eu vou contigo!
conta a histria daquela valente senhora, que o
acompanhou sempre e a toda parte, nos estudos e nos
trabalhos, onde quer que ele estivesse, e agora vive a seu
lado, ouvindo-lhe esta bela confisso:
Tu  tudo o que bom e nobre em mim existe,
e esta outra, com que termina a estrofe derradeira da
composio, a um tempo bela, terna e bem expressa:
Duas vezes teu filho e tua criatura!
Eis por que me confesso, enternecidamente,
Ao p de tais versos vm os que o poeta dedicou  noiva:
so do mesmo ano de 1895. O poeta convida a noiva ao
amor e  luta da existncia. Nestes, como naqueles, pede
perdo dos erros da vida, fala do presente e do futuro,
207
chega a falar da velhice, e da consolao que acharo em
si de se haverem amado.
Ora, o livro todo  a justificao daquelas duas pginas
votivas. Uma parte  a dos erros, que no so mais que as
primeiras paixes da juventude, ainda assim veladas e
castas, e algumas delas apenas pressentidas. O poeta,
como todos os moos, conta os seus meses por anos. Em
1890 fala-nos de papis velhos, amores e poesias, e
compe com isso um dos melhores sonetos da coleo. J
se d por um daqueles que "riem s porque chorar no
sabem". Certo  que h raios de luz e pedaos de cu no
meio daquela sombra passageira. A sinceridade de tudo
est na sensibilidade particular da pessoa, a quem o
mnimo di e o mnimo delicia. Uma das composies
principais dessa parte do livro  a "Ode Triunfal", em que a
comoo cresce at esta nota:
Ah! como fora doce
Morrer nesse delrio vago e terno,
Em teu seio morrer,  morrer num trono;
E ter teus beijos, como sonho eterno
Do meu eterno sonho...
E at esta outra, com que a ode termina:
Deixa-me absorto, a ss contigo, a ss!
L fora, longe, tumultua o mundo,
Em baldas lutas... Tumultue embora!
Que vale o mundo agora?
O mundo somos ns!
As datas,  e alguma vez a prpria falta delas, 
poderiam dar-nos a histria moral daquele trecho da vida
do poeta. Os seus mais ntimos suspiros antigos so de
criana, como Musset dizia dos seus primeiros versos;
assim temos o citado soneto dos "Papis Velhos" e outras
pginas, e ainda aquela dos "Cabelos Brancos", uns que
precocemente encaneceram, cabelos de viva moa, objeto
de uma das mais doces elegias do livro. H nele tambm
vrias sombras que passam como a do Livro Sagrado,
como a da menina inglesa (Good Night), que uma tarde lhe
deu as boas noites, e com quem o poeta valsara uma vez.
Um dia veio a saber que era morta, e que a ltima palavra
que lhe saiu dos lbios foi o seu nome, e foi tambm a
primeira notcia do estado da alma da moa; a sepultura 
que lhe no deu, por mais que a interrogasse, seno esta
melanclica resposta:
208
E eu leio sobre a sua humilde lousa:
Graa, beleza, juventude .... e Nada!
Cito versos soltos, quisera transcrever uma composio
inteira, mas hesito entre mais de uma, como o "Carnaval",
por exemplo, e tantas outras, ou como aquele soneto "Em
Desalento", cuja estrofe final to energicamente resume o
estado moral expresso nas primeiras. Podeis julg-lo
diretamente:
Ando de mgoas tais entristecido.
Por mais que as minhas rebeldias dome ...
Tanta angstia me abate e me consome,
ue do meu prprio senso ora duvido.
Tudo por causa deste amor perdido,
Que a ti s, para sempre, escravizou-me;
Tudo porque aprendi teu caro nome,
Porque o gravei no peito dolorido.
Vs que eu sou, dizes bem, uma criana,
E j de tdio envelhecer me sinto,
E a mesma luz do sol meus olhos cansa;
Pois, como absorve um lenho o mar faminto,
Um corpo a tumba, a morte uma esperana,
Tal teu ser absorveu meu ser extinto.
Belo soneto, sem dvida, feito de sentimento e de arte.
Todo o livro reflete assim as impresses diferentes do
poeta, e os versos trazem, com o alento da inspirao, o
cuidado da forma. Fogem ao banal, sem cair no rebuscado.
As estrofes variam de metro e de rima, e no buscam
suprir o cansado pelo inslito. A educao do artista
revela-se bem na escolha e na renovao. Magalhes de
Azeredo d expresso nova ao tema antigo, e no
confunde o raro com o afetado. Alm disso,   suprfluo
diz-lo,  ama a poesia com a mesma ternura e respeito
que nos mostra naquelas duas composies votivas do
intrito. Pode ter momentos de desnimo como no "Soneto
Negro", e achar que " triste a decadncia antes da glria",
mas o esprito normal do poeta est no "Escudo", que
andou pela Terra Santa, e agora ningum j pode erguer
sem cair vencido; tal escudo, no conceito do autor,  o
Belo,  a Forma,  a Arte, que o artista busca e no
alcana, sem ficar abatido com isso, antes sentindo que,
embora caia ignorado do vulgo,  doce hav-los adorado
na vida.
209
Aqui se distinguem as duas fontes da inspirao de
Magalhes de Azeredo, ou as duas fases, se parece melhor
assim. Quando as sensaes, que chamarei de ensaio,
ditam os versos, eles trazem a nota de melancolia,de
incerteza e de mistrio, alguma vez de entusiasmo; mas a
contemplao pura e desambiciosa da arte d-lhe o alento
maior, e ainda quando cr que no pode sobraar o
escudo, a idiade hav-lo despegado da parede  bastante
 continuao da obra. Ser preciso dizer que esse receio
no  mais que modstia, sempre cabida, posto que a
reincidncia do esforo traz a esperana da vitria? E ser
preciso afirmar que a vitria  dos que tm, com a
centelha do engenho, a obstinao do trabalho, e
conseguintemente  dele tambm? Assim, ou pelas
sensaes do moo ou pela robustez do artista, este livro
" a vida que ele viveu" como o poeta se exprime em
uma pgina que li com emoo. Na composio final  o
sentimento da arte que persiste, quando o poeta fala 
musa em fortes e fluentes versos alexandrinos, to
apropriados  contemplao longa e mstica da idia.
No quero tratar aqui do prosador a propsito deste
primeiro livro de versos. De resto, os leitores da Revista
Brasileira j o conhecem por esse lado, e sabem que
Magalhes de Azeredo ser em uma e outra forma um dos
primeiros espritos da gerao que surge. Neste ponto, a
ode A Portugal com a carta a Ea de Queirs, publicada em
avulso, do clara amostra de ambas as lnguas do nosso
jovem patrcio.
Felizes os que entre um e outro sculo podem dar aos que
se vo embora um antegosto do que h de vir, e aos que
vm chegando uma lembrana e exemplo do que foi ou
acaba. Tal  o nosso Magalhes de Azeredo por seus dotes
nativos, paciente e forte cultura.
[32] GARRETT
QUEM DISSE de Garrett que ele s por si valia uma
literatura disse bem e breve o que dele se poder escrever
sem encarecimento nem falha. Tambm ele o proclamou
210
assim, ainda que mais longamente, naquele prefcio das
Viagens na Minha Terra, que  a sua maior apologia.
No assinou o prefcio; mas ningum escrevia assim seno
ele, nem ele o fez para se mascarar. Os editores, a quem o
autor atribuiu to belas e justas coisas, se acaso cuidaram
haver emparelhado no estilo com o grande escritor, foram
os nicos que se iludiram. No sabemos se hoje lhe
perdoaramos isto, A ns, e  gente da nossa mocidade
parecia um direito seu, unicamente seu.
Estvamos perto do bito do poeta; tnhamos balbuciado
as suas pginas, como as de outros, que tambm foram
poetas ou prosadores, romancistas ou dramaturgos,
oradores ou humoristas, quando ele foi tudo isso a um
tempo, deixando um primor em cada gnero. ramos
moos todos. Nenhum havia nascido com o Cames e a
Dona Branca, nenhum mais velho que estes, menos ainda
algum que datasse daquele dia 4 de fevereiro de 1799,
quando a raa portuguesa deu de si o seu maior engenho
depois de Cames.
Nem s ramos moos, ramos ainda romnticos; cantava
em ns a toada de Gonalves Dias, ouvamos Alencar
domar os mares bravios da sua terra, naquele poema em
prosa que nos deixou, o lvares de Azevedo era o nosso
aperitivo de Byron e Shakespeare. De Garrett at as
anedotas nos encantavam. C chegavam por cima dos
mares o eco dos seus tempos verdes e maduros, os
amores que trouxera, a amizade que eles e a poesia deram
e mantiveram entre o poeta luso e o nosso Itamarac, o
pico dos seus ditos e finalmente as graas teimosas dos
seus ltimos anos.
Certo  que quando ele nasceu, vinha a caminho o
Romantismo, com Goethe, com Chateaubriand, com Byron.
Mas ele mesmo, que trouxe a planta nova para Portugal, 
ou a vacina, como lhe chamou algures,  ainda na
Universidade de Coimbra cuidava de tragdias clssicas
antes que do Frei Lus de Sousa. Fez muito verso da velha
escola, at que de todo sacudiu o manto caduco, evento
comemorado assim naqueles versos da Dona Branca:
211
No rias, bom filsofo Duarte,
Da minha converso, sincera  ela;
Dei de mo s fices do paganismo,
E, cristo vate, cristos versos fao
No era cedo para fazer versos cristos. Chateaubriand,
desde o alvor do sculo, louvava as graas nativas do
cristianismo, e descobria, cheio de Rousseau, a candura do
homem natural.
Garrett, posto fosse em sua terra o iniciador das novas
formas, no foi copista delas, e tudo que lhe saiu das mos
trazia um cunho prprio e puramente nacional. Pelo
assunto, pelo tom, pela lngua, pelo sentimento era o
homem da sua ptria e do seu sculo. A este encheu
durante cerca de quarenta anos. Teve crticas
naturalmente, e desafeies, e provavelmente desestimas;
no lhe minguaram golpes nem sarcasmos, mas a
admirao era maior que eles, e as obras sucediam-se
graves ou lindas, e sempre altas, para modelo de outros.
No cabe aqui, feito s pressas, o estudo do autor de Frei
Lus de Sousa, da Adozinda e das Folhas Cadas, e, para s
louvar tais obras, basta nome-las, como s outras suas
irms. Ningum as esqueceu, uma vez lidas. Estamos a
celebrar o centenrio do nascimento do poeta, que pouco
mais viveu de meio sculo e acodem-nos  mente todas as
suas invenes com a forma em que as fez vivedouras. Os
versos, desde os que comps s divas gregas at aos que
fez s suas devotas catlicas como que ficaram no ar
cantando as loas do grande esprito.
Figuras que ele criou rodeiam-nos com o gesto peculiar e
alma prpria, Catarina, Madalena, Maria, Paula, Vicente,
Branca, ao p de outras mculas ou esbeltas, cingindo a
fronte de Cames ou de Bernardim Ribeiro, e aquela que
aceita um mouro com todos os seus pecados de incru e de
homem, e a mais tocante de todas, a mais trgica, essa
que v tornar da morte suposta e acabada o primeiro
marido de sua me para separar seus pais.
No nos acode igualmente o seu papel poltico. O que nos
lembra dos discursos  o que  s literrio, e do ofcio de
ministro que exerceu recorda-nos que fez alguns trabalhos
212
para criar o teatro nacional, mas valeram menos que Um
Auto de Gil Vicente. Se negociou algum
tratado, como os tratados morrem, continuamos a ler as
suas pginas vivas. Foi gosto seu meter-se em poltica, e
mostrar que no valia s por versos.
Tendo combatido pela revoluo de 1820, como
Chateaubriand, sob as ordens dos prncipes, quis ser como
este e Lamartine, ministro e homem de estado. No sei se
advertiu que  menos agro retratar os homens que reglos.
Talvez sim;  o que se pode deduzir de mais de uma
pagina ntima. Em todo caso, no  o poltico que ora
celebramos, mas o escritor, um dos maiores da lngua, um
dos primeiros do sculo, e o que junta em seus livros a
alma da nao com a vida da humanidade.
[33] EA DE QUEIRS
[RJ, 23 ago. 1900.]
MEU CARO H. Chaves.  Que hei de dizer que valha esta
calamidade? Para os romancistas  como se perdssemos o
melhor da famlia, o mais esbelto e o mais valido. E tal
famlia no se compe s dos que entraram com ele na
vida do esprito, mas tambm das relquias da outra
gerao, e, finalmente, da flor da nova. Tal que comeou
pela estranheza acabou pela admirao. Os mesmos que
ele haver ferido, quando exercia a crtica direta e
cotidiana, perdoaram-lhe o mal da dor pelo mel da lngua,
pelas novas graas que lhe deu, pelas tradies velhas que
conservou, e mais a fora que as uniu umas e outras, como
s as une a grande arte. A arte existia, a lngua existia,
nem podamos os dois povos, sem elas, guardar o
patrimnio de Vieira e de Cames; mas cada passo do
sculo renova o anterior e a cada gerao cabem os seus
profetas.
A antigidade consolava-se dos que morriam cedo
considerando que era a sorte daqueles a quem os deuses
amavam. Quando a morte encontra um Goethe ou um
Voltaire, parece que esses grandes homens, na idade
extrema a que chegaram, precisam de entrar na
213
eternidade e no infinito, sem nada mais dever  terra que
os ouviu e admirou. Onde ela  sem compensao  no
ponto da vida em que o engenho subido ao grau sumo,
como aquele de Ea de Queirs,  e como o nosso querido
Ferreira de Arajo, que ainda ontem fomos levar ao
cemitrio,  tem ainda muito que dar e perfazer. Em plena
fora da idade, o mal os toma e lhes tira da mo a pena
que trabalha e evoca, pinta, canta, faz Iodos os ofcios da
criao espiritual. Por mais esperado que fosse esse bito,
veio como repentino. Domcio da Gama, ao transmitir-me
h poucos meses um abrao de Ea, j o cria agonizante.
No sei se chegou a tempo de lhe dar o meu. Nem ele,
nem Eduardo Prado, seus amigos, tero visto apagar-se de
todo aquele rijo e fino esprito, mas um e outro devem
cont-lo aos que deste lado falam a mesma lngua,
admiram os mesmos livros e estimavam o mesmo homem.
[34] MAGALHES DE AZEREDO: HORAS SAGRADAS E
VERSOS
COM O TTULO Horas Sagradas, acaba de publicar
Magalhes de Azeredo um livro de versos, que no s no
desmentem dos versos anteriores, mais ainda se pode
dizer que os vencem e mostram no talento do poeta um
grau de perfeio crescente. Folgamos de o noticiar, ao
mesmo tempo que outro livro, de Mrio de Alencar, seu
amigo, seu irmo de esprito e de tendncia, de cultura e
de ideal. Chama-se este outro simplesmente Versos.
Quisramos fazer de ambos um demorado estudo. No o
podendo agora, lembramos s o que os nossos leitores
sabem, isto , que Magalhes de Azeredo, mais copioso e
vasto, tem um nome feito, enquanto que Mrio de Alencar,
para honrar o de seu ilustre pai, comea a escrever o seu
no livro das letras brasileiras, no s pressas, mas
vagaroso, com a mo firme e pensativo, para no errar
nem confundir.
Um ponto, alm de outras afinidades, mostra o parentesco
dos dois espritos. No  o amor da glria, que o primeiro
canta, confessa e define, por tantas faces e origens, na
214
ltima composio do livro, e o segundo no ousa dizer
nem definir. Mas a mesmo se unem.. Porquanto, se Mrio
de Alencar confessa: "o autor  um incontentado do que
faz" e, alis, j Voltaire dissera a mesma coisa de si: "Je ne
suis jamais content de mes vers", Magalhes de Azeredo
nas vrias definies da glria, chega indiretamente a igual
confisso, quando pe na perfeio a glria mais augusta,
e cita os annimos da Vnus de Milo e da Imitao, at
exclamar como Fausto:
E exclamar como Fausto em xtase exclamara:
tomo fugitivo, s belo, s belo, pra!
Isto, que est no fim do livro de Magalhes de Azeredo,
est tambm no princpio, quando ele abre mo das Horas
Sagradas. Confessa que as guardou por largo tempo:
Por largo tempo, neste ermo oculto
Guardei-vos. Ide para o tumulto
Das gentes. Quer-vos a sorte ali.
Colhereis louros? Mas ah! que louros
Os vossos gozos, que eu conheci?
E c vieram as Horas Sagradas, ttulo que to bem assenta
no livro. Elas so sagradas pelo sentimento e pela
inspirao, pelo amor, pela arte, pela comemorao dos
grandes mortos, pela nobreza do cidado, da virtude e da
histria. A religio tem aqui tambm o seu lugar, como no
corao do poeta. Tudo  puro. No "Rosal de Amor",
primeira parte do livro, no h flores apanhadas na rua ou
abafadas na sala. Todas respiram o ar livre e limpo, e por
vezes agreste. Um soneto, Ad Purissimam, mostra a
castidade da musa, uma das musas, devemos dizer,
porque aqui est, nas estrofes "Mame", a outra das suas
musas domsticas.  um basto rosal este a que no faltar
porventura alguma flor triste, mas to rara e to
graciosaainda na tristeza, que mal nos d essa sensao. A
msica dos versos faz esquecer a melancolia do sentido.
"Matinal", "Ao Sol", "Crepuscular" do o tom da vida
universal e do amor, a terra fresca e o cu aberto.
Os Bronzes Florentinos  uma bela coleo de grandes
nomes de e do mundo, pginas que (no importa a
distncia nem o desconhecimento da cidade para os que l
no foram), produzem na alma do leitor c de longe uma
215
vibrao de arte nova e antiga a um tempo, ao lado do
poeta, a acompanh-lo:
Atravs do Gentil e do Sublime.
No quisramos citar mais nada; seria preciso citar muito,
transportar para fora do livro estrofes que desejam l ficar,
entre as que o poeta ligou na mesma e linda medalha. Mas
como deixar de repetir este fecho de bronze de Dante:
Quem, depois de sofrer o dio profundo
Da ptria, viu o inferno, e chorou tanto,
J no  criatura deste mundo.
E muitos outros deliciosos sonetos, fazendo passar ante os
olhos Petrarca, Giotto, Leonardo da Vinci, Miguel Angelo,
Boccacio, Donatello, Frei Anglico, e tantos cujos nomes l
esto na igreja de Santa Cruz, onde o poeta entrou em
dias caros s musas brasileiras. Cada figura traz a sua
expresso nativa e histrica; aqui est Leo X, acabando
na risada pontifcia; aqui Cellini, cinzelando o punhal com
que  capaz de ferir; aqui Savonarola, a morrer queimado
e sem gemer por esta razo de apstolo:
Ardia mais que as chamas a tua alma!
No poderia transcrever uns sem outros, mas o ltimo
bronze dar conta dos primeiros:  Galileu Galilei:
L na Torre do Galo, esguia e muda,
Entre rvores vetustas escondida,
No entardecer da trabalhada vida
O potente ancio medita e estuda.
J nos olhos extinta  a luz aguda,
Que os cus sondava em incessante lida:
Mas inda a fronte curva e encanecida
Pensamentos intrpidos escuda.
Sorrindo agora das neqcias feras,
Que, por amor do ideal sofrido tinha,
Ele a sentena das vindouras eras
Invoca, e os seus triunfos adivinha,
Ouvindo, entre a harmonia das esferas
O compasso da Terra, que caminha.
Nem s Florena ocupa o nosso poeta, amigo de sua
ptria. As "Odes Cvicas" dizem de ns ou da nossa lngua.
Magalhes de Azeredo  o primeiro que no-lo recorda, nos
216
versos "Ao Brasil", por ocasio do centenrio da
descoberta. O centenrio das ndias achou nele um cantor
animado e alto. A ode "A Garrett exprime uma dessas
adoraes que a figura nobre e elegante do grande homem
inspira a quem o leu e releu, por anos. Enfim, com o ttulo
"Alma Errante" vem a ltima parte do livro. Aqui variam os
assuntos, desde a ode "As guias ", em que tudo 
movimento e grandeza, at quadros e pensamentos
menores, outros tristes, uma saudade, um infortnio
social, um sonho, ou este delicioso soneto "Sobre um
Quadro Antigo";
Os sculos em bruma lenta e escura
Te ocultam, vaga imagem feminina:
E cada ano, ao passar, tredo elimina
Mais uni resto de tua formosura.
Apenas, no esbatido da pintura,
Algum tom claro, alguma linha fina,
Revelando-te a graa feminina,
Dizem que foste,  frgil criatura ...
Ah! como s! - s mais bela do que outrora.
Seduz-me esse ar distante, esse indeciso
Crepsculo em que vives, me enamora.
O tempo um gozo intensamente doce
Ps-te no exangue, plido sorriso;
E o teu humano olhar divinizou-se ...
Em resumo escasso, apenas indicaes de passagens, tal 
o livro de Magalhes de Azeredo, um dos primeiros
escritores da nova -gerao. A perfeio e a inspirao
crescem agora mais, repetimos. Ele, como os seus pares
conjugam dois sculos, um que l vai to cheio e to forte,
outro que ora chega to nutrido de esperanas, por mais
que os problemas s agravem nele; mas, se no somos
dos que crem no fim do mal, no descremos da nobreza
do esforo, e sobretudo das consolaes da arte. Aqui est
um esprito forte e hbil para no-las dar na nossa lngua.
Faa o mesmo o seu amigo e irmo, Mrio de Alencar, cujo
livro, pequeno e leve, contm o que deixamos dito no
princpio desta notcia.  outro que figurar entre os da
gerao que comeou no ltimo decnio. Particularmente,
entre Mrio de Alencar e Magalhes de Azeredo, alm das
afinidades indicadas, h o encontro de duas musas que os
consolam e animam. O acerto da inspirao e a gemeidade
da tendncia levou-os a cantar a Grcia como se fazia nos
217
tempos de Byron e de Hugo. A sobriedade  tambm um
dos talentos de Mrio de Alencar. Quando no h idia, a
sobriedade  apenas -a falta de um recurso, e assim dois
males juntos, porque a abundncia e alguma vez o excesso
suprem o resto. Mas no so idias que lhe Faltam; nem
idias, nem sensaes, nem vises, como aquela
"Marinha", que assim comea:
Sopra o terral. A noite  calma. Faz luar
Intercadente
Soa na praia molemente
A voz do mar.
As coisas dormem; dorme a terra, e no ar sereno
Nenhum rudo
Perturba o encanto recolhido
Do luar pleno.
Ampla mudez. A lua grande pelo cu
Sem nuvens vaga
E cobre o mar, vaga por vaga,
De um branco vu.
Longe,  merc da branda aragem, vai passando'
Parda falua.
Nas pandas velas bate a lua
De quando em quando...
Lede o resto no livro, onde achareis outras pginas a que
voltareis, e vos faro esperar melhores, pedimos que em
breve. Que ele sacuda de si esse entorpecimento, salvo se
 apenas respeito ao seu grande nome; mas ainda assim o
melhor respeito  a imitao. Tenha a confiana que deve
em si mesmo. Sabe cantar os sentimentos doces sem
banalidade, e os grandes motivos no o deixam frio nem
resistente. Ainda ontem tivemos de ler o que Magalhes de
Azeredo disse de Mrio de Alencar, e dias antes dissera
deste J. Verssimo, ns assinamos as opinies de um e de
outro.
[35] [OLIVEIRA LIMA: SECRETRIO D'EL-REI
O SR. DR. OLIVEIRA LIMA, entre um e outro livro de
histria, d-nos agora uma comdia. Que vos no assuste
este nome, vs que no amais as formas fceis de
literatura; nem esta  to fcil, como podeis crer, nem
deixa de envolver um caso psicolgico interessante.
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Acrescentai-lhe o quadro e a lngua, e tereis um volume de
ler, reler e guardar.
Com razo chama o autor ao seu Secretrio dEl-Rei uma
pea nacional, embora a ao se passe na nossa antiga
metrpole, por aqueles anos de D. Joo V.  duas vezes
nacional, em relao  sociedade de Lisboa.
A aventura que constitui a ao  do lugar e do tempo; as
pessoas e os atos que figuram nela caracterizam bem a
capital dos reinos, com as mscaras dos namorados
noturnos, a gelosia de sua dama, o encontro de vadios,
capas enroladas, espadas nuas, mortos, feridos, a ronda,
todo o cerimonial de uma aventura daquelas. Meteu-lhes o
autor o prprio irmo do rei, infante D. Francisco, ainda
que o no traga  cena, e a prpria amada do secretrio,
que entra a pedir a absolvio do outro __amado por ela, e
com esta complicao poltica e pessoal dividiu o interesse
da ao.
O centro dela  naturalmente Dom Alexandre de Gusmo,
em quem o autor quis pr o nosso prprio interesse
nacional. Nasceu-lhe a afeio j em anos maduros, no foi
aceita, no foi reiterada, sem por isso esquecer nem
acabar. Solicitado a servir a dama por outra maneira e
para outro fim, Gusmo no o faz menos lealmente que em
seu mesmo favor, se a tivesse de haver para si. A ltima
palavra da comdia resume o carter do secretrio,
livrando e casando o preferido de D. Luz, mandando-os
para o seu Brasil, e acabando por lhes ensinar o segredo
da vida, que  "levar as coisas... a rir, mesmo quando elas
ho de fazer-nos chorar".
ar Aqui sente o leitor o que Gusmo quisera ocultar j de
todos, e admira a fora da alma de um homem talhado
para grandes desgnios.
Gusmo, D. Luz, D. Fernando formam assim. as trs
principais pessoas da comdia; mas era impossvel uma
histria daquela gente sem frades. Assim o queria Garrett,
que no via em Portugal coisa pblica ou particular sem
eles e usou deles. Aqui h um, nem podia deixar de havlo
em pleno D. Joo V; h tambm um embaixador, o
ingls naturalmente, e finalmente uma ama, ama de todas
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as peas, ainda trgicas, como a da Castro: "Ama, na
criao; ama no amor de me". Esta, a Assuno, parece
ser igualmente ambas as coisas. Ponde-lhe o convento a
que se acolhe o namorado ferido, o lausperene, as
touradas, o santo ofcio, as contendas. as namoradas do
rei, e reconhecereis, como ficou dito, que o quadro serve
bem de fundo ao enredo inventado pelo autor.
Quanto ao dilogo, tem as qualidades que poderamos
exigir da composio e das pessoas. Dizem-se por ele, 
desde aquele escudeiro Joo Brs, - todas as mincias e
circunstncias precisas para a notcia dos caracteres e da
ao. H facilidade e naturalidade, vida e interesse, a
reflexo que no pesa e a graa que no enfastia. V-se
bem a lealdade do escrivo da puridade, ouve-se o sonho
imperial de Gusmo, sem que a linguagem enfie a pompa
intil ou dispa a compostura que lhe d unidade.
A consagrao cnica diz o Sr. Oliveira Lima que merece,
como poucas, a figura de Dom Alexandre de Gusmo; ele
acaba de lha dar, com a conscincia do personagem e do
assunto. Sabemos que os estudos histricos e de
observao social e poltica so prediletos do nosso ilustre
patrcio. O talento brilhante e slido, a instruo paciente e
funda, o amor da verdade, tudo isto que o Sr. Oliveira Lima
nos tem dado em muitas outras pginas, acha aqui, ainda
uma vez, aquele lao de esprito nacional que lhe assegura
lugar eminente na literatura histrica e poltica da nossa
terra. Folgamos de o dizer agora, e esperamos repeti-lo em
breve.
[36] JOAQUIM NABUCO: PENSES DTACHES ET
SOUVENIRS
[RJ,19 ago. 1906.]
MEU QUERIDO NABUCO,  Quero agradecer-lhe a
impresso que me deixaram estas suas pginas de
pensamentos e recordaes. Vo aparecer justamente
quando V. cuida de tarefas prticas de ordem poltica. Um
professor de Douai, referindo-se  influncia relativa do
pensador e do homem pblico, perguntava uma vez (assim
o conta Dietrich) se haveria grande progresso em colocar
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Aristides acima de Plato, e Pitt acima de Locke. Conclua
pela negativa. Voc nos d juntos o homem pblico e o
pensador. Esta obra no feita agora mas agora publicada,
vem mostrar que em meio dos graves trabalhos que o
Estado lhe confiou no repudia as faculdades deles de
artista que primeiro exerceu e to brilhantemente lhe
criaram rara a carreira literria.
Erro  dizer como V. diz em uma destas pginas, que
"nada h mais cansativo que ler pensamentos". S o tdio
cansa, meu amigo e este mal no entrou aqui, onde
tambm no teve acolhia a vulgaridade. Ambos, alis, so
seus naturais inimigos. Tambm no  acertado crer que,
"se alguns espritos os lem,  s por distrao, e so
raros". Quando fosse verdade, eu seria desses raros.
Desde cedo, li muito Pascal, para no citar mais que este,
e afirmo-lhe que no foi por distrao. Ainda hoje quando
torno a tais leituras e me consolo no desconsolo do
Ecclesiastes, acho-lhes o mesmo sabor de outrora. Se
alguma vez me sucede discordar do que leio, sempre
agradeo a maneira por que acho expresso o desacordo.
Pensamentos valem e vivem pela observao exata ou
nova, pela reflexo aguda ou profunda; no menos querem
a originalidade, a simplicidade e a graa do dizer. Tal  o
caso deste seu livro. Todos viro a ele, atrados pela
substncia, que  aguda e muita vez profunda funda, e
encantados da forma, que  sempre bela. H nestas
pginas a histria alternada da influncia religiosa e
filosfica, da observao moral e esttica,. e da experincia
pessoal, j agora longa. O seu interior est aqui aberto s
vistas por aquela forma lapidria que a memria retm
melhor. Idias de infinito e de absoluto, V. as inscreve de
modo direto ou sugestivo, e a nota espiritual  ainda a
caracterstica das suas pginas. Que em todas resplandece
um otimismo sereno e forte, no e preciso dizer-lho;
melhor o sabe, porque o sente deveras. Aqui o vejo
confessado e claro, at nos lugares de alguma tristeza ou
desnimo, pois a tristeza  facilmente consolada, e o
desnimo acha depressa um surto.
No destacarei algumas destas idias e reflexes para no
parecer que trago toda a flor; por numerosas que fossem,
muita mais flor ficaria l. Ao cabo, para mostrar que sinto a
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beleza e a verdade particular delas, bastaria apontar trs
ou quatro. Esta do livro I: "Mui raramente as belas vidas
so interiormente felizes; sempre  preciso sacrificar muita
coisa  unidade",  das que evocam recordaes histricas,
ou observaes diretas, e nas mos de algum, narrador e
psiclogo, podia dar um livro. O mesmo digo daquela
outra, que  tambm uma lio poltica: "Muita vez se
perde uma vida, porque no lugar em que cabia ponto final
se lana um ponto de interrogao." Sabe-se o que era a
vida dos anacoretas, mas dizer como V. que "eles s
conheceram dois estados, o de orao e o de sono, e
provavelmente ainda dormindo estavam rezando",  pr
nesta ltima frase a intensidade e a continuidade do
motivo espiritual do recolhimento, e dar do anacoreta
imagem mais viva que todo um captulo.
Nada mais natural que esta forma de conceito inspire
imitaes, e provavelmente naufrgios. As faculdades que
exige so especiais e raras; e  mais difcil vingar nela que
em composio narrativa e seguida. Exemplo da arte
particular deste gnero  aquele seu pensamento CVIII do
livro III. Certamente, o povo j havia dito, por modo direto
e cho, que ningum est contente com a sua sorte; mas
este outro figurado e alegrico  s da imaginao e do
estilo dela: "Se houvesse um escritrio de permuta para as
felicidades que uns invejam aos outros, todos iriam l
trocar a sua". Assim muitas outras, assim esta imagem de
contrastes e imperfeies relativas: "A borboleta acha-nos
pesados, o pavo mal vestidos, o rouxinol roucos, e a
guia rasteiros".
Em meio de todo este pensado e lapidado, as
reminiscncias que V. aqui ps falam pela voz da saudade
e do mistrio, como esse quadro no cemitrio das cidades.
Voc exprime magnificamente aquela fuso da morte e da
natureza, por extenso e em resumo, e atribui aos prprios
enterrados ali a notcia de que "a morte  o desfolhar da
alma em vista da eterna primavera". Todos gostaro essa
forma de dizer, que para alguns ser apenas potica, e a
poesia  um dos tons do livro. Igualmente sugestivo  o
quadro do dia de chuva e do dia de nevoeiro, ambos em
Petrpolis tambm, como este da "estrada caiada de luar",
e este outro das rvores de altos galhos e folhas finas.
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Confessando e definindo a influncia de Renan em seu
esprito, confessa V. ao mesmo que "o diletantismo dele o
transviou". Toda essa exposio  sincera, e no intrito
exata. Efetivamente, ainda me lembra o tempo em que um
gesto seu, de pura fascinao, me mostrou todo o alcance
da influencia que Chateaubriand exercia ento em seu
esprito. O estudo do contraste destes dois homens 
altamente fino e cheio de interesse. Um e outro l vo, e a
prova melhor da veracidade da confisso aqui feita  a
eqidade do juzo, a franqueza da crtica, o modo por que
afirma que, apesar da religiosidade do exegeta, no se
pde contentar com a filosofia dele.
Reli Massangana. Essa pgina da infncia, j narrada em
nossa lngua, e agora transposta  francesa, que V.
cultivou tambm com amor, d imagem da vida e do
engenho do Norte, ainda para quem os conhea de outiva
ou de leitura; deve ser verdadeira.
No h aqui s o homem de pensamento ou apenas
temperado por ele; h ainda o sentimento evocado e
saudoso, a obedincia viva que se compraz em acudir ao
impulso da vontade. Tudo a, desde o sino do trabalho at
a pacincia do trabalhador, a velha madrinha, senhora de
engenho, e a jovem mucama, tudo respira esse passado
que no torna, nem com as douras ao corao do moo
antigo, nem com as amarguras ao crebro do atual
pensador. Tudo l vai com os primeiros educadores
eminentes do seu esprito, ficando V. neste trabalho de
histria e de poltica, que ora faz em benefcio de um nome
grande e comum a todos ns; mas o pensamento vive e
viver. Adeus, meu caro Nabuco, ainda uma vez agradeo
a impresso que me deu; e oxal no esquea este velho
amigo em quem a admirao refora a afeio, que 
grande.
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Notas
(1) A Marmota., 9 e 23 abr. 1858.
(2) O Espelho, I, 25 set.; II, 2 out.; III, 25 dez. 1859.
(3) Dirio do Rio de Janeiro, 8 out. 1865.
(4) Novo Mundo, 24 mar. 1873.
(5) Revista Brasileira, vol. II, 1 dez. 1879.
(6) "Revista Dramtica", seo do Dirio do Rio de Janeiro, 29 mar. 1860.
(7) "Semana Literria", seo do Dirio do Rio de Janeiro, 9 jan. 1866.
(8) "Semana Literria", seo do Dirio do Rio de Janeiro, 16 jan. 1866.
(9) "Semana Literria", seo do Dirio do Rio de Janeiro, 23 jan. 1866.
(10) "Semana Literria", seo do Dirio do Rio de Janeiro, 30 jan. 1866.
(11)"Semana Literria", seo do Dirio do Rio de Janeiro, 6 fev. 1866.
(12) "Semana Literria", seo do Dirio do Rio de Janeiro, 13 fev. 1866.
(13) "Semana Literria", seo do Dirio do Rio de Janeiro, 13 fev. 1866.
(14) "Semana Literria", seo do Dirio do Rio de Janeiro, 6, 13 e 27
mar.1866.
(15) " Semana Literria", seo do Dirio do Rio de Janeiro, 1 e 8 mai. 1866.
(16) " Semana Literria", seo do Dirio do Rio de Janeiro, 5 jun.1866.
(17) " Semana Literria", seo do Dirio do Rio de Janeiro, 26 jun. 1866.
(18) Resposta a carta de Jos de Alencar.
(19) Carta-prefcio a Nvoas Matutinas, RJ, Frederico Thompson, 1872.
(20) A Crena, ago. 1875. Carta a J. Toms da Porcincula.
(21) O Cruzeiro, 16 e 30 de abr. 1878.
(22) Carta-prefcio a Harmonias Errantes, RJ., Tip. Moreira, 1878.
(23) Introduo a Sinfonias. RJ., Faro & Lrio, 1883.
(24) Prefcio a Contos Seletos das Mil e Uma Noites, RJ, Laemmert & C., s/d.
Repr. na RB, n.o 12. Jun. 1939.
(25) Introduo a Meridionais: RJ, Tip. da GN, 1884.
(26) Carta-prefcio a Miragens. RJ, Tip. de G. Leuzinger & Filhos, 1885.
(27) Em Tipos e Quadros. RJ 1886. Reprod. na RB, no 12, jun. 1939.
(28) Prefcio escrito em 1887 para uma edio de O Guarani, da qual se
publicaram somente os primeiros fascculos.
(31) Revista Brasileira, I. XVI, out. 1898.
(32) Gazeta de Notcias, 4 fev. 1899.
(33) Gazeta de Notcias, 24 ago. 1900. Carta a Henrique Chaves.
(34) Gazeta de Notcias, 7 dez. 1902.
(35) Gazeta de Notcias, 2 jun. 1904.

